Kroeber

#000777 – 14 de Outubro de 2021

Esta manhã, um sonho-poema. Acordo e recito para mim o sonho, durante um par de horas repito o mantra onírico. Releio agora e vejo que se tornou uma invocação. Estas quatro frases trazem à memória o sonho: “Tentaram beijar-me. Desviei-me. Tentaram de novo. Falharam melhor.”

#000776 – 13 de Outubro de 2021

Investigadores da Northeastern University estão a desenvolver um aparelho para vigiar o discurso das pessoas no seu local de trabalho. Segundo a página oficial do projecto: “But what if a smart device, similar to the Amazon Alexa, could tell when your boss inadvertently left a female colleague out of an important decision, or made her feel that her perspective wasn’t valued?” Curiosamente, os fundos, 1 milhão e meio de dólares, vieram do U.S Army research Laboraty. Os ecos de 1984 são arrepiantes. Conceitos como Equidade são agora usados como armas da máquina capitalista. Não se muda nada, os pobres empobrecem mais, as comunidades que sofrem discriminação continuam marginalizadas. Cada vez mais se culpabiliza as vítimas pela injustiça que sofrem. E, ao mesmo tempo que se vai criminalizando o discurso das pessoas comuns, as táticas usadas contras seres humanos vão-se tornando mais cruéis.

#000775 – 12 de Outubro de 2021

Renego nação, mas também raça e género.

#000774 – 11 de Outubro de 2021

Jen Pan e Ariella Thornhill acrescentam-me anos de vida.

#000773 – 10 de Outubro de 2021

Pela primeira vez votei no Partido Comunista. O crescimento da direita populista e da politica identitária contribuíram para esta minha estranha escolha. Sou um anarquista que acha que a única forma realista de viver politicamente é a que David Graeber sugeriu, recorrendo ao exemplo da região Kurda de Rojava, e que é uma solução mista: um estado que existe por motivos pragmáticos e para que se possa ter relações com outros estados, mas que não tem nenhuma autoridade sobre os cidadãos. Estes, a segunda e mais importante parte da equação, associam-se livremente e decidem sobre o seu presente e futuro. Ninguém os representa, ninguém tem forma de os coagir. Não acredito, como um marxista, que é no Estado, por mais bem organizado e justo, que se encontram todas as soluções. Mas têm sido os marxistas americanos que mais me inspiram, que me sugerem um caminho alternativo a estas perigosas palermices da política identitária, sobretudo figuras como Touré Reed. Em Portugal, e isto diz muito sobre a desolação que sinto, é um humorista, Ricardo Araújo Pereira, a única pessoa de esquerda que tem sistematicamente enfrentado de forma pública esta doença americana que reduz toda a política ao discurso, às nuances da linguagem e ao activismo online.

#000772 – 09 de Outubro de 2021

A América cansa-me, planeta obscuro, sombra gravitacional.

#000771 – 08 de Outubro de 2021

A construção da minha liberdade depende do conflito que mantenho com a autoridade, concedo. Mas mais que isso: funda-se na forma como enfrento o vazio e transforma-se à medida da minha gestão do caos.

#000770 – 07 de Outubro de 2021

Um pesadelo bom? Um curto circuito onírico? Uma sensação boa que o inconsciente transformou numa imagem bizarra? Esta noite acordei com a força de um sonho. Um desconforto dentro da cabeça (falo do sonho) cresceu, até que um insecto me saiu da cabeça. Era luminoso e iridescente, e quando acordei ainda me sentia bem, com esse alívio de coisa fora do sítio que dali saiu. Saísse tudo assim, libertando a cabeça.

#000769 – 06 de Outubro de 2021

Tenho sempre um certo receio de reler um livro de que tenha gostado muito. O livro, ou melhor, o conjunto de impressões, conflitos e pistas que me ficaram, continua a crescer no meu íntimo. Claro que não é o livro que o escritor escreveu e nunca foi. Mas agora, com vida própria, sabe defender-se, na glória dos seus erros, alguns com raízes fundas. E, é este o maior receio, se confrontado com uma outra versão do livro, uma outra amálgama de influências e ideias, poderia atirar-se a uma luta fratricida. A minha incoerente imaginação sci-fi atira-me com a imagem de dois monstros a lutar, com perturbantes semelhanças, como se ocupassem um mesmo universo, mas só houvesse espaço para um. A hipérbole deste medo, a fobia, é que o livro relido fosse a anti-matéria do livro lembrado. Que o anulasse e desmentisse por completo. E os dois se aniquilassem.

#000768 – 05 de Setembro de 2021

A tradição científica ensina-nos que um não ou um sim são igualmente bem-vindos. Quer uma teoria seja comprovada quer se prove que estava errada, um cientista celebra a descoberta. Nos dias de hoje, somos puxados por dois polos igualmente aberrantes, um que duvida sistematicamente de tudo e outro que acredita nas maiores idiotices. A mesma convicção delirante é necessária para um e para outro e chegam a confundir-se. Há dias, uma amiga falou-me duma entrevista a um líder de um movimento negacionista do vulcão Cumbre Vieja. Os tempos são tão estranhos que eu pensei que eram pessoas que não acreditavam que o vulcão, esse detalhe com dois quilómetros de elevação, que faz correr um enorme rio de lava até ao mar, não existia. Eram mais sofisticados estes negacionistas. Afinal, não acreditavam era na versão dos cientistas: que o vulcão simplesmente tinha entrado em erupção. Tudo não passava de uma conspiração. É admirável a ginástica racional de um ser humano que necessita de explicar a complexa operação clandestina que consegue com sucesso não só fazer um vulcão entrar em erupção, mas também enganar o mundo inteiro. Ao mesmo tempo é triste que alguém consiga acreditar em tal palermice. À força de duvidar de tudo, até da natureza, acredita-se na explicação mais improvável e desmiolada que é possível articular com linguagem humana. Queria tanto poder viajar ao futuro para ver a reação dos arqueologistas a estes momentos encantadores desta coisa que ainda agora começou e já deu nisto, chamada internet.