Kroeber

#000557 – 27 de Maio de 2021

Manteiga de amendoim. Joana Marques.

#000556 – 26 de Maio de 2021

Diz ainda Touré: os que defendem a ideia de racismo estrutural entram em contradição. Definem o racismo como o resultado agregado de atitudes individuais de pessoas racistas. Argumenta Touré que é compreensível que as grandes corporações usem, por interesse próprio, o emblema do combate ao racismo estrutural. É que não há nada de estrutural na soma de atitudes individuais. Mesmo que se substituam as pessoas ou se reeduquem, nada muda na estrutura, no sistema. O autor americano diz que o racismo deve ser entendido do ponto de vista de construção social. E que não é possível separar as questões económicas e sociais do racismo. Estas ideias seriam perfeitamente convencionais para os activistas que lutaram pelos direitos civis nos EUA. E seriam abjectas para os que defendiam o sistema, para que a discriminação racial se perpetuasse. Agora, surpreendentemente, as coisas inverteram-se.

#000555 – 25 de Maio de 2021

Lembra Touré Reed: racismo é a crença que a raça é um facto biológico.

#000554 – 24 de Maio de 2021

Touré Reed, Ben Burgis, Michael Brooks, Matt McManus, Marion Trejo. Alimento-me de marxismo como quem faz dieta. Há que perder as gorduras das guerras identitárias. Mas regresso ao Kropotkin e ao David Graeber, à Hannah Arendt e à Rosa Luxembourg para me nutrir. Deve-se criticar o Jordan Peterson ao mesmo tempo que os criadores do conceito de micro-agressão. E de resto, a cultura sempre foi terreno de conflito.

#000553 – 23 de Maio de 2021

Dustin Hoffman, “Lenny Bruce”, segue no carro da polícia. Diz a quem o prendeu, “I didn't do it man, I said it”. Na altura, há uns 60 anos atrás, Bruce foi preso quando disse uma palavra obscena. Numa das cenas anteriores, Lenny Bruce, que é judeu, diz palavras ainda piores. Refere-se a cada uma das etnias representadas na audiência pelo respetivo pior insulto que existe em inglês. Judeus, negros, irlandeses, italianos. Olha nos olhos das pessoas e repete os insultos. Põe todos a rir, quando faz uma espécie de leilão, usando as palavras proibidas. E explica, levando a multidão ao êxtase, que estas palavras só têm o poder que lhe damos. E que esse poder aumenta e gera intensos insultos porque suprimimos as palavras. O filme de Bob Fosse é de 1974. Retrata uma das figuras da contracultura americana dos anos 50 e 60 que publicamente mais falou contra a segregação e a homofobia. Hoje, seria cancelado.

#000552 – 22 de Maio de 2021

Toco guitarra como escrevo. Uma ideia, uma frase é o começo. Persigo uma certa claridade, um desfecho. Toco a compor, é assim desde os 14 anos. Depois de dias ou semanas, deixo aquela peça e parto para outra. Esqueço-me do que toquei-escrevi. As primeiras músicas que toquei na minha primeira guitarra foram minhas. De música, não sei quase nada. Na escrita, gostaria que as minhas palavras se lessem como música.

#000551 – 21 de Maio de 2021

Climax, do Gaspar Noé, tem uma atmosfera de pesadelo. E esta noite, depois de o ter visto, tive um dos pesadelos mais terríveis de que me lembro. Fico a pensar que esta tendência de nos esquecermos dos pesadelos é um talento da nossa neurologia. Uma forma de garantir que não damos demasiada importância à irrealidade que criamos dentro.

#000550 – 20 de Maio de 2021

Já tentei várias vezes retomar a série The Handmaid's Tale. Reconheço que isso mostra a qualidade da história. Os dois livros marcaram-me. E ver o que nas páginas tinha imaginado é doloroso. É como o 1984. Não diverte. A história de Margaret Atwood é verdadeiramente distópica. Magoa por lhe reconhecermos veracidade. A verdade das boas histórias sci-fi não adivinha o futuro. Mas consegue plantar-nos a semente da sua probabilidade. O solo em que o medo do que virá é plantado é o presente.

#000549 – 19 de Maio de 2021

À minha frente um cartaz com desenhos de ossos, com o slogan “qualidade clínica”. Leio, na sala de espera. Sentado numa cadeira rigorosamente desergonómica.

#000548 – 18 de Maio de 2021

Preocupa-me esta tendência de dizer “sinto que” em vez de “penso que”. Não está errado dizer “sinto que”. Pelo contrário, e é muito bom que o que sentimos faça parte das conversas que mantemos. Penso que corremos o risco de deixar de saber distinguir pensar de sentir. Sinto que isso poderá destruir parte do papel do pensamento.