Kroeber

#000927 – 13 de Março de 2022

Faço um ciclo caseiro dos filmes de Sergei Loznitsa. Contra a amnésia instigada pela guerra, a memória enquanto arte militante do cinema.

#000926 – 12 de Março de 2022

Os candeeiros da rua acesos antes de anoitecer. O céu espesso de poeira. O Sahara por cima de nós, a guerra nas vizinhanças. O quotidiano ainda feito das coisas habituais. Tudo isto pode estar por um fio.

#000925 – 11 de Março de 2022

Escuto progressistas russos, ucranianos, montenegrinos, sérvios, na transmissão da DiEM25 e a posição é clara. O agressor é a Rússia, foi Putin que agiu, não foi a NATO. Esta, de qualquer forma, não é a solução. Um montenegrino lembra o amigo que teve leucemia, depois dos bombardeamentos da NATO com urânio empobrecido. Uma sérvia lembra-se de como fez parte da resistência contra a ditadura de Slobodan Milošević e a seguir sofreu com as bombas da NATO. Uma alemã emociona-se a dizer que nunca pensou ver os europeus a aplaudir a remilitarização da Alemanha. Se há uma coisa que une progressistas é a condenação da Guerra, de todas as guerras. Um ucraniano sugere como possível solução a adesão da Ucrânia à UE e a sua neutralidade que, junto com a cedência de alguns territórios ofereceria uma “vitória” a Putin. Sinto-me triste com o meu pessimismo: penso que a União Europeia nunca aceitaria acolher um país em ruínas, se nem sequer aceita que um país pobre possa reestruturar a sua dívida. Ainda estou muito longe de ficar cheio da coragem da desesperança. Assusta-me o ponto que faz surgir essa ética, a dos que não têm solução que não seja lutar, já nem pela sobrevivência, apenas pela dignidade de fazer frente ao opressor.

#000924 – 10 de Março de 2022

A guerra é uma doença que vai contaminando tudo, criando uma linguagem feita apenas de agressão, reduzindo as emoções todas ao ódio. É uma infeção que se legitima quando apenas mais violência a tenta combater, amplificando-a. A destruição e a morte que semeia na história inventa os soldados do futuro, os facismos, as vinganças, inimigos irreconciliáveis. A guerra não é uma inevitabilidade, é um conjunto de circunstâncias civilizacionais e decisões humanas. Tem culpados directos, criminosos que atentam contra a humanidade.

#000923 – 09 de Março de 2022

A esquerda americana critica os EUA, enquanto a Russia destrói a Ucrânia. Estranhamente de acordo com o PCP, os americanos que costumo escutar exasperam-me. Isto parece-me um reverso imbecil da falsa escolha que nos quiseram vender, quando os EUA invadiram o Iraque e o Afeganistão. Nessa altura os falcões americanos e o coro de comentadores europeus de direita diziam que havia uma escolha “clara”: estar do lado dos terroristas ou de uma democracia. Que o que estava em causa era uma comparação entre regimes. Agora, quando um país invade outro e o destrói, provoca uma crise humanitária e torna o mundo mais perigoso, há quem nos queira focar a atenção nas provocações americanas, no império americano, nas más intenções americanas. Não me interessa entrar num jogo de pontuar a hipocrisia e o cinismo de uns em relação a outros. Esta estratégia de crítica acaba por sabotar os seus próprios argumentos. Deveríamos estar ao mesmo tempo a criticar a agressão criminosa da Rússia e o expansionismo militar americano. Fazer-nos escolher entre criticar um ou outro é desonesto.

#000922 – 08 de Março de 2022

É Varoufakis que o diz, enquanto fã de ficção científica: Star Wars é feudalismo e Star Trek é comunismo liberal. Não posso discordar.

#000921 – 07 de Março de 2022

Zizek e Horvat discutem. Gestos violentos, olhos esbugalhados, fúria argumentativa. Estão felizes, atiram-se um ao outro com esse respeito intelectual de quem não tem medo de defender o que acredita, de quem arrisca perder a argumentação, ter de aprender algo novo, mudar de ideias. Na Grécia vi muitas vezes amigos a discutir assim. Como se se agredissem, sem reservas, desejando mesmo que não se saia incólume de uma discussão. Horvat durante anos moderou palestras de Zizek, numa posição mais modesta e de opiniões resguardadas. Aqui, no Teatro Nacional de Zagreb, não mostra nenhuma reserva. Zizek está no seu meio, e parece-me mesmo que nunca respeitou tanto Horvat. Os dois conhecem bem o pensamento um do outro. Sabem como se provocar mutuamente, como construir ou fazer desabar pontes. Tenho saudades desta forma de discutir, que o meu amigo do coração Afonso sempre me permitiu, esta abertura às ideias do outro que se alimenta do confronto de posições distintas. Como Graeber dizia, conversar é estar consciente.

#000920 – 06 de Março de 2022

A guerra aqui tão perto. Tudo o resto parece banal. Mas é esse tudo, que não é guerra, que os ucranianos merecem também e lhes foi negado com violência. O quotidiano de ir ao supermercado, ralhar a uma travessura de uma criança, ser incomodado pelo barulho de um vizinho, achar os programas de televisão aborrecidos. Os tempos interessantes são perigosos, o tédio é o luxo dos que vivem em paz. É o chão, que desabou.

#000919 – 05 de Março de 2022

O murro no vidro da janela despertou-me. Havia mesmo ao lado do agressor um rapaz com cara e tatuagens de gangster, como eu incomodado com aquela agressividade. Teria uns 20 anos e o murro deu-lhe ainda mais confiança. Era uma agitação como a de quem snifou cocaína para ganhar balanço para algo mau. Desatou a falar de porrada com um amigo, que sorria, desfrutando também da intimidação gerada. Ocupava muito espaço e dava murros no ar, desviava-se de murros imaginários. Olhava na minha direção, na direção do vizinho das tatuagens, que quase recebeu o impacto de um desses murros de treino. O rapaz com aspecto de gangster mudou de carruagem. E quando percebi que aquele moço se ia encontrar com amigos no estádio, decidi também sair. Lembrei-me de imediato de escutar membros de uma claque a gabar-se de como atacaram membros de outra claque, de quão inesperado e implacável foi o ataque. A violência assim, como desporto, é de uma obscenidade insuportável. Peguei na bicicleta e saí.

#000918 – 04 de Março de 2022

A cadeira do dentista desce mais um pouco, a anestesia já fez efeito, o dentista vai tentar remover uma lima partida, presa num dente há anos. E na televisão em frente, sem som, há um título que diz que a Russia atacou uma central nuclear. Mais de um milhão de refugiados em poucos dias, bebés ao colo das mães, das avós, das irmãs, temperaturas negativas. O mundo é este mosaico de quotidianos absolutamente distintos. Esta guerra preocupa-nos mais porque sabemos poder afetar-nos. Mas nunca deixámos, nós humanidade, de estar em guerra. Todos os dias tenho vindo aqui e tento encontrar outras coisas para escrever. E na verdade encontro, porque a minha vida continua, fácil, com doses saudáveis de tédio e estímulos, com muito conforto. Os ucranianos são particularmente próximos de nós portugueses. Ajudaram a construir o país que temos, fugiram das dificuldades para procurar emprego e segurança, como nós noutros tempos para outros países. A guerra é um crime, não faz sentido falar em crimes de guerra porque a própria guerra é um crime, lembrou Vivek Chibber no tribunal de Belmarsh.