Kroeber

#000767 – 04 de Outubro de 2021

É estranho ter o cabelo curto. Aos 14 anos deixei crescer o cabelo. O meu avô, quando o visitava, uma vez por ano, levava-me ao barbeiro, que me rapava o cabelo. Foi assim durante alguns anos, até que o meu avô decidiu que já não fazia sentido escolher por mim o comprimento do cabelo. Ainda hoje, cortar o cabelo curto me parece castigo, ou erro ou, como me aconteceu aos 19 anos, um impulso, depois de uma depressão. Pela primeira vez em 30 anos, decido conscientemente ter o cabelo curto. Escrever sobre coisa tão trivial envergonha-me e surpreende-me.

#000766 – 03 de Outubro de 2021

Patino com desconforto. As três rodas de 110mm aumentam a distância do chão e a pressão sobre os tornozelos. Perdi agilidade e confiança, ao mudar o estilo dos patins. Custa-me a virar e tenho receio de descidas. Nem penso em saltar. Tudo é difícil e gratificante. Suo muito.

#000765 – 02 de Outubro de 2021

Tibial Anterior. Vinte quilos a mais, 2 anos de sedimentarismo e mais de 3 sem patinar e aprendi o nome de um músculo. Nunca antes me tinha doído esta parte da perna. A dor às vezes é de uma frutuosa precisão.

#000764 – 01 de Outubro de 2021

Uma boa parte da vida consiste em gerir o medo do futuro.

#000763 – 30 de Setembro de 2021

Escrever talvez seja o contrário de meditar. Na meditação, aumenta-se o espaço interior, tendendo para o vazio, com desapego em relação a emoções e pensamentos. Dá-se amplitude à consciência. Na escrita, cristaliza-se o sentido de coisas que não podemos entender logo. Tem-se a expectativa que o contingente se torne intemporal.

#000762 – 29 de Setembro de 2021

Ciclismo artístico, flatland, trials, MTB slopestyle, bmx park. É espantosa a variedade de desportos de expressão realizados em cima de bicicletas. Neste mundo do ciclodesporto podemos ver a cisão que existe entre o ideal olímpico e a revolução que aconteceu quando o skate se tornou um desporto de popularidade mundial. Até essa altura, praticamente todos os desportos procuravam medir, de forma objectiva, quem é mais rápido ou mais forte. Mesmo em modalidades em que formalmente conta a expressão do atleta, como a patinagem artística, a necessidade de comparar atletas de forma precisa e sistemática sempre colocou um colete de forças sobre as possibilidades do que um atleta pode fazer durante uma prova. Basta comparar a patinagem no gelo freestyle (que tem inspiração dos patins em linha) com a patinagem artística, para vermos onde é que há liberdade de expressão, onde é que o vocabulário de movimentos está em constante expansão criativa.

Algumas modalidades, como o parkour, amadureceram sem sequer terem alguma prova competitiva. E quando começaram a haver competições, criou-se uma dinâmica como a que existe no surf, em que a prática livre, fora de competições, é um motor contínuo de inovação e reinvenção. Na ginástica ou na patinagem artística, isso não tem lugar. Para conseguir pontuação, simplesmente se tem de repetir o que é feito há décadas, de forma o mais perfeita possível. Algumas modalidades, pela indefinição das suas fronteiras e pela sua juventude, como o tricking, têm inovações diárias e ninguém consegue prever para onde é que a modalidade vai. Voltando às bicicletas. Aqui a própria evolução no fabrico das bicicletas e a constante hiperadaptação da bicicleta ao seu uso desportivo específico estão em diálogo constante com a evolução da perícia dos desportistas. Uma bicicleta de trials e uma outra de ciclismo artístico são engenhos absolutamente diferentes. É fácil de acreditar que outras modalidades estão por inventar.

O Cycle ball faz com bicicletas o que o Kayak-polo faz com kayaques: adapta a ideia genérica de um desporto de equipas em cujo objectivo é marcar golos com uma bola. O ciclismo artístico adapta a ideia da ginástica artística, com todos os movimentos feitos numa bicicleta em movimento. Ao vermos Ryan Williams a executar manobras de grande amplitude e perigo físico numa bmx, vemos a influência do snowbard e das trotinetes (em que Ryan Williams domina). Muitas outras influências e evoluções mecânicas poderão chegar ao mundo das bicicletas. E tudo isto sem falar dos veículos da mesma família: há quem dê a volta ao mundo num uniciclo, há bicletas todo-o-terreno, que se pedalam numa cadeira com quatro rodas, há bicicletas em que se usam os braços em vez das pernas, para transmitir movimento às rodas. E, claro, há a minha adorada Halfbike.

#000761 – 28 de Setembro de 2021

Comecei a tomar nota dos sonhos há mais de 15 anos. Houve três ou quatro períodos em que o fiz, separados entre si por alguns anos. Desta vez, escrevo ao acordar a meio de um sonho desde 16 de Novembro de 2019. Comecei a fazê-lo ainda em Atenas e uso sempre o mesmo caderno. Em cada um dos períodos em que tomei notas do sonho do qual acordo, tinha uma abordagem diferente. Numa das que mais me entusiasmou, escrever estava integrado no sonho, no sono. Praticamente não abria os olhos para escrever e ainda sonhava no momento de tomar notas. Pousava a caneta e o papel e voltava a dormir. Esquecia-me quase sempre que tinha sonhado e escrito. De manhã, abrir o caderno era entusiasmante. Era sempre difícil ler os rabiscos que ali estavam, tive que ir usando cada vez papel maior e passar a escrever em maiúsculas enormes. Tudo era muito irreal e por vezes, mesmo sendo legíveis todas as letras, as palavras não correspondiam a nada em português. Desta vez há algo que é frequente e que me agrada muito também. Escrevo sobre o momento de acordar. Tenho notas que descrevem como a realidade de um som, uma sensação no corpo, um cheiro entraram no sonho. Como o momento de acordar se liga à bizarra narrativa do sonho. Gosto de reler essas ligações entre a irrealidade do sonho e o ambiente em que dormia.

#000760 – 27 de Setembro de 2021

O meu quotidiano é desinteressante. Fora da imaginação, acontece pouco. Vir aqui escrever é espremer o duro citrino da minha banalidade.

#000759 – 26 de Setembro de 2021

Ontem acordei a meio da noite para beber água. Interrompi um sonho e como ainda me lembrava do que era tomei nota, como habitualmente. Reli os sonhos dos últimos meses. Ri-me com vontade, no silêncio da noite. Deixou-me feliz a absurda estranheza do meu inconsciente.

#000758 – 25 de Setembro de 2021

Divirto-me com uma conversa imaginada. Acho deliciosa a futilidade de tentar convencer um editor a publicar o Kroeber. Diz o editor: “mas os textos já estão disponíveis para toda a gente ler”. Digo eu: “mas não existe um livro”. O editor: “mas ninguém conhece o blogue”. Eu: “ora aí está uma vantagem para quem compra o livro”. Eu de novo: “E eu não lhe chamo-lhe blogue, chamo-lhe diário”. Convenço-me que o único propósito do Kroeber é escrever todos os dias da minha vida, até ao fim, para ninguém.