view#000867 – 12 de Janeiro de 2022
Sem ler, parece-me, é mais provável pensarmos como as pessoas com quem falamos habitualmente. Ao ler, imagino, expomo-nos ao risco de ser convencidos de algo que não sabíamos. Algures, entre a influência dos outros e o atrito com ideias novas, há um recorte de fronteiras incertas, uma personalidade. As fronteiras, essas, são terreno fértil para o conflito.
view#000866 – 11 de Janeiro de 2022
Ler é um perigo. Aprende-se a desaprende-se. Ganham-se e perdem-se pontos de vista. Opiniões se formam ou se dissolvem. Muitas vezes, nem nos apercebemos. Somos outra pessoa ao fim de alguns livros. Olhamos para coisas que dissemos, pensámos ou, pior, escrevemos. E aquilo envergonha-nos. O perigo é essa corrosão da imobilidade, esse rever das posições antigas. Os livros são chances de ser ainda alguém diferente.
view#000865 – 10 de Janeiro de 2022
XXI, dos Succumb, é um álbum dissonante, furioso, medonho e belíssimo.
view#000864 – 09 de Janeiro de 2022
Para ser bem-sucedido: toda essa treta da auto-ajuda. E acreditar, acreditar, acreditar. Para criar arte: a solidão. E duvidar, duvidar, duvidar.
view#000863 – 08 de Janeiro de 2022
Hábil, puxo as cordas dos meus impulsos. Marioneta teimosa e autónoma. A minha liberdade consiste em puxar com um braço e ver uma perna levantar. Danço assim, rindo-me de mim próprio, nem sempre triste. Às vezes há um movimento novo, um improviso trapalhão que me diverte.
view#000862 – 07 de Janeiro de 2022
Ambiguidades. Tenho a tendência de as ver como erros a serem corrigidos. Às vezes cria-me dificuldades de comunicação com as pessoas que preferem precisamente a ambiguidade, que dela fazem um habitat ou uma arma. Sou um autista descalço numa loja de porcelana partida.
view#000861 – 06 de Janeiro de 2022
A história continua a crescer, todos os dias. Retomei esta disciplina que não me deixa terminar o dia sem escrever. É um incómodo bom, uma obrigação de pessoa livre. Escrevo de forma estranha, desorganizada. Tinha acabado uma história feita de retalhos. E não tinha um fio condutor. Reescrevo. Agora que tenho uma narradora, está-se a tornar a personagem principal. Não me pediu licença para ganhar esta importância e ando a reboque do que me impõe. Estou curioso.
view#000860 – 05 de Janeiro de 2022
Gosto de ler livros e gosto de ler ebooks. São experiências diferentes. Nos dois casos manipula-se um objeto específico, com tecnologia específica. Não é na comparação texto a texto que mais sinto a diferença. Nos últimos 3 anos comprei muito menos livros, gastei quase o dinheiro todo na leitura de ebooks. Onde sinto a diferença é na biblioteca, expressão que num ebook reader não passa de uma metáfora. Prateleiras com livros enchem o meu espaço, como uma exteriorização da minha história, hábitos e desejos. Um monte de ficheiros dentro do ebook reader não tem presença, não me assombra nem me acompanha. Faz falta essa presença concreta, à minha frente. Nestes últimos anos, a minha biblioteca manteve-se visivelmente quase inalterada. Deixei de poder olhar para a minha coleção de livros e ter de imediato uma noção de como tem sido a minha vida de leitor. Tenho, é verdade, estatísticas.
view#000859 – 04 de Janeiro de 2022
Os pronomes em inglês são mais afiados. No presente do verbo saltar, por exemplo, só se conhece a pessoa verbal através do pronome. Eu salto, eles/elas saltam, tu saltas. Em inglês, I jump, they jump, you jump. O pronome inglês declara, enuncia, identifica, revela. Em português, é opcional. “Saltámos” pode ser uma frase inteira. A isto se junta o facto de em inglês os adjetivos não flexionarem em género gramatical e as palavras em geral não terem formas masculinas e femininas. A um nativo de inglês não é natural esta ideia de que um homem possa ser uma pessoa baixa e uma mulher um ser humano único. A nós, nativos de português e dos idiomas latinos mais próximos estas expressões soam-nos banais. Mas para um nativo de inglês a quem expliquemos as expressões palavra a palavra, saltam aos ouvidos os contrassensos: homem-baixa e mulher-único.
Ao falar, aprende-se o género gramatical em inglês como uma forma de identificar o género de facto da pessoa ou animal referidos. A única razão para a palavra pessoa ser feminina em inglês seria por se referir a uma mulher ou, na forma fria de identificar género em inglês, “a female”. O mesmo para ser humano que, sendo masculino só se poderia referir a um “male”. “Chairman” é, como todas as palavras em inglês, neutra em género gramatical. Mas refere-se a um homem. Por isso a mudança para a expressão “Chairperson”. He e she em inglês são identificadores não do género gramatical da palavra, mas do género do ser vivo a que a palavra se refere. Este facto permite usar um pronome para assignar género. Como nos pet names que se dão a objetos. Em português não funciona. É difícil dizer de um carro que é uma ela, mas não de uma guitarra. Ela ou ele não mudam nada. Conseguimos mesmo dizer “o meu carro chama-se Joaquina” ou “a espada do elfo chama-se Relâmpago”. Isso não nos confunde. Em português feminino e masculino, no que toca a palavras, não implicam um género.
Esta capacidade que os pronomes ingleses demonstram como identificadores de género talvez ajude a explicar parte da importância que ganharam em algum activismo nos EUA. Para quem luta para que o seu género seja aceite e respeitado pelos outros, o primeiro passo é que seja reconhecido. E um pronome, em inglês, tem essa tradição. Reconhece, identificando, o género. Mas isso não acontece em português. A nossa riqueza gramatical até pode ser uma vantagem, gerando mais possibilidades de nuance e fluidez e abrindo alternativas de expressão de género de que uma língua como o inglês não dispõe. Antes de adquirirmos todos os tiques da política identitária americana, seria bom não esquecermos a forma como nos tratamos em português. Porque para nos reconhecermos e respeitarmos, temos que começar por entender o que andamos a dizer uns aos outros.
view#000858 – 03 de Janeiro de 2022
Amanhã é dia de falhar de novo. Volto à escrita.