#000577 – 16 de Junho de 2021
Imaginar ser humano antes da massificação do entretenimento é-me quase tão difícil como imaginar a vida numa tribo da idade do gelo.
Imaginar ser humano antes da massificação do entretenimento é-me quase tão difícil como imaginar a vida numa tribo da idade do gelo.
Faço amigos, recomeço tudo com novo emprego, voltar a gravar música. Sei que vivo pela insistência com que continuo a acreditar no instante a seguir. A minha memória é uma colecção de reinícios.
E assim, ao menos, viajo no tempo. Escrevo entradas de diário com dias de atraso. Interrompo a viagem até ao presente, por falta de fôlego. Deixo o tempo assim parado, perceptível apenas na sua estática notação.
Solidão. Gosto deste raro privilégio de não ter de me escutar a falar.
Odeio a procrastinação. O que mais me incomoda é a forma que tem de se imiscuir no meu desejo de liberdade. Dizer não, ainda não, é uma forma mesquinha de mentir a mim mesmo. Em vez de fazer o que quero, o que planeei, o que desejo, adio. Finjo exercer o livre arbítrio remetendo-me à inacção.
Trovoada. O pensamento mágico faz acreditar que o clima é um sintoma.
Esta estranha mistura de alegria e lentidão está-me a cristalizar.