Kroeber

#000897 – 11 de Fevereiro de 2022

Mar inclemente e nevoeiro. Reconforta-me esta paisagem selvagem. O Oeste lembra, pela força da natureza, o lugar pequenino que ocupo. Reduzindo a minha importância, encolho também o ego, até pertencer apenas ao espaço que ocupo tão infimamente. Consciente, feliz.

#000896 – 10 de Fevereiro de 2022

Vou redescobrindo, aumentando, a capacidade de me cansar.

#000895 – 09 de Fevereiro de 2022

A distância é um jogo de pedalar. Elástico que estico e me traz de volta.

#000894 – 08 de Fevereiro de 2022

A bicicleta inventa liberdade, abre um trilho ao passar.

#000893 – 07 de Fevereiro de 2022

A juventude é uma cicatriz na memória. Tatuagem acidental. Insígnia do que gostaríamos de ser, num tempo inexistente. Fronteira interior, feita da contração do espaço em volta. Colisão entre um passado idealizado e um futuro imaginado. Esta é a melhor forma de abolir o tempo vindouro, atar-lhe um peso que só aumenta. Envelhecer é lidar com esta fragilidade, a de me distrair com tudo o que não está a acontecer aqui e agora.

#000892 – 06 de Fevereiro de 2022

Demasiado tempo a fugir. Do pensamento, da dor. Muitos momentos perdidos a tirar conclusões erradas. Parte da vida em estado de confusão ou erro. Por vezes confiança em ideias tolas. Outras, insegurança em relação à verdade. Obsessão por inutilidades, e nem ver o que é bom. Um ofício inevitável de catalogar imbecilidades, recordar falhanços, remendar hábitos perniciosos. E alguns instantes, os que restam, de pura felicidade.

#000891 – 05 de Fevereiro de 2022

O cabelo cresce, as pernas pedalam, a imaginação engravida.

#000890 – 04 de Fevereiro de 2022

As carruagens velozes, o dia luminoso e os ouvidos felizes, atacados pela feroz arritmia de Fawn Limbs.

#000889 – 03 de Fevereiro de 2022

Sons de pastelaria. Louça, registadora, televisão em fundo. E um senhor idoso que lê os títulos do jornal à sua mulher, para que os dois discutam a atualidade. Lembro-me do meu avô e da autoridade com que pegava no jornal. Como aquelas folhas lhe passavam pelas mãos de forma inaugural, para que o mundo o escutasse. E da minha avó e do seu silêncio cheio de força e nenhuma rendição.

#000888 – 02 de Fevereiro de 2022

Jam durante a tarde, o sol a por-se até ficarmos a tocar no escuro. Espectáculo dos Peeping Tom dentro de momentos.