#000937 – 23 de Março de 2022
Rio-me com o Vir Das, exorcizo fantasmas da nossa humanidade comum.
Rio-me com o Vir Das, exorcizo fantasmas da nossa humanidade comum.
Tenho andado a escrever aqui com um, dois, três dias de atraso. Às vezes mais. Custa-me este quotidiano de guerra. Resisto a estar a par da miséria do mundo, como Kafka, que assinalou o horror de uma invasão no seu diário no dia certo. Aqui, desacerto nas datas, caminho devagar e tento apontar ao que não está em frente, o discurso da minha desorientação. Falho frequentemente. Não é estratégica, esta arritmia.
Steiner dizia “we have no more begginings”. Assim será. Mas que nunca tenhamos azo a dizer que não temos mais fins. Que continue a morrer o romance e o teatro e a arte e o rock e a crítica e o jornalismo e o ambiente e o mundo todo em previsões sempre falhadas. Que o futuro nos desiluda sempre os piores palpites do nosso pessimismo.
Comparamos sempre o passado com o futuro. Temos de o fazer. Mas para evitarmos erros, temos também de comparar o presente com o futuro. Este não existe e nunca existirá. É apenas uma direção, um lugar a seguir que concentra o nosso desejo. Não escolher para onde ir, não desejar melhor que isto é o verdadeiro desastre da civilização. Quando não o fazemos e as coisas se tornam más, há políticos e outros com poder que apontam futuros inimagináveis, direções que ninguém quer, só com o intuito de causar medo. E de assim levar pela trela o presente para lugares piores. Sonhar não é um escape, é fortalecimento da imaginação.
Pego de novo no livro do Srećko Horvat sobre o amor. Defende o croata que nenhuma revolução, nenhum projecto político pode adiar o amor, como Lenine quis. A sexualidade, o desejo, o amor têm de estar desde o início na construção do nosso mundo, da sociedade que iremos partilhar.
Numa das cenas do Blockade, de Loznitsa, imagens de arquivo mostram crianças e mulheres a salvar livros de um edifício destruído por bombas.