São 10h43 e os carros passam com as luzes acesas. A espessura das nuvens eclipsa tudo. A manhã é uma ideia impraticável.
A maior parte do que eu penso está errado. De vez em quando reconheço um erro. Um mapa do que não existe se vai desenhando. Um negativo do mundo. É um mapa ínfimo. Quase tudo permanece terra incógnita.
Em português, temos receio do futuro. Pegamos nele com cuidado, com cauteloso rodeio. “Vou fazer”. Uma promessa vaga, uma sugestão de que o que se diz poderá acontecer. “Farei” parece ameaça. Expressão de tempos antigos mais rudes. Em francês é o passado em que se mexe indiretamente. “J'ai rêvé”, que dizemos em português “sonhei” soa mais a “tive um sonho”, coisa que nos aconteceu, não que fizemos de forma direta. Já o passé simple, com o seu nome enganador, dá-nos “je rêvai”, que nos apanha desprevenidos. Os sons vocálicos com que o passado simples francês finaliza parecem descabidos, insurrectos. Não faço ideia se isto reflete a forma como os falantes de uma e outra língua se relacionam com o passado ou o futuro. Nunca fiz e penso que não farei.
Peninsula School, Waldorf School, escolas sobretudo frequentadas pelos filhos de donos e gestores de empresas de tecnologia digital. Têm em comum o facto de banirem ecrãs até aos 14 anos. Todos os ecrãs.
As histórias que crescem, que mudam connosco são histórias em que vivemos vidas de outras pessoas. Pessoas que nem existem e que não são o autor. O autor é o que inventou essas histórias, para que pessoas ficcionais quase vivam. De tal forma que nos acompanham, nos ajudam a falar do mundo. É possível um autor que só escrevesse narrativas na primeira pessoa, e em que o narrador fosse o próprio autor, e em que as decisões fossem claramente morais e heroicas, e os problemas sempre externos, na forma de obstáculos opressores. Mas este autor seria um péssimo mentiroso. No sentido de um criador pouco hábil ou pertinente. Merecemos melhor. Ursula K. Le Guin, no seu prefácio ao “The Left Hand of Darkness”, escreveu: “Distrust everything I say. I am telling the truth. / The only truth I can understand or express is, logically defined, a lie. Psychologically defined, a symbol. Aesthetically defined, a metaphor.”
A boa ficção começa com uma, com várias perguntas. No fim, espera-se, sabe-se ao menos articular melhor as dúvidas e talvez se tenham até desenterrado mais algumas incertezas. A ficção moralista começa com uma resposta e a seguir tenta criar um cenário para a demonstrar. Esta terceira década do nosso milénio tenta empurrar-nos, a nós leitores e escritores, para o lado moralista da criação de histórias. Legisla tom e demarca temas autorizados. Continuando esta tendência de estreitar tudo, só a auto-ficção será bem vista. E mesmo essa amplamente vigiada.
Nova história. Mais uma acendalha que fura a quietude. Peneiro o sossego. Acendo fogueiras demais, talvez não saiba cuidar do fogo.
Quanto mais velho, mais espantado fico com a fala e a escrita. Duas atividades tão quotidianas, mas que dependem muito do que é inconsciente. Seria impossível escrever, muito menos falar, se fossemos como um robô, que vê cada hipótese de interação, antes de escolher o que dizer. Ou melhor, seríamos, não humanos, mas robôs. A expressão pessoal tem esse perigo, uma muito espontânea imprevisibilidade.
Deu-me grande prazer apagar o enorme parágrafo que aqui estava. Que reste apenas o despropositado eco da minha satisfação e mais nada.