view#000857 – 02 de Janeiro de 2022
Nos filmes americanos, há as time capsule. Baús onde se guardam objetos que mostrarão o que se é, o que se foi, ao nosso eu futuro. Que ideia tão tétrica. É verdade que tem uma certa piada imaginarmos o nosso eu futuro a reencontrar estes vestígios. Mas no fundo são bombas-relógio de nostalgia. O eu futuro encontra o que ali está e nem se reconhece. Dói a não coincidência com o que se imaginava ser possível. O que seria interessante era uma time capsule enviada para quem fomos no passado. Uma espécie de espanta-espíritos, para prevenir caminhos em que nada se aprenderá. O que deixaria eu no baú para o adolescente que fui?
view#000856 – 01 de Janeiro de 2022
Hoje é palavra estranha. Se a repetirmos ainda mais bizarra nos parece. É menos precisa do que parece. Hoje é um futuro imediato. É frequente o seu uso para referir o que se vai fazer, já, já, já, daqui a bocado. Talvez.
view#000855 – 31 de Dezembro de 2021
Brian Froud desenhou as criaturas do maravilhoso Dark Crystal. Diz o desenhador que não consegue ver imagens na sua cabeça. É ao começar um esboço e a seguir desenvolver as figuras que finalmente consegue visualizar aquilo que procura. Lembra-me a escrita. Mas a vida toda é assim, é preciso concretizar o impulso de a viver para que ela se revele.
view#000854 – 30 de Dezembro de 2021
Neste ano fui juntando objetos para me reconhecer. Patins, halfbike, guitarra. Compro em Portugal o que tinha vendido na Grécia. A bicicleta deverá chegar em breve. Toco diariamente, mas ainda me mexo pouco. Digo que é do inverno. É desculpa, por coincidência baseada na realidade.
view#000853 – 29 de Dezembro de 2021
Foi na Grécia que escrevi mais. Estava lá quando comecei a publicar. Tive quase três anos de Verão. Chamo, de forma muito pessoal, Verão ao tempo em que não chove e o frio é suportável. Verão para dizer luz, energia. Agora faltam-me, como nutrientes. Não sou escritor de inverno. Significa apenas que tenho de me reinventar. O que sou ainda não chega.
view#000852 – 28 de Dezembro de 2021
Alguns livros demoram muito a cativar-me. Pego de novo em Providence, do Alan Moore. Anos depois, finalmente acelero folha a folha, impaciente.
view#000851 – 27 de Dezembro de 2021
Voltei a patinar, feliz e gordo, graças ao empurrão de uma amiga. Ali junto a um frio molhado de mar, deslizámos como noturnos bichos de inverno, adaptados ao chão. E a seguir o sushi melhor nos deu a provar o oceano.
view#000850 – 26 de Dezembro de 2021
Felicidade é apenas um instante de consciência. Não é a ausência de medo nem o esquecer do sofrimento. É essa clareza com que se vê tudo, em que até a vida que se vive parece nítida. É até assustadora. Dela se foge, em direção à dor habitual. Difícil é mantermo-nos ali, onde somos.
view#000849 – 25 de Dezembro de 2021
Chove, e o conforto da reclusão é salientado. Escrevo debaixo de uma data que é mais eloquente que este texto. Aqui não celebro nem exalto. Esteve a família reunida, um amor comum pelas crianças a quem damos prendas e o futuro todo. Não sei ainda falar do que importa mais.
view#000848 – 24 de Dezembro de 2021
The Dawn of Everything demorou uma década a ser escrito. David Graeber não está vivo para conversar com os seus críticos. David Wengrow apresenta o livro, projecto de dois Davids contra o Golias que temos preferido alimentar. Esta é uma obra a favor da imaginação, a reestabelecer as bases para a ajuda mútua e a criatividade de quem deseja melhor mundo. Tão cedo desistimos da humanidade que nem chegámos a conhecer quem somos. Aqui estamos, sobreviventes do mito.