Kroeber

#000527 – 27 de Abril de 2021

Números primos, prime numbers. Não é porque primo e prime são cognatos que soam ao mesmo nas respetivas línguas. Em português primo lembra de imediato relações familiares. E em inglês prime usa-se para adjetivar coisas importantes. No caso português número primo é expressão que provoca riso nas crianças enquanto aprendem matemática e no caso inglês prime number soa a coisa pomposa de adultos.

#000526 – 26 de Abril de 2021

Voronoi. Fractais. Atractores estranhos. Caos que semeia ordem. Natureza: coisa imprevisível com uma teimosa propensão para a beleza.

#000525 – 25 de Abril de 2021

S e m p r e

#000524 – 24 de Abril de 2021

Ruins. Do Japão vem esta fúria expressiva. Banda que canaliza o caos matemático do mais brutal prog. Que assume uma híbrida sensibilidade de jam session jazzística mesclada de agressividade de banda hardcore perante o público. E sugere a energia de performance thelémica à Mike Patton a rugir em palco com os Moonchild. Escrever é já trair a experiência da música dos Ruins. A única forma de abordar com linguagem escrita os momentos de maior liberdade na música é de ir sabotando a descrição. É uma forma de homenagem ao som a que se refere. Presta-se ao ridículo. Tudo falha. Ilustrar é impossível, descrever é inútil, explicar é catastrófico. E é absolutamente irresistível atirar-me a esta tarefa imbecil e presunçosa: juntar ruído verbal à refeição de som.

#000523 – 23 de Abril de 2021

Osso Vaidoso. Battles. Meshuggah. Cindy Kat. Cara Neir. Ocean Chief. António Variações. Beastmaker. Linda Martini. Jimi Hendrix. Black Sabath. Sleep. Prodigy. Church of Misery. Stone Dead. Dazkarieh. Conan Osíris. Rabih Abou-Khalil. Huun-Huur-Tu. Zarabatana. Marisa Monte. Ravel. OOIOO. Tomahawk. Shred Earthship. É tudo música de dança.

#000522 – 22 de Abril de 2021

A arte começa onde acaba a linguagem. A literatura é o ofício de abolição e recriação dessa fronteira. O escritor escreve aí, inventa um fractal.

#000521 – 21 de Abril de 2021

Publicidade irrelevante. Os defensores da ciberordem reinante avisam: se os utilizadores desligarem o tracking, recebem na mesma anúncios mas, horror dos horrores, passam a ser menos relevantes. Ora eu anseio por anúncios absolutamente irrelevantes. Anúncios em relação aos quais eu mantenha sempre o distanciamento, dos quais me possa rir e que possa descartar por não me servirem. O que deve assustar toda a gente não é a irrelevância dos anúncios, é precisamente a sua eficácia. Que se saiba de determinadas pessoas que a certas horas é mais provável clicarem num anúncio para pedir comida, que passado meses a pedir comida, comecem a aparecer anúncios com produtos de emagrecimento e aplicações de exercício, isso é que é tétrico e distópico. Nenhum algoritmo, nenhuma empresa, nenhum anunciante tem o direito de poder tratar seres humanos como ratos numa Skinner Box. Nem sequer “para nosso bem”.

#000520 – 20 de Abril de 2021

O Stewart Lee culpa o público. Entra em palco e chega a escarnecer das palmas: “That's it, clap things you agree with, there you go.” Culpa o público de não se rir, de rir pouco, de rir das coisas erradas. Este estratagema de ver o público como o inimigo torna-se uma forma de aliança com o público. Lee é um catalisador de um gozo muito particular: o de desmontar pressupostos. Identifica no público e no ofício do stand up clichés e automatismos com sardónica precisão. Quem assiste reconhece em si e na interação com a personagem em palco elementos de ridículo que deixam de ser armadilhas do hábito tornando-se assim momentos de reconhecimento do grotesco. E ri-se, muito.

#000519 – 19 de Abril de 2021

Maquilhagem que impede a deteção robótica do rosto. As Christmas Lectures do Royal Institute são para crianças. O Facebook critica ferozmente a Apple porque esta protege a privacidade dos utilizadores. E as crianças inglesas aprendem coisas que os seus avós nem numa história sci-fi aceitariam como credível. Distopia é distopia é distopia, Facebook.

#000518 – 18 de Abril de 2021

Um minuto para resolver um cubