Diz ainda Touré: os que defendem a ideia de racismo estrutural entram em contradição. Definem o racismo como o resultado agregado de atitudes individuais de pessoas racistas. Argumenta Touré que é compreensível que as grandes corporações usem, por interesse próprio, o emblema do combate ao racismo estrutural. É que não há nada de estrutural na soma de atitudes individuais. Mesmo que se substituam as pessoas ou se reeduquem, nada muda na estrutura, no sistema. O autor americano diz que o racismo deve ser entendido do ponto de vista de construção social. E que não é possível separar as questões económicas e sociais do racismo. Estas ideias seriam perfeitamente convencionais para os activistas que lutaram pelos direitos civis nos EUA. E seriam abjectas para os que defendiam o sistema, para que a discriminação racial se perpetuasse. Agora, surpreendentemente, as coisas inverteram-se.
Lembra Touré Reed: racismo é a crença que a raça é um facto biológico.
Touré Reed, Ben Burgis, Michael Brooks, Matt McManus, Marion Trejo. Alimento-me de marxismo como quem faz dieta. Há que perder as gorduras das guerras identitárias. Mas regresso ao Kropotkin e ao David Graeber, à Hannah Arendt e à Rosa Luxembourg para me nutrir. Deve-se criticar o Jordan Peterson ao mesmo tempo que os criadores do conceito de micro-agressão. E de resto, a cultura sempre foi terreno de conflito.
Dustin Hoffman, “Lenny Bruce”, segue no carro da polícia. Diz a quem o prendeu, “I didn't do it man, I said it”. Na altura, há uns 60 anos atrás, Bruce foi preso quando disse uma palavra obscena. Numa das cenas anteriores, Lenny Bruce, que é judeu, diz palavras ainda piores. Refere-se a cada uma das etnias representadas na audiência pelo respetivo pior insulto que existe em inglês. Judeus, negros, irlandeses, italianos. Olha nos olhos das pessoas e repete os insultos. Põe todos a rir, quando faz uma espécie de leilão, usando as palavras proibidas. E explica, levando a multidão ao êxtase, que estas palavras só têm o poder que lhe damos. E que esse poder aumenta e gera intensos insultos porque suprimimos as palavras. O filme de Bob Fosse é de 1974. Retrata uma das figuras da contracultura americana dos anos 50 e 60 que publicamente mais falou contra a segregação e a homofobia. Hoje, seria cancelado.
Toco guitarra como escrevo. Uma ideia, uma frase é o começo. Persigo uma certa claridade, um desfecho. Toco a compor, é assim desde os 14 anos. Depois de dias ou semanas, deixo aquela peça e parto para outra. Esqueço-me do que toquei-escrevi. As primeiras músicas que toquei na minha primeira guitarra foram minhas. De música, não sei quase nada. Na escrita, gostaria que as minhas palavras se lessem como música.
Climax, do Gaspar Noé, tem uma atmosfera de pesadelo. E esta noite, depois de o ter visto, tive um dos pesadelos mais terríveis de que me lembro. Fico a pensar que esta tendência de nos esquecermos dos pesadelos é um talento da nossa neurologia. Uma forma de garantir que não damos demasiada importância à irrealidade que criamos dentro.
Já tentei várias vezes retomar a série The Handmaid's Tale. Reconheço que isso mostra a qualidade da história. Os dois livros marcaram-me. E ver o que nas páginas tinha imaginado é doloroso. É como o 1984. Não diverte. A história de Margaret Atwood é verdadeiramente distópica. Magoa por lhe reconhecermos veracidade. A verdade das boas histórias sci-fi não adivinha o futuro. Mas consegue plantar-nos a semente da sua probabilidade. O solo em que o medo do que virá é plantado é o presente.
À minha frente um cartaz com desenhos de ossos, com o slogan “qualidade clínica”. Leio, na sala de espera. Sentado numa cadeira rigorosamente desergonómica.
Preocupa-me esta tendência de dizer “sinto que” em vez de “penso que”. Não está errado dizer “sinto que”. Pelo contrário, e é muito bom que o que sentimos faça parte das conversas que mantemos. Penso que corremos o risco de deixar de saber distinguir pensar de sentir. Sinto que isso poderá destruir parte do papel do pensamento.