Kroeber

#000697 – 26 de Julho de 2021

Cuidar dos dentes é fácil. Tratar de dentes estragados sai caro. Se tivéssemos os pulmões e outros órgãos internos à mostra, talvez um negócio semelhante se montasse. Rentabilizar a culpa que sentimos por não termos sido capazes de cuidar de nós funciona melhor ainda quando nos afeta o sorriso. Há uma ironia cruel na forma evidente como a imagem com que interagimos socialmente com os outros é afetada.

#000696 – 25 de Julho de 2021

Backxwash faz-me tremer. Atinge-me a aspereza das palavras, vulneráveis e violentas. Prende-me o olhar aquela presença em palco, rodeada de fumo e uma simplicidade de filme de terror a preto e branco antigo. Aquilo que nos vídeos de ContraPoints é sarcasmo e subtileza, na música de Backxwash é punk e murro no estômago. Estas mulheres vivem na pele o que Beauvoir nos lembrou, “On ne naît pas femme : on le devient”. O processo por que passa uma mulher transgénero tem tudo para estar próximo das lutas feministas. Fico triste, assustado mesmo, com a animosidade que nasceu nos EUA entre diferentes grupos ativistas que só perdem em se esquecer que a sua luta é a mesma. Sendo homem, ou nem sabendo o que é isso de ser homem ou como me torno homem, vejo de fora, confuso, perco coordenadas e tento lembrar-me ainda que as causas são comuns, todas as causas humanas de emancipação são por natureza comuns a todos os humanos. “Injustice anywhere is a threat to justice everywhere. We are caught in an inescapable network of mutuality.”, nas palavras de Luther King.

Começam a aproximar-se eleições em Portugal e fico ansioso. Até aqui começou a política a ficar infetada desta separação artificial entre o credo da política de identidade e tudo o resto. Este muro é muito perigoso porque alinha os agressores com as vítimas (a extrema direita, sobretudo a aceleracionista, também é identitária e quer que tudo seja definido em termos de raça e nação) e afasta aliados naturais. Nos EUA alguns liberais juntaram-se a conservadores, numa tépida “alternativa” ao discurso vigente. Basicamente, puxaram o centro político ainda mais para a direita e usaram a capacidade que o capitalismo tem de mercantilizar as próprias aspirações políticas das pessoas. Simplificam, dizendo que o que se passa é “um extremar de posições”, e com isso parecem sugerir que o debate político deve ser uma conversa amena, em que só falamos dos pontos em comum. Isto é também um sintoma da degradação da nossa intuição democrática. A dissidência caminha para uma quase-criminalização e simples diferenças de opinião são vistas como ataques pessoais. É má a forma como os grupos identitários fazem disto arma, mas também não é boa a ideia dos liberais americanos de evitar ideias que ponham em causa o consenso.

A expressão Free Speech é muito feliz, mais do que Freedom of Expression. É disso que precisamos: de, em conversa, em debate formal ou discussão informal, em espaço público podermos ter um discurso livre. A ideia que a liberdade é sobretudo a liberdade de expressarmos quem somos, que identidade e emoções nos definem é limitada e não tem grande alcance político. Como alguém disse, um bom teste a fazer a um regime democrático é que este permita ser posto em causa. Sabemos, por exemplo, que estamos na presença de um regime ditatorial quando os cidadãos não têm forma de depor o governo pacificamente (com eleições, por exemplo). Isto faz parte uma ideia mais ampla, que a ciência já defende há mais tempo. Precisamos deste talento precioso e que sempre esteve debaixo de ameaça: a capacidade de argumentar contra uma ideia e de esta estar sujeita a caducar. Liberdade, entre outras coisas, é termos sempre a possibilidade de nos defendermos, pacificamente, com a inteligência de que formos capazes. De usarmos, como no título do livro de Suzette Haden Elgin, “The Gentle Art of Verbal Self-Defense”.

#000695 – 24 de Julho de 2021

Na história de Job, Deus escreve torto por linhas direitas.

