Que bom dormir no comboio. Sonhar é isto: atravessar uma paisagem de que lembraremos quase nada.
Novo álbum dos Krallice. Quilómetros nas rodas. Dias bons, com a quantidade certa de insatisfação. História que precisa de acelerar. Segundo álbum que avança, acústico. O processador de efeitos desligado.
Passado um ano chega a minha bicicleta. Milhares de pessoas tiveram de trabalhar para que as peças todas que a constituem fossem reunidas, e muitas também para que me fosse enviada. A crise da cadeia de abastecimento revelou-nos um mundo ligado, de forma frágil e preciosa.
Mizmor produz música soturna, agreste e pantanosa. É um black metal afligido de doom, uma queda em abismo que ainda cresce. Uma expansão de lava que nunca, nunca chega a solidificar. Sinto o corpo render-se, esticar-se para o ralo de um buraco negro. Nos pulmões um espaço infinito que me deixa enfim respirar. Escuto, feliz, dono da minha tristeza.
Sou um bicho desafinado. A música avariada, o ruído, algum caos harmónico ajudam-me a sintonizar coisas dentro, a sossegar emoções que não entendo. Preciso desta tranquilidade indómita, esta liberdade.
Há pior, muito pior, do que pensar de forma torta, acreditar em coisas más. Pior ainda é nem ter consciência daquilo em que se acredita. A estes invisíveis parasitas racionais chama Zizek “unknown knowns”. E é este o maior triunfo da ideologia, implantar-nos ideias que não sabemos ter.