Futuro alternativo. Alguma da sci-fi mais interessante tem uma certa simetria em relação à ficção de história alternativa. Se esta mostra como as coisas poderiam ter sido, aquela sugere que ainda podem ser diferentes. A grande vantagem do futuro é ainda não ter acontecido.
Os heróis das séries The Expanse e Defiance são interessantes. Os grupos que resistem são feitos de pessoas de origens diferentes. Seja a espécie ou a nação. Em comum: a rejeição da violência oficial e uma desconfiança ou mesmo desprezo pelas lutas nacionalistas. Estes pequenos grupos, com algum conflito interno e mesmo traições, são pequenos laboratórios de utopia. Acredito, como eles, que a anarquia se vive assim, em proximidade. E que virar costas à magnitude do poder funciona se temos um grupo de amigos que partilham connosco mais que o medo.
A grande atração da religião é a utopia espiritual que propõe. O grande perigo: o risco de confundir distopia e opressão com utopia e moral.
O professor tirou a barra e ficou apenas o colchão. Era o dia da avaliação, tínhamos talvez uns 14 anos. Por algum motivo que só a tradição e nenhum bom senso explica, era obrigatório que todos fizéssemos o salto em altura. Eu até gostava desta aproximação a algo de olímpico e da forma objetiva de medir uma capacidade. Mas para alguns colegas estes momentos eram mais que embaraçosos, eram humilhantes. E reconheço agora que, sendo a atividade física algo saudável e que deve começar cedo, aquelas aulas de Educação Física não eram inteiramente dignas desse nome. Para alguns, foram a gota de água, numa pré-adolescência em que a relação com o corpo estava a ser difícil. Penso que foi o caso deste meu colega que não conseguiu saltar por cima da barra. Quando o professor a retirou, pedindo-lhe que saltasse ao menos para cima do colchão, já a humilhação e o nervosismo tinham amplificado a dificuldade em executar os movimentos que o professor queria ver avaliados. Passados 30 anos, faço exercícios com halteres. Mas uso apenas as barras, retirei os pesos. Tento recuperar alguma da mobilidade que este corpo perdeu. Ao menos não tenho uma aula inteira a olhar para mim.
Vacina contra distopia tomada. A enfermeira muda de braço para evitar a tatuagem. Diz-me simpaticamente, quem fez isto tudo de certeza que nem sente uma vacina. Minto, para não a desmentir. Na verdade não gosto de agulhas e senti a picada, muito leve mas desagradável. Mas pronto, fingir-me de forte convence até o corpo e custa menos assim.
Baixa o peso, aumenta a massa muscular. Hesita o verão, pedalo pouco.
Sei qual é o meu calcanhar de Aquiles. Deveria celebrar: ao reconhecer um ponto (muito) fraco, supostamente dei o primeiro passo para melhorar. A verdade é que não sei como melhorar. Para me deixarem baralhado e infeliz, basta obrigarem-me a uma conversa absurda, argumentar com pontos de vista sem sentido, atirarem-me com contradições. Queria saber lidar melhor com a ambiguidade. Mas penso que o meu prazer no texto tem mesmo a ver com um amor incondicional pela clareza do que é dito. Num texto, até as ambiguidades podem ser transparentes e belas. Quando, em comunicação em tempo real, nem o contexto é partilhado pelas duas pessoas, tudo é mais pantanoso.
Sim, gosto de histórias sem personagens. Não é só o caso d' “As Cidades Invisíveis”. Gosto de ensaios históricos, de ficção científica escrita ao jeito dos romances históricos. Gosto que sejam o tempo, o lugar, a cultura o centro da narrativa. Gosto que tenha pessoas a história. Mas sinto-me defraudado quando um momento da história ou uma premissa verdadeiramente original servem apenas como pano de fundo de um drama pessoal, de um amor ou uma traição. Talvez por isso me tenham desapontado tanto os filmes biográficos dos últimos anos, “sobre” Freud, Milgram, Hawkins. Quando o legado de uma figura destas é tão importante, que se tenham casado ou divorciado é francamente banal. Conhecer a pessoa por detrás do cientista é que é o verdadeiro cliché. Quero conhecer o cientista, o poeta, o músico que determinada pessoa se tornou. Nisso, filmes biográficos de outras décadas são muito mais interessantes que estes mais recentes. É o caso de “Bird”, sobre Charlie Parker e de “Lenny” sobre Lenny Bruce. Isto tudo faz-me apreciar as personagens ainda mais. Talvez só a ficção científica me dê tudo. No seu melhor, nada serve apenas para fazer brilhar um outro aspecto. Changing Planes, da Ursula K. Le Guin, é quase uma versão d' “As Cidades Invisíveis” com personagens. E a construção do mundo da trilogia Broken Earth da N. K. Jemisin é tão maravilhosa como as suas personagens.