Kroeber

#000537 – 07 de Maio de 2021

Mark Fisher plantou-se como espinho na nossa soberba.

#000536 – 06 de Maio de 2021

Escrever é ceder a um impulso sombrio. O de avançar por terreno desconhecido. Como numa realidade virtual em construção, os primeiros passos tornam claro que não existem o mundo e os seres que se procura. Não é que se busque nada, ou que se queira algo inalcançável. Trata-se apenas de caminhar sem ter chão. Continuar a escrever é assentar as lages em que se vai pisar. Na ficção científica este contexto está sempre presente. Mas em qualquer narrativa o ofício é semelhante. A noite a que nos atiramos vai sendo iluminada pela luz acossada do nosso olhar aflito.

#000535 – 05 de Maio de 2021

Procrastinação. Palavra que soa a coisa concebida com precisão fonética: dá-me ideia que alguém quis garantir que aquelas sílabas se juntassem de forma tão desagradável que ninguém a quisesse reclamar. Sabemos do caso do egoísmo, palavra desenvolta que Ayn Rand garantiu ser virtude.

#000534 – 04 de Maio de 2021

Fracasso. Basta ver o Roof Culture Asia, o Free Solo ou o Chasing Niagara para perceber que o foco destes atletas não é o que fazer se tudo correr bem. Nem sequer como aumentar as chances de correr bem. A maior preocupação é eliminar as hipóteses de fracasso. Mais ainda, é antecipar todas as formas que o fracasso pode tomar. A enjoativa ideologia do sucesso esquece que o fracasso é o mais provável e o mais importante. A palavra risco, associada à atividade de um empreendedor, torna-se obscena. “Arriscar” não ganhar uma fortuna não é risco. Na indústria motivacional, compara-se as vidas e os comportamentos dos que tiveram sucesso. Faz-se correlações e infere-se que o que estas pessoas, uma percentagem ínfima dos que tentaram, têm em comum é a explicação dos seus sucessos. A amostra dos que fracassaram é imensamente maior. Seria muito mais revelador descobrir padrões no seu percurso. Ninguém que tenha mesmo tudo a perder, às vezes a própria vida, ignora o que tem a perder. Seja em desportos perigosos, seja a alimentar uma família, seja a combater um regime autoritário. O jogo dos que arriscam de verdade não é um jogo. A vida não é capital de risco. Sobreviver não dá medalhas.

#000533 – 03 de Maio de 2021

“Não sou um cidadão do mundo, sou um aldeão do mundo”, Rui Tavares.

#000532 – 02 de Maio de 2021

Gordo. Antes de chegar aos três dígitos, inverto outra vez a marcha. Tenho muitas estrias a lembrar outras flutuações. Transportar esta elefantina massa cansa-me. Por detrás disto está músculo e osso. Vou reconstruir a agilidade, abolindo esta âncora feita do meu exacto corpo.

#000531 – 01 de Maio de 2021

No fundo, nem é blogue nem é diário este espaço. É um mecanismo de espicaçar a minha atenção, uma fábrica de regularidade, um constrangimento a ultrapassar pela criatividade mais primária.

#000530 – 30 de Abril de 2021

Venho, talvez, dizer coisas a um futuro eu.

#000529 – 29 de Abril de 2021

As outras dificuldades não são regras. Mas acabam por ser mais rigidamente cumpridas. A reserva é a principal. Não quero escrever num registo confessional. Não venho aqui revelar a terceiros a minha vida.

#000528 – 28 de Abril de 2021

A premissa deste blogue é simples: escrever todos os dias da minha vida, até ao último. Nada como uma premissa simples para criar uma dificuldade permanente. Os últimos dias têm sido bons. E offline.