Kroeber

#000837 – 13 de Dezembro de 2021

Lembro-me de ser imortal. Não eterno, mas jovem o suficiente para não suspeitar da morte. E atravessar o país, num autocarro apontado ao sul, a falar com um neozelandês sobre o ano 2000. Nessa altura, 25 anos eram idade longínqua mas plausível, um lugar no futuro com uma versão de mim adulta. Talvez ainda pensasse que teria filhos, vários, aos 25. Ou talvez estivesse já mais distraído do mundo e de mim. Em pouco tempo, outros 25 anos terão passado. E já o futuro não é esse infinito que não vale a pena contar. Perdi também a eternidade ao ficar ateu. Agarro-me com mais sofreguidão à terra, com unhas e os dentes que me sobram.

#000836 – 12 de Dezembro de 2021

As crenças ganham em serem postas em causa. Crescem a seguir com mais viço. Esquecidas e sem incómodo, habituam-se à sombra e ao bolor.

#000835 – 11 de Dezembro de 2021

Hoje um polícia veio à minha procura. Alarmado, de roupão, olhei pela janela. O agente veio apenas entregar o cartão de cidadão, que eu tinha deixado nos correios. Curioso como num instante uma farda passou de representação de autoridade para exemplo de serviço público. Gosto de imaginar que os soldados também têm uma função civil, infinitamente mais útil e nobre que a de fazer guerras. Em tempos de paz, o combate a pandemias, o lidar com desastres naturais ou simplesmente com os desafios do quotidiano de uma sociedade de milhões de pessoas, haverá muito que um fardado pode fazer por nós, cidadãos à paisana.

#000834 – 10 de Dezembro de 2021

Dito de outra forma: o futuro nunca existirá. Futuro é o lugar para onde vamos. Quando chegarmos lá, já nunca foi. Futuro é o olhar do presente.

#000833 – 09 de Dezembro de 2021

Dizemos premonição mas queremos dizer predestinação. Dizemos determinismo mas queremos dizer predestinação. Seja com a crença supersticiosa nos poderes de adivinhação de alguém ou alguma prática, seja com a ideia filosófica de que tudo foi determinado por causas prévias, fazemos confusão. Adivinhar o futuro, ao menos para alguém que gosta de sci-fi, não é descobrir um resultado vindouro inalterável. Usando uma platitude como exemplo, adivinhar que um comboio vai para o Entroncamento não é ficar com a certeza que lá chega. O destino do comboio é o local para onde se dirige, não é a sua sina. Pode haver uma avaria ou acidente. Literariamente, é muito mais interessante a ideia de uma personagem que adivinha o futuro e, por isso mesmo, o altera. Em relação ao determinismo, o fundamento mais importante da ideia de que não existe livre arbítrio, de novo equívocos, desta feita mais graves. Segundo o determinismo, um efeito aconteceu precisamente porque foi desencadeado pelas suas causas e não por outras. Se outros eventos tivessem sucedido, outros resultados teríamos. A ideia de predestinação opõe-se à do determinismo. Algo predestinado acontecerá, por mais voltas que se dê. Se mil vezes se tentasse, com ações diferentes, mil vezes tudo seria igual no fim. A predestinação é a mais patética e improvável das ideias. Talvez, seria triste, hajam mesmo coisas predestinadas. A morte, poderão dizer, é uma delas. Mas mais curioso é haver tanta gente que encontra conforto na predestinação. Desde os clientes dos curandeiros e astrólogos até figuras iminentes como Zizek. Este último várias vezes repetiu em público que a única teologia eticamente interessante é a teologia da predestinação. Este apego ao que não se pode evitar, este conforto na calamidade vindoura, intriga-me. Um dia, hei-de saber perguntar porquê, talvez escrevendo uma história.

#000832 – 08 de Dezembro de 2021

Vou ler sci-fi até adormecer, para sonhar o avesso da realidade.

#000831 – 07 de Dezembro de 2021

Hoje uma pessoa que não me conhece, e nunca me viu, insultou-me. Usou séculos de história de escravatura e colonialismo para me ofender. Pensava que eu era africano e perguntou-me se eu tinha a certeza de conhecer bem a minha ascendência. Imaginando-me derrotado, riu-se obscenamente, como quem cuspiu o nojo que sente. Atirou-me com a violação em contexto de escravatura para me ferir. Mais novo, das vezes que me chamaram maricas, não me defendi. Achei que defender-me seria ser cúmplice da ideia aberrante de que há algo de vergonhoso em ser homossexual. Nos últimos anos, várias vezes me chamaram de árabe, marroquino, africano, ao escutarem a minha voz. Disseram-me coisas feias. Dói-me o esforço de ser simpático para pessoas que não o merecem e que se esforçam em magoar quem tenta ajudá-las. Gostaria de ser sincero e lhes dizer como é feio o que dizem. Mas sou um alvo acidental. Em mim encontraram o inimigo que já tinham, porque me confundiram. Não faço ideia do que será crescer com esta inimizade, ter de enfrentar agressões e tentativas de humilhação, discursos desumanizantes. Não sei, na verdade, o que é ter de lidar com racismo ou homofobia. Sei que estas sombras existem e são aguçadas. Que a sua linguagem é usada como arma dos que não sabem lidar com a diferença. Trabalhei com árabes, berberes, africanos, quando vivi noutro país. Tratavam-me como a um irmão, com um carinho cheio de força. A única vez que uma pessoa me disse na cara para ir para a minha terra, estando eu a viver noutro país, os meus dois irmãos africanos fizeram sua a minha defesa. Ainda com educação mas de forma firme, falaram por mim, explicando que eu pagava os meus impostos, contribuía para a sociedade em que vivia e que tinha direito a viver ali tal como outra pessoa. Foram eles os meus aliados, irmãos da mesma humanidade. Espero um dia merecer a sua solidariedade e nunca esquecer que não há ódio que nos derrote.

#000830 – 06 de Dezembro de 2021

Eu só não sei de onde venho. Para onde é questão mais simples.

#000829 – 05 de Dezembro de 2021

Conto os dias até ao solstício. Espero a bicicleta desde há 11 meses.

#0000828 – 04 de Dezembro de 2021

Quero ver ondas gigantes. Tantas horas que passei no mar, tantas ondas, enquanto crescia. E não consigo imaginar uma dessas colinas de água salgada com mais de 20 metros de altura. Muito menos o que seria surfar ali. Quero ir à Nazaré para duvidar dos meus olhos, feliz e espantado.