#000694 – 23 de Julho de 2021

Estou a ler Changing Planes, da Ursula K. Le Guin, como a uma antropologia inventada. Faz-me lembrar As Cidades Invisíveis, mas no livro da autora americana são as civilizações que vêm a sua história contada, não as cidades. Nesta última história, algumas pessoas desenvolvem asas. São consideradas amaldiçoadas, pela cultura local. São assassinadas ritualmente. Não têm lugar no mundo. É uma inversão surpreendente da liberdade que a ideia de um humano alado provoca.

#000693 – 22 de Julho de 2021

Ainda assim, é impossível deixar de olhar para o dinheiro com desconfiança. A ficção científica pode ajudar a criar um cenário que isola os perigos de uma sociedade completamente mercantilizada. Imaginemos que uma das actuais empresas privadas que começou a investir no espaço consegue colonizar a lua. Há uma pequena base, com recursos limitados, ainda muito dependente do que vem da Terra: matéria prima, comida, água, oxigénio. A população é pequena, composta de trabalhadores contratados. A dado altura, talvez passados séculos, começam a autonomizar-se alguns grupos. Algo semelhante já foi imaginado por Kim Stanley Robinson, na sua trilogia sobre a colonização de Marte. Digamos então que a empresa que continua a ser proprietária da base lunar entende que tem direito a controlar tudo o que se passa na lua. Esta empresa defende que ninguém pode usar recursos na lua fora da economia que ali foi estabelecida. A forma mais simples de controlar as acções dos que anseiam por mais liberdade seria usar a dependência do oxigénio trazido da Terra para sobreviver. Bastava subir os preços astronomicamente ou mesmo recusar vender oxigénio aos rebeldes.

Se isto nos parece cruel é bom sinal. É porque por enquanto ainda achamos que ninguém tem o direito de privar outro ser humano de respirar. É que quanto ao acesso à água e à comida, há muito nos habituámos a semelhantes crueldades. O dinheiro permite-nos alienar da violência que estrutura as relações entre mercado e vida pessoal. Os hábitos de hospitalidade de que a maior parte dos povos se orgulha (oferecer comida como cortesia, dar abrigo a um viajante, oferecer água) terão surgido quando a sobrevivência não dependia do dinheiro. Provavelmente mesmo antes de existir dinheiro. Não era esperado de um desconhecido que pagasse com moeda a bondade de não o deixar passar fome. Embora a gratidão se pudesse manifestar e fosse bem-vinda. A ideia simples, mas com consequências muito vastas, que o dinheiro que temos representa o nosso trabalho, que o mede e demonstra, para muitas pessoas fundamenta outra ideia: a de que não ter dinheiro é evidência da falta de mérito pessoal. E o círculo completa-se quando os Darwinistas Sociais, por exemplo, defendem que se alguém não tem dinheiro para comer ou pagar despesas de saúde é porque não o merece.

#00692 – 21 de Julho de 2021

E no entanto, a nós nada é tão concreto como a falta de dinheiro. Temos tão reduzida capacidade de assegurar comida e abrigo, que tudo se mede pela capacidade de comprar coisas. Até, ou sobretudo, a sobrevivência.

#000691 – 20 de Julho de 2021

Dinheiro não é um conceito assim tão imediato. É difícil imaginar um diálogo entre alguém que não sabe o que é dinheiro (vem doutro planeta ou outro tempo) e uma pessoa que sempre o utilizou. Como é que se explicam a utilidade e o sentido do dinheiro, a quem lhes é estranho?

#000690 – 19 de Julho de 2021

Hoje, para tornar um momento especial, basta não o fotografar.

#000609 – 18 de Julho de 2021

Vejo Chris Haslam e Alexander Rademaker no skate. E reparo como Rodney Mullen influenciou o futuro do desporto. Agora, sabe-se que está quase tudo por inventar. É a criatividade que impulsiona a biomecânica.

#000608 – 17 de Julho de 2021

Ocupado com Alice in Chains e Nirvana, não escutei Pavement e Godflesh. Escuto agora, sem nostalgia, muito depois do fim da adolescência. Godflesh é mais cru e emocional que The Yound Gods. E Pavement mais ingénuo e livre que Sonic Youth. Até prefiro assim, escutar música sem estar imerso no contexto que a gerou.