#000567 – 06 de Junho de 2021
O hedonismo é a organização do prazer. Longe de ser uma rendição aos impulsos, é a meticulosa gestão de cada clímax. Está mesmo nos antípodas do excesso, que Lacan refere como natureza do gozo.
O hedonismo é a organização do prazer. Longe de ser uma rendição aos impulsos, é a meticulosa gestão de cada clímax. Está mesmo nos antípodas do excesso, que Lacan refere como natureza do gozo.
Não encontro forma de evitar este paradoxo. À medida que me apercebo da dimensão da minha ignorância, acumulo opiniões sobre coisas que não entendo. Esse lastro deveria ficar para trás. Mas vou-me blindando com pontos de vista pouco fundamentados. É verdade que mudo, que chego a pensar o oposto do que pensava. E que mantenho abertura a coisas novas. Mas faz pouco sentido, por exemplo, eu achar que a matemática não descobre números (e outros conceitos), antes vai desenvolvendo formas de descrever a realidade. É ridículo da minha parte tomar a posição oposta a John Conway, se não percebo nada de matemática. A maior parte das vezes, a opinião que formo coincide com a de pessoas notáveis. Tal como John Searle acredito que simular inteligência não é replicá-la e que machine learning com grande capacidade sintática está ainda muito longe de produzir ou entender semântica. E tal como Roger Penrose, acredito que a compreensão não é algorítmica. Isto não mostra a minha modéstia. Antes revela que escolho as ideias que a minha intuição prefere. Aprender é ganhar consciência dos meus vieses.
O poente tarda. A teimosia do sol atinge-me a pele. Sei das árvores perto, pelo som do vento que as sacode. A máscara não me faz esquecer a pandemia. Mas existe já uma leveza que não tem sido habitual. Esta brisa traz do Douro uma doçura inesperada.
Dizer que detesto musicais é pouco rigoroso. Eu não gosto da música de 99 por cento dos musicais. Porque é que a música interessante está tão ausente dos musicais é um mistério para o qual não encontro resposta.
Custa-me a acreditar que continuemos muito tempo assim, fixados em ecrãs que trazemos no bolso. Na sci-fi há muitas alternativas, desde software neural a hologramas e projeções. Na realidade as coisas avançam, ainda de forma dispersa. O Elon Musk apresentou o Neuralink como um meio de ajudar pessoas com certo tipo de lesões ou incapacidades. Há já muitos anos que é possível controlar o cursor num ambiente de trabalho através de software que lê sinais do sistema nervoso central. Em casos como o de Stephen Hawking, é mesmo possível controlar o movimento de uma cadeira de rodas com o pensamento. Por outro lado, há algumas propostas de usar hologramas ou projeções sobre a realidade, com os quais se pode interagir com gestos. Foi na realidade aumentada que houve mais avanços, sobretudo em usos profissionais ou na indústria dos jogos. E temos a nossa cientista, Elvira Fortunato, que cria, entre outras coisas, ecrãs transparentes. Quer a imaginação sci-fi, quer os avanços tecnológicos existentes continuam a apontar para uma luta pela nossa atenção. Precisamos é de ideias que facilitem que sejamos nós a usar a tecnologia e não esta a usar-nos para benefício de terceiros.
Para quem cresceu assombrado com o crescimento da Internet, é desolador isto de haver tanta gente que nem sequer acredita que existe uma pandemia. A realidade já nem é a nossa alucinação partilhada.
Na segunda década deste século, o melhor sci-fi para o ecrã encontra-se em séries, não em filmes. Black Mirror e Love, Death & Robots são ilhas de criatividade num mar infestado de thrillers mornos e previsíveis.
Changing Planes salvou-me. Semanas com dificuldade em ler ficção. Cabeça em ensaios sobre as lutas intestinas da esquerda americana. E este romance da Ursula K. Le Guin veio devolver-me à ficção. Tem um sentido de humor subtil. Parece inspirado na estrutura d' As Cidades Invisíveis e na escrita de viagens a lugar inventado de Hav. É uma história sobre sítios, hábitos, civilização. Antropologia sci-fi, worldbuilding social.
Misantropia. Há um cliché muito revelador na teologia da singularidade. É comum em muita sci-fi e algum transumanismo: uma superconsciência artificial que emergisse acharia que os seres humanos são uma praga. O nojo que o Agent Smith sente pela humanidade é uma projecção desta culpa megalómana que a nossa cultura de ódio-próprio produziu. É sedutora a ideia de uma consciência sem o peso do passado humano. Sem a “maldade” que, enquanto herdeiros do cristianismo, assumimos como pecado original. Assim nos redimiríamos: não haveria um último homem, um cristo que sendo humano seria já divino e bom. A redenção viria pela destruição do que é humano. Ao gerar um ser artificial, seríamos divinos, criadores. E, em vez de nos oferecermos como cordeiro redentor, seríamos chacinados no altar da singularidade pela nossa criatura. Considero aterradora esta sobreposição da “inocência” da máquina pensadora com a fria decisão de nos aniquilar. Mas chega a ser defendida com todas as letras, explicitamente. Há quem diga que o planeta ficaria muito melhor sem nós, com a horrenda vaidade de quem se considera monstruoso. Os singularistas misantropos são zeladores da calamidade.
Aprender música. Talento é a capacidade de estudar. Ao mesmo tempo, memória muscular, teoria, intuição. Nenhum dos componentes que fazem um músico avança sem os outros. Para quem, como eu, não tem talento nenhum, há uma pressa imbecil. Quero por força da intuição que os dedos aprendam. Desejo magia que me faça entender os conceitos, sem que consiga executar a mais simples ideia. Para chegar ao ponto em que me importaria apenas a expressão, teria de passar muito tempo a transformar o meu próprio corpo para que ele fosse música. Não foi falta de tempo. Há mais de 30 anos que sou incapaz de aprender música.