Kroeber

#000607 – 16 de Julho de 2021

Ontem desatou-se um nó. Voltei ao conto passado nos lugares em que cresci. Tenho já uma visão mais clara do enredo que quero. Afeiçoei-me às personagens principais. Estou muito curioso em vê-las crescer.

#000606 – 15 de Julho de 2021

Resisto a maltratarem-me. Chamam-lhe, à não-resistência, engolir sapos.

#000605 – 14 de Julho de 2021

Escolher entre “vencê-los” ou “juntarmo-nos a eles”? Seria o mesmo que escolher entre utopia e distopia. Sonho impossível ou pesadelo? Escolher em liberdade é recusar esta falsa escolha. Derrotar a Amazon ou aceitar a sua hegemonia? Pergunta errada. Boicote geral ou religião? Nim.

#000604 – 13 de Julho de 2021

Diz John Mayer que o writer's block não é exatamente uma incapacidade de escrever. Sugere o cantor que se trata de uma falta de harmonia entre o leitor que se é e o escritor que se tenta ser. Tenho a tentação de subverter esta imagem: É a própria dificuldade de diálogo entre eu-leitor e eu-escritor que me impulsiona. Escrever, voltar a um texto, reescrevê-lo, revê-lo é resolver essas lacunas na comunicação comigo mesmo. E, muitas vezes, será apenas assinalar os vazios. Há buracos na minha expressão em que hei-de voltar a cair. Talvez até de ou com propósito.

#000603 – 12 de Julho de 2021

Calos muito grossos na ponta dos dedos. Bolhas no polegar esquerdo, que aperta o braço da guitarra. Outra bolha na ponta do polegar direito, que dedilha. Dores no pulso. Marca no braço direito, onde se apoia na madeira da guitarra. O meu corpo apresenta os sinais de prática diária do instrumento. E até a palheta que uso se está a estilhaçar. É uma fuga da escrita. Fujo, a dez dedos, do meu ofício, para me dedicar a algo que não poderei fazer com desenvoltura. A criatividade tem destes momentos, proveitosos e insuportáveis. O texto avança na cabeça, ou talvez recue.

#000602 – 11 de Julho de 2021

Gosto mesmo muito do Dave Ghrol.

#000601 – 10 de Julho de 2021

Transmission, dos Joy Division, é mais dançável que todas as melodias hiperenergizadas da música de dança. É uma pulsação fria, implacável e irresistível. Mais do que embalar-nos em melancolia, usa um tom lúgubre para nos fazer abanar o esqueleto. O próprio torpor nos anima. É mais abandono que tristeza que nos sacode. E são duas notas de baixo monótono e imparável e uma bateria sôfrega, é uma guitarra que nos conduz na sua melodia e a voz que parece de alguém quase alheio a toda a música da banda. Ian Curtis canta como nós dançamos, imersos no som, deixando os instrumentos levar-nos, para que fiquemos ainda suspensos, quase a acreditar na alegria, até que o lamento se afogue, mudo.

#000600 – 09 de Julho de 2021

Não estava à espera disto. Nirvana sobreviveu aos anos. Pearl Jam, menos. Fiquei 20 anos sem escutar a banda de Kurt Cobain. Já os extantes Pearl Jam, fui deixando de escutar aos poucos, deixando de notar que lançavam álbuns. As arestas na voz de Cobain agora parecem-me mais pertinentes que nunca. Os tiques de Eddie Vedder, surpreendentemente, irritam-me.

#000599 – 08 de Julho de 2021

Não tenho temperamento de músico. Ao contrário de um bom instrumentista, mantenho a obsessão com um tema, até o conseguir executar. E depois dedico-me a outro. Para um músico, um guitarrista por exemplo, tudo começa nesse momento em que eu acabo. Outro obstáculo é que toco os temas que vou criando, em vez de música a sério.

#000598 – 07 de Julho de 2021

Escuto música como pego nos livros. Descubro um álbum que saiu na semana passada ou no século passado. Às vezes, só começo a escutar uma banda muito depois de já ter passado de moda. Há momentos felizes, em que me deparo com uma mina, uma discografia enorme de alguém que acabei de conhecer. Um artista de certo movimento leva-me a descobrir outros semelhantes. Gosto muito ou detesto sem que isso implique achar que a qualidade é enorme ou inexistente. E toco, mal.