Escrever é exercer liberdade. Na interação com a tecnologia, usar só dedos e comandos é de grande passividade. É apenas escolher o que já foi previamente selecionado. Ao menos formalmente, usar texto para interagir com uma máquina é interpor pensamento entre o nosso organismo e a máquina. Sem isso quase que ligamos diretamente os nossos impulsos à máquina. Preocupa-me a tendência de abdicarmos do computador e seu teclado, usando apenas ecrãs móveis e televisão. O texto e o pensamento ainda são um reduto de intenção, de autonomia.
Envelhecer é descobrir sempre novas fragilidades. Imagino que envelhecer bem seria encontrar formas de lidar com o que é frágil em mim. Ou ao menos ir aceitando esses pontos mais óbvios de ruptura. Mas mantenho-me pouco sábio e muito impaciente. Talvez sejam esses dois defeitos o que me resta ainda de juventude.
Moledo. Mar e rocha de um lado, flores e bosque do outro. Em frente, mais do mundo: um rio a unir Portugal e Espanha, a dizer onde se atravessam as línguas. Amizade, bicicletas e fome de estrada.
Foi bom estar com outros autores. A ficção científica e a fantasia têm em Portugal muita gente a escrever, bem mais do que se diria. A Imaginauta e a Divergência têm criado um espaço para estas histórias e estes autores. É a melhor altura possível para escrever nestes géneros. Há um movimento de grande criatividade, de paixão, e muito para fazermos.
Há livros que inventam mundos dentro, cheio de personagens, ideias, civilização. E muito depois de terminar a leitura o mundo gerado ainda nos habita, ou habitamos nós nele. A literatura vai expandindo sempre as fronteiras da imaginação, alargando esse território imenso que inclui a consciência e o inconsciente.
Aguardo o comboio. Queria viajar durante dias, atravessar um continente inteiro. A guerra, entre outras coisas, retira-nos essa liberdade tão essencial, a de percorrermos outros países.