#000977 – 02 de Abril de 2022
Em House of Cards, a personagem mais sinistra é Doug. Nada é mais assustador que a lealdade do lacaio de um homem sem escrúpulos.
Em House of Cards, a personagem mais sinistra é Doug. Nada é mais assustador que a lealdade do lacaio de um homem sem escrúpulos.
Em criança sonhava com um futuro de carros voadores. Adulto, quero apenas espaço para pessoas e bicicletas. E o céu livre para os pássaros.
Johanna Nordblad nadou quase 3 minutos debaixo do gelo. Durante 103 metros atravessou a água a 2 graus de temperatura. Vejo as imagens, a silhueta dela a deslizar nos buracos triangulares abertos a cada 10 metros e perco o fôlego. Dói-me este feito físico, só de olhar tremo.
Rafa Ortiz preparou-se para descer as cataratas do Niágara. Durante a preparação bateu o recorde do mundo de descida de cataratas a bordo de um caiaque. Percorreu o mundo, arriscou a vida várias vezes. E quando a preparação chegou ao fim e bastava apenas a etapa final, o objectivo, desistiu. Foi invulgarmente corajoso, abandonando aquilo que tinha dado sentido à sua vida. Afinal, a vida é mais que o seu sentido. A maior parte das vezes, não o tem. E arriscar a morte para o encontrar tem, só por si, pouco de nobre. Escolher viver às vezes é mais difícil que arriscar tudo.
Os escritores foram escrevendo diários. Na sua intimidade, enchiam páginas, tendo presente que um dia, provavelmente, seriam lidas e até publicadas. A ideia do diário do escritor é paradoxal: ao mesmo tempo que sugere o acesso a um mundo mais pessoal, da esfera privada, existe porque o escritor soube preparar o seu espólio. A correspondência, os diários, as notas, tudo isto é o tesouro que o escritor não enterra, deixa à mão de semear. Aqui, não é isso que faço. Escrevo, antes, de forma pública. Paradoxalmente, também. Escrevo como se ninguém me lesse e nunca o fosse fazer. É como um ato clandestino, a minha escrita diária, que consigo executar às claras, sem ser apanhado pelos leitores.
Esta data passa-nos ao lado. A liberdade é-nos familiar. Mas a política vai-se extremando à direita e há o perigo, cada vez mais presente, de voltarmos de ter que lutar por direitos civis básicos. Que não chegue esse tempo das revoluções. Que possamos lutar por mais, construir sobre o que temos e não voltar à estaca zero, ou pior. Não ao aceleracionismo.
Um dia, vi uma mandala a ser construída. Foi talvez o meu último momento de reverência religiosa. Quase me descalcei e tratei o silêncio como uma tela merecedora apenas do ruído dos instrumentos de areia dos monges. Nas últimas vezes que estive próximo de rituais religiosos, mostrei-me respeitador mas apenas da reverência das pessoas à minha volta. O sagrado deixou de ser a forma de eu entender a transcendência. É a música, o beijo, o riso, o abraço, o usufruto do que é mais primário e direto que me comove. Quanto mais próximo da pele, quanto maior a afinidade com o coração, mais divino me parece. A vida, o melhor que ela permite, é o que é material, desde os interstícios do microcosmos das células, até ao respirar das sociedades, desde o mais ínfimo até ao mais vasto. Mistério é o nome preguiçoso com que nomeamos o desconhecido.
Leio demasiados ensaios. Ou melhor, leio menos ficção do que esperaria. A imaginação necessária para uma história exige mais disponibilidade. Surpreende-me esta estranha forma de preguiça.