view#000847 – 23 de Dezembro de 2021
Entre cliente e funcionário a cortesia assenta num fingimento: o de que se fala entre iguais. A linguagem transmite uma sofisticada naturalidade de duas pessoas que reconhecem uma na outra a mesma boa fé. É uma falsidade mas benigna, como a de qualquer ficção com bom fundo. Zizek acrescenta que as boas maneiras são um jogo em que ambas as partes sabem que estão a reproduzir papéis já estabelecidos. É uma forma protocolar de diplomacia interpessoal. Nesse sentido, é uma hipocrisia salutar. Um fingir-se gratidão, agir como se o interesse da outra pessoa nos importasse. Para Zizek, é o esforço de fazer esse fingimento que é ético. É o que nos permite conviver. É verdade que é uma posição que nos parece conservadora. Mas pior ainda é aquilo que, de facto, acontece quando o trato entre cliente e funcionário não respeita essas convenções. Há uma verdade que vem ao de cima, mas em forma de hipérbole com terrível peso histórico. O cliente, pela linguagem e tom, mostra que a sua indignação ameaça a segurança laboral do funcionário. Há um cheiro a feudalismo e uma expectativa de subserviência. O fingimento habitual é o que permite que, por vezes, se sinta de forma genuína calor humano e proximidade. A verdade feia sempre à mão vem ao de cima para eliminar, a quem é precário, qualquer ânsia demasiado livre. A realidade é assim, bem mais confusa que a clareza moral com que nos educaram.
view#000846 – 22 de Dezembro de 2021
Espontaneidade, mais ou menos todos os dias à mesma hora, assim imaginava um diário. Afinal, é mais uma rotina caótica, imprevisível.
view#000845 – 21 de Dezembro de 2021
A cada dia no meu emprego morro mais um pouco.
view#000844 – 20 de Dezembro de 2021
Aguardo a Primavera, urso que abriu um olho a meio da hibernação.
view#000843 – 19 de Dezembro de 2021
Piranesi é um livro genial. Valorizo mais e mais aquilo de que gosto muito. Envelheço com um gosto difícil, uma espécie de amargura estética.
view#000842 – 18 de Dezembro de 2021
Celestial Blues, de King Woman, é daquelas músicas que choram por nós, para que nos possamos debruçar sobre o dia, cotovelos em riste.
view#000841 – 17 de Dezembro de 2021
Deixei de conseguir ver desportos de combate. Abro um vídeo no YouTube e desligo rapidamente. Aflige-me aquela violência. Ainda respeito a generosidade dos atletas que ali oferecem o seu corpo ao choque com um outro de mesmo peso e semelhante habilidade. De todos os tipos de violência física sobre um ser humano este é o único que tem algum tipo de dignidade. O karaté que pratiquei não era de full-contact e poucas vezes lutei. Aproximei-me da modalidade por duas vezes na minha vida, meses de cada vez. Lembro-me ainda do que sentia ao lutar. Perigo. Há uma descida a um estado mais primitivo, de defesa do que se é. É um lugar urgente e afiado, perigoso. Aos que aí se colocam livremente, respeito. Mas sempre fui um espectador relutante. Nunca assisti a um combate ao vivo, tirando os que aconteciam nos treinos, em que não havia grande contacto. Penso que não aguentaria um espetáculo desses. O que me custa é a parte exterior, o voyeurismo. Talvez o que me assuste seja imaginar que também eu tenho gosto em ver, que não é só repulsa que sinto ao assistir a duas pessoas a baterem-se em público.
view#000840 – 16 de Dezembro de 2021
Big Brother é um nome bastante revelador. Tudo aquilo de mau que pudéssemos esperar de um programa de televisão com este nome distópico foi amplamente suplantado. A versão de 2021 é muito pior ainda que a de 20 anos atrás. É um lugar de treino de obediência através da privação do sono, da instigação de conflitos, da vergonhosa exploração das fragilidades dos concorrentes, de castigos cruéis e manipuladores em direto. Sim, podemos dizer que quem concorre sabe ao que vai. Isso não desculpa ninguém. É triste que a tortura emocional se tenha tornado entretenimento. Experiências terríveis como a de Milgram ou a da Prisão de Stanford não nos ajudaram em nada. Ou pior, talvez tenham ajudado muito, servindo de inspiração, aos produtores desta merda televisiva.
view#000839 – 15 de Dezembro de 2021
Desenhar a partir da imaginação é difícil. Primeiro imita-se, usa-se uma referência, copia-se o que se vê. Mas é a imaginação o objetivo. Nela existe amplitude e liberdade suficientes para a criação, esse estranho ofício de colocar coisas no mundo, em vez de apenas se reproduzir as que existem. A imaginação não existe fora da realidade. Nem inventa algo do nada. É uma espécie de vazio, em que há mais espaço para errar. É nobre esse acto do desenhador que usa apenas o ofício que aprendeu e o impulso da imaginação que foi alimentando. Sem corpo alheio para lhe inspirar a figura humana, sem objectos ou paisagens à sua frente como referência. Na ficção, defendo, é igualmente bela e vital essa forma de ir buscar ao dentro o que se colocará fora. Vivemos um movimento no sentido da auto-ficção. Até os ensaios começam a ter muito de narrativa pessoal. Valorizamos tanto a história de quem fala de si que até desconfiamos do escritor que escreve sobre vidas que não viveu. Mas é esse acto, de o escritor se colocar nos sapatos de personagens que não existem, que devemos acalentar. Dizemos que um livro nos permite viver experiências de outras pessoas. É o escritor que começa por o fazer. Enriquece as páginas com esse fôlego com que encheu o vazio criador. Diz realidade inventando. Fala verdade com impossíveis. E dá-nos o que não tem, para que possamos viver o que não existe. Ainda.
view#000838 – 14 de Dezembro de 2021
Muda-se a afinação a uma guitarra e muda-se-lhe a personalidade.