view#000757 – 24 de Setembro de 2021
Na ficção, só sei começar pelo título. Ao longo dos anos, acumulei vastas listas de títulos. Guardo listas de contos, enumerados pelos títulos de cada história. Dezenas e dezenas de sinopses. Coleciono títulos que poderei nunca usar, como um botanista recolhe sementes. O título cristaliza a imagem que me originou o impulso de contar uma história. É a semente, não a descrição sumária. É mais uma etiqueta que coloco num trabalho em curso, não um nome final. Às vezes acabo uma história e o título não serve, mudo várias vezes, custa-me encontrar um que resulte. Mas é mais comum ficar o título original, coisa que aconteceu com os meus títulos favoritos. Agrada-me esta ideia. Idealmente um título seria sempre a origem da história. Assim, fico a representar a árvore pela imagem do seu rebento, não pela sua designação científica.
view#000756 – 23 de Setembro de 2021
A capa de Doubt, de King Woman, é a minha favorita de todos os tempos.
view#000755 – 22 de Setembro de 2021
Os misantropos dizem-nos que o todo é menor que a soma das partes. Que odiar toda a humanidade é menos grave que odiar seres humanos.
view#000754 – 21 de Setembro de 2021
A expressão snail mail intriga-me. Coloca o correio numa comparação desajustada. Nesse sentido, e para ser justo, correio electrónico é também uma expressão desajustada. Uma mensagem de email não é como uma carta que simplesmente chega através de um ecrã. Afirmar isso seria o mesmo que afirmar que o telégrafo e o telefone são essencialmente a mesma coisa, utilizando meios diferentes. A velocidade e a reciprocidade importam. Um chat, por exemplo, é mais próximo da oralidade do que de uma troca de emails ao longo de vários dias. Foi no início do século XX que o telefone começou a ser utilizado por milhões. Por isso quase um século antes de se passar a usar o email de forma generalizada, ninguém contava com as cartas como forma de conversar à distância. Correspondermo-nos com alguém é uma atividade muito diferente de trocarmos emails, ou falarmos ao telefone. A lentidão não é uma desvantagem, é uma das suas características fundadoras. O meu avô usou o telégrafo que era, em alternativa às cartas, uma forma de enviar uma mensagem longe e depressa, uma alternativa à lentidão do correio. Aqui não tem de haver nostalgia nenhuma. O email traz vantagens que o correio nunca teve. O correio tem características impossíveis ao email. O que se escreve em papel, para enviar fisicamente, é paradoxalmente mais espontâneo e duradouro. As cartas guardam-se, como lembranças, como se deixou de fazer com as fotografias. Uma carta é um objecto que foi manuseado pelo remetente e que pode trazer, através da caligrafia, algo do momento em que a mensagem foi escrita. Antes da comercialização dos envelopes, a própria carta era dobrada e lacrada, recebia selo e carimbo. Há nisto uma intimidade de artesanato. Uma carta não é um email mas mais lento. Tal como um email não é uma carta mas digital.
view#000753 – 20 de Setembro de 2021
O dinheiro é feito apenas de crença. Um pânico grande, a quebra de confiança nas instituições, um evento emocional à escala da sociedade pode fazer com que o valor do dinheiro colapse. O dinheiro existe quando se gasta. Estranha substância, que se materializa ao extinguir-se. Antes de ser consumido, pode a antecipação do seu usufruto inflacionar o valor que lhe atribuímos. O mesmo conjunto de zeros e uns é reconfigurado muitas vezes, vendido enquanto dívida, transacionado enquanto ganho futuro, muda de mãos e de preço. E, em cada crise, chega perto do zero ou afunda-se, negativo, arrastando na sua queda vidas humanas.
view#000752 – 19 de Setembro de 2021
Juventude é o território de fantasia dos que envelhecem.
view#000751 – 18 de Setembro de 2021
Fora da caixa. Quer se pense dentro ou fora da caixa, está-se a pensar em referência à caixa. Dirão: mas fora da caixa há o universo inteiro de possibilidades, há escolha. Então, não se fale sequer na caixa, grão de areia num cosmos de opções possíveis. Ter como alternativas estar dentro ou fora de uma casa, por exemplo, não é ter absoluta liberdade de escolha, é tomar uma decisão em relação à casa. Faz diferença pensar-se numa referência em que as duas opções foram previamente definidas ou ter como possibilidade o imprevisível caos da liberdade. A criatividade é a liberdade nativa da imaginação. O primeiro passo para pensar de forma criativa é, depois de as conhecer bem, esquecer todas as caixas.
view#000750 – 17 de Setembro de 2021
Debris é um contraponto interessante a The X-Files. Nesta, a causa dos mistérios é desconhecida. Ao longo da série vamos tendo pistas em relação a conspirações em larga escala. “Truth”, como diz Mulder, “is out there”. Já em Debris, sabemos desde os segundos iniciais a explicação maior de tudo: detritos de uma nave espacial extraterrestre caem na Terra e provocam fenómenos estranhos. É interessante que saber a causa maior de um fenómeno deixe ainda imenso espaço para mistério em relação às causas imediatas. Estou curioso em relação a como a história de fundo irá evoluir. Sabemos também, desde o início, da intriga de bastidores, já que um agente é do FBI e outro do MI6 e cada agência e país tem a sua própria agenda. Numa era em que as teorias da conspiração contaminam mais rápido que qualquer vírus, é curioso que a sci-fi conte as histórias desta forma. Não me parece coincidência.
view#000749 – 16 de Setembro de 2021
A vida surgiu, ainda invisível. Milhares de milhões de mudanças e de anos passaram. Extinções e evolução, mamíferos, hominídeos. Longo caminho em que triliões de vezes tudo poderia ter sido diferente. Tudo, quero acreditar, para que começássemos a dançar. Alegria sem texto nem razão.
view#000748 – 15 de Setembro de 2021
Há livros que caem no charco do mundo e turvam mais ainda o espaço que temos para fazer perguntas. Ficam, no entanto, a fossilizar. Alguns, tornam-se pedras, à tona da nossa vontade de atravessar. Quase nunca temos livros-pedra suficientes, ou suficientemente perto uns dos outros. A maioria, são ilhas. Há alguns arquipélagos, mas longe. Até da civilização.