view#000877 – 22 de Janeiro de 2022
Uma constelação de livros para fazer face ao mesmo tempo à política identitária americana e à direita anti-realidade: “Kill all Normies”, “Galileo's Middle Finger”, “Toward Freedom: The Case Against Race Reductionism”, “Racecraft: The Soul of Inequality in American Life”, “Self-Portrait in Black and White: Unlearning Race”, “Virtue Hoarders: The Case against the Professional Managerial Class”, “Unwanted Advances: Sexual Paranoia Comes to Campus”, “K-punk: The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher”, “Against the Web: A Cosmopolitan Answer to the New Right”, “Give Them an Argument: Logic for the Left”, “Canceling Comedians While the World Burns”, “Woke: A Guide to Social Justice”, “Anarchy — In a Manner of Speaking: Conversations with Mehdi Belhaj Kacem, Nika Dubrovsky, and Assia Turquier-Zauberman”.
view#000876 – 21 de janeiro de 2022
Racecraft: Substituir racismo pelo conceito de raça, transforma o acto de um sujeito (o racista), num atributo do objecto (a vítima de racismo).
view#000875 – 20 de Janeiro de 2022
Retomo os microcontos no Instagram. Uso a voz, a minha voz. E conto com o som maravilhoso do Rui. Os contadores de história eram assim, da memória traziam narrativas para quem os queria escutar. Estou habituado a ler o que escrevo, apenas como exercício para melhorar o texto. Com esta experiência, vou passar a escrever textos que só serão publicados em áudio. Estou curioso, quero ver o que isto faz ao texto.
view#000874 – 19 de Janeiro de 2022
Escrevo, possuído pela imaginação. Quando uma história me prende assim, só preciso descrever o que vejo. Mas o fôlego vem de escrever. É esse de registo que revela. É uma fuga para o futuro, que capta o movimento, a aceleração. Não existe, nem se inventa. Como em relação à verdade, a mentira da ficção descobre apenas o que já é, mas não foi dito.
view#000873 – 18 de Janeiro de 2022
As histórias eram raras. Agora consumimos ficção diariamente. Esta superabundância é coisa recente. E nem o excesso de oferta nos fez menos apreciadores de histórias. A oralidade deu lugar à indústria.
view#000872 – 17 de Janeiro de 2022
Há de novo ritmo. Encho páginas e surpreendo-me muito. A escrita precisa desta vertigem. A história impõe-se, há erros que cicatrizam, caixas de pandora que quero fechar, dificuldades que me estimulam.
view#000871 – 16 de Janeiro de 2022
O cão da vizinha a ladrar de manhã à noite. O frio que habita os pés. Tornozelos em ferida. A cicatriz do mindinho direito, que me esqueci de tratar com o bepanthene. O robe, o cabelo desgrenhado, a barba de uma semana. A barriga a espalhar-se sobre as pernas, sempre que me sento. A irritação de velho, de bicho caseiro. Um dia invernoso, mesquinho, previsível. E essa bolha de repetição e atrofio que rebenta, quando me atiro à página e escrevo. A obsessão em fazer a história avançar usa tudo o que tenho, o pouco que faço e sou. E implode em cores sci-fi.
view#000870 – 15 de Janeiro de 2022
500 palavras por dia até 15 de Maio. E depois um mês para revisão.
view#000869 – 14 de Janeiro de 2022
Leio Racecraft, de Karen E. Fields e Barbara J. Fields. Só agora aprendo que afirmar “black Southerners were segregated because of their skin color” é tão bizarro e cruel como seria dizer que uma vítima de violência doméstica foi espancada porque não se calava. A isto as autoras, irmãs, de ascendência afro-americana, chamam racecraft. A esta habilidade da linguagem que faz desaparecer o agressor da nossa explicação do racismo. Avisam Karen e Barbara: o racismo não é uma emoção ou um estado de espírito, como a intolerância ou o ódio. O racismo, corrigem, é acima de tudo uma prática social e a defesa racional dessa prática. No nosso discurso identitário habitual as categorias inventadas pelos racistas são naturalizadas como se de facto existissem. Esta manobra faz com que o racismo, algo que o agressor faz, seja transformado em raça, algo que o alvo da agressão supostamente é. Aceitando a noção de raça como facto biológico, estamos a interiorizar o raciocínio racista. Não existem raças, conceito inventado para defender o colonialismo e a escravatura e para separar seres humanos uns dos outros, permitindo a subjugação de uns pelos outros. Não existem raças.
view#000868 – 13 de Janeiro de 2022
Sem os livros, eu não seria eu. Sem música, eu não seria.