Kroeber

#000957 – 12 de Abril de 2022

Desencontrado do mundo. Assim é o meu diário.

#000956 – 11 de Abril de 2022

Nem sempre sou inconstante.

#000955 – 10 de Abril de 2022

Quarenta quilómetros de rio e mar. Passo por muitas bicicletas tandem, muitos patinadores, alguns skates. Muitas rodas, poucos motores.

#000954 – 09 de Abril de 2022

A unha a fazer de palheta a esgalhar o open C. Canto e toco o Skinny Love, numa versão esganiçada, apenas para os meus ouvidos.

#000953 – 08 de Abril de 2022

Uma professora de filosofia disse-me um dia, o último em que falámos, “que a vida te trate bem”. A frase, tosca e de formulação forçada, nunca mais me saiu da cabeça. Na altura as coisas corriam-me mal, os meus 17 anos eram tempestuosos. A cortesia daquela mulher veio numa frase pouco habitual, não surgiu de um automatismo social. Mesmo a forma de o desejar foi quase trapalhona, a hesitação desfeita com um sorriso que me pareceu sincero. A minha memória foi guardando estas palavras, que não têm nenhum ensinamento nem são especialmente originais. Ficou-me esta bondade simples de um adulto, que tirou uns segundos para me oferecer um sorriso em vez de se fingir sábio e conhecedor do que me afligia. Talvez na altura, assolado pela depressão, me tenha comovido alguém expressar um desejo que as coisas me corressem bem, tendo como horizonte temporal a vida toda. É possível que eu me tenha imaginado, no fim da vida, a olhar para trás para fazer um balanço. Ainda penso assim, estou muito longe de começar a fazer balanços. Quero chegar a esse ponto, o mais longínquo possível, em que tenha uma perspectiva com uma amplitude que nem consigo imaginar agora.

#000952 – 07 de Abril de 2022

Kikas na Bells Beach, manteiga de amendoim no iogurte.

#000951 – 06 de Abril de 2022

Envelheci prematuramente em algumas coisas. Não tolero o barulho na rua. Agride-me de forma pessoal a algazarra de um grupo de pessoas perto da minha janela. Fico alterado, enfurecido. Tenho dificuldade em controlar o meu temperamento. Pareço uma caricatura de mim mesmo, um velho rezingão, que não quer visitas e reage mal a tudo o que vem de fora. Sou uma personagem de filme mau, um bruto, isolado e mal-disposto. Os meus amigos e os meus colegas de trabalho conhecem o meu lado bom. Aos amigos falo desta minha impaciência, e parece uma excentricidade. Riem-se com ternura do meu defeito. Já a minha família conhece de mais perto estas arestas aguçadas de uma personalidade que vai azedando. Eu fico entristecido comigo. Gostaria de ir ficando mais e mais enamorado do mundo, como Yongey Mingyur. Mas é no sentido contrário que caio, encolho-me no recanto dentro de mim que o confinamento instituiu e que se tornou demasiado confortável. Há que furar esta redoma que nunca será suficientemente grande e estanque. Encontrar forma de ser menos sensível ou meio de gerir melhor a raiva.

#000950 – 05 de Abril de 2022

Assisto a mais um episódio do This is Revolution com o Jason Myles e o Pascal Robert. Alimenta-me a alma aquela força punk, o sorriso contagiante de Myles, a seriedade de Robert, a qualidade das entrevistas.

#000949 – 04 de Abril de 2022

Gosto do Jon Stewart. Por isso me custa tanto o que ele fez ao Andrew Sullivan. Em vez de ter a coragem de convidar académicos afro-americanos como as irmãs Fields ou Adolph Reed Jr., Stewart convidou um conservador para uma triste performance de virtue signaling. Sullivan foi humilhado, insultado e usado como exemplo de racismo, de tudo o que está mal. É verdade que Sullivan tem uma posição conservadora e com uma resposta muito limitada à realidade material da população afro-americana. Mas Jon Stewart poderia falar com Adolph Reed Jr., que ainda sofreu na pele a segregação e que toda a vida estudou o racismo na América, a escravatura, o regime de Jim Crow. Ou Karen E. Fields e Barbara J. Fields que explicam bem o que está na raiz da desigualdade nos Estados Unidos. Andrew Sullivan, uma e outra vez perguntou a Jon Stewart para lhe dizer então a que sistemas, a que estruturas Stewart se estava a referir. Stewart não foi capaz de responder a estas perguntas e chegou mesmo a dizer que um desses sistemas foi o New Deal. Stewart retratou Andrew Sullivan como alguém que se nega a encarar a realidade e que não quer ser posto em causa no seu white privilege. Mas a crítica que Andrew Sullivan tentou fazer a Jon Stewart bem poderia ter sido feita por Touré Reed, que explica em “Towards Freedom” que um dos erros de análise da política identitária é falar em racismo estrutural mas depois definir o racismo como um conjunto de sentimentos, de atitudes, de viés inconscientes, coisas que se passam na psicologia de cada um, e não têm nada de estrutural. As irmãs Fields explicam, de forma muito clara o que é o racismo: é uma prática social e é a ideologia que sustenta a prática. No episódio de “The Problem with Jon Stewart é muito esclarecedor o segmento em que é definido o racismo. Tudo o que foi feito naquele programa foi Racecraft, explicado por Karen E. Fields e Barbara J. Fields no livro com esse nome. Ali, Jon Stewart, na pior tradição neo-liberal, transformou racismo em raça, evitando falar do essencial, garantindo que tudo fica na mesma. Os liberais americanos não querem saber dos pobres, cada vez alienam mais a classe trabalhadora, como dizia Vivek Chibber, aos probres brancos é dito que a culpa é completamente deles, se nem com o privilégio da cor da sua pele conseguem ter sucesso é porque merecem a miséria a que foram atirados. Assim, a extrema direita continuará a crescer. Vivek, os Reed, e as Field todos têm a pele escura, Vivek é de origem indiana, as Field e os Reed são afro-americanos.

#000948 – 03 de Abril de 2022

Diz Vivek Chibber: temos (nós a esquerda) de redescobrir, como no século XIX, que o caminho para o progresso social se faz com os trabalhadores. Lembra ainda que é importante percebermos que temos a responsabilidade de nos tornarmos relevantes para eles e eles não têm nenhuma responsabilidade de se tornaram atractivos para nós.