Kroeber

#000707 – 05 de Agosto de 2021

Há muitos anos que gosto de não festejar o meu aniversário. Num dia que me é dedicado, cansa-me a obrigação de ser o centro das atenções. É com a solidão, com sossego, por vezes com a companhia de um amigo, sem festas nem obrigações, que assinalo a banal coincidência de ter a Terra regressado ao mesmo ponto a contar a partir do meu nascimento.

#000706 – 04 de Agosto de 2021

A inexistência de livre arbítrio não nos deve assustar. Pelo contrário. É bom levar a sério a ideia de que o nosso comportamento é influenciado por muito do que não controlamos. Sobretudo ao nível da sociedade, abandonar o mantra da responsabilidade pessoal como resposta mágica às dificuldades é um primeiro passo muito útil. Em vez de narrativas de sucesso self-made, a preocupação em criar condições para a prosperidade. Em vez de atribuir automaticamente mérito ao vencedor sem questionar as regras do jogo, sermos honestos em relação ao chão que todos partilhamos. Se muito do que leva uma pessoa à prisão, ou à miséria, ou à loucura está fora do alcance dessa pessoa, se uma boa parte do que fazemos em conjunto, vivemos em conjunto, decidimos em conjunto importa, então devemos prestar atenção aos detalhes todos que são parte da responsabilidade coletiva. E deixemos caducar os mitos e o pensamento mágico que explicam a pobreza de muitos criando histórias sobre a riqueza de alguns. Cuidemos do nosso futuro partilhado.

#000705 – 03 de Agosto de 2021

Το appreciate existenz's contemporary resonance it is necessary to connect the manifest theme of artificial and controlled consciousness with the latent theme of work. For what do the scenes in which characters are locked in fugues or involuntary-behavior loops resemble if not the call centre world of twenty-first-century labour in which quasi-automatism is expected of workers, as if the undeclared condition of employment were to surrender subjectivity and become nothing more than a bio-linguistic appendage tasked with repeating set phrases that make a mockery of anything resembling conversation? The difference between “interacting” with a ROM-construct and being a ROM-construct neatly maps onto the difference between telephoning a call centre and working in one.

“Notes on Cronenberg's eXistenZ”, Mark Fisher

#000704 – 02 de Agosto de 2021

Quem me dera trabalhar como uma máquina. Terem de mim as mesmas expectativas que se tem de um computador. Quando me fizessem uma pergunta, eu tanto poderia dar uma resposta com sentido, como dizer algo incompreensível. Poderia mesmo bloquear e não dizer nada. De vez em quando diria um código de erro, que tanto poderia ser útil como não. Às vezes, para que eu voltasse a interagir com o utilizador do meu tempo, seria mesmo necessário reiniciar. Entraria em hibernação e só ao acordar é que se podia saber se já me apetecia trabalhar. Muitas vezes, seria necessário hibernar e acordar várias vezes. E em alguns casos, só chamando um perito para me analisar cuidadosamente é que se saberia o motivo do meu silêncio, da persistência da minha inoperabilidade. Seria possível trocar peças por peças novas e mesmo fazer upgrades. E toda a gente diria, quando a comunicação não funcionasse, o Nuno (o material) tem sempre razão. Sendo apenas humano, sou obrigado a funcionar.

#000703 – 01 de Agosto de 2021

Céu e Inferno. Uma ideia que o Cristianismo nunca soube sustentar. Conseguimos, nós a quem sobrou algo da cultura cristã, por mais ateus que a vida nos tenha feito, imaginar muitas versões do Inferno. Mas qualquer tentativa de imaginar o Céu parece apenas criar mais um tipo de Inferno. Isto acaba por minar qualquer intuição utópica, ao mesmo tempo que estrutura e dá fôlego aos instintos mais misantrópicos.

#000702 – 31 de Julho de 2021

A premissa do Lathe of Heaven é simples: “E se os sonhos se tornassem mesmo realidade?”. Disto se faz uma história com contornos sufocantes.

#000701 – 30 de Julho de 2021

Este diário sofre de arritmia.

#000700 – 29 de Julho de 2021

Uma das desvantagens de mudar de emprego frequentemente é a pouca frequência das férias. Esta palavra continua a soar-me a espaço e infância, a coisa imensa e preciosa. Quando comecei a trabalhar e me afastei do mar, férias passou a ser miragem, às vezes materializada.

#000699 – 28 de Julho de 2021

Toco guitarra um par de horas por dia. Escrevo quase nada. Os hábitos derrapam. Sou bicho auto-sabotador, demasiado inconstante e hedonista.

#000698 – 27 de Julho de 2021

The Lathe of Heaven é brilhante. Impressionado por um filme mau, tinha adiado a leitura do livro. Neste romance em particular é assinalável que uma história publicada em 1971, com tanta linguagem científica sobre o sonho, se mantenha relevante. A pesquisa deve ter sido muita e boa.