#000967 – 22 de Abril de 2022
Não sou um ciclista utilitário. Se não gostasse de andar de bicicleta, nunca a usaria. Pedalo porque me faz feliz. O resto vem por acréscimo.
Não sou um ciclista utilitário. Se não gostasse de andar de bicicleta, nunca a usaria. Pedalo porque me faz feliz. O resto vem por acréscimo.
Vou de bicicleta para o emprego: uma frase deliciosa, perfeita à excepção da última palavra. O veículo é mais interessante que o destino.
Devil is Fine regressa ao blues, antes ainda do blues, aos espirituais negros, devolve o heavy metal às origens, derrota de um fôlego o racismo e a misantropia mais atrofiada que o black metal alberga. Como Scúru Fitchádu faz ao punk, Zeal & Ardor salva o black metal de si mesmo.
Junto ao rio leio Miller a falar das aguarelas falhadas com que embrulhava os livros. Eu embrulho a minha vida com a cor de livros falhados.
O passado é uma construção da memória. O futuro, um reflexo da imaginação. A ligação entre um e outro gera o ambiente em que agimos.
Leio o Big Sur de Henry Miller. Tinha lido o de Kerouac. Dois escritores em momentos muito diferentes da sua vida. Kerouac na plena desilusão do seu sucesso, a tentar fugir dos fantasmas do alcoolismo. Miller num espantoso elogio da sobriedade, encontrando uma forma de espiritualidade direta e utopista. Miller seria uma das influências diretas da geração beat. Gosto de ler nesta ordem, da desilusão para a utopia.
Um dia, no trabalho, noutro emprego, um formador lançou um desafio aos formandos. Disse-nos que tinha a certeza que não éramos capazes de deixar o telemóvel em casa um só dia. Aquilo feriu-me. E sem dizer nada a ninguém, no dia seguinte deixei o telemóvel em casa. Ao fim do dia, lembrei-me de tudo. Tinha-me esquecido, porque durante o dia inteiro não me lembrei sequer do telemóvel. Nos poucos anos que passaram, cinco, penso que não deve ter mudado muito. Gosto da ideia de o telemóvel não estar agarrado a mim, nem eu a ele. Penso nele como um telefone, que pode estar noutra divisão, que posso deixar em casa, ao sair. Ficaria muito preocupado se isto mudasse radicalmente. Tenho a sorte de este engenho só ter entrado na minha vida quando eu tinha uns 23 anos. Todas as minhas interações sociais, durante a adolescência, foram feitas sem a mediação do telemóvel. Embora nem sempre tenha isto presente, o mundo em que cresci, socialmente, emocionalmente, foi muito diferente do mundo em que alguém que tenha agora 23 anos cresceu.
As datas aqui continuam a ser importantes. Não têm sido um registo direto do dia em que escrevo. Mas ajudam a assinalar, de forma inescapável, o quanto devo ao tempo que passou.
House of Cards é interessante. Mostra a política de Washington como uma série de manobras palacianas cruéis e cínicas. Talvez perca um pouco de credibilidade na forma como a personagem principal é tão eficaz nas suas manipulações. Não é que não haja, nos agentes políticos, segundas e terceiras intenções. Mas creio que muito do que tentam fazer sai ao lado. É mais na forma oportunista como se colam ao resultado, seja ele qual for, que acredito estar a sua mais evidente perfídia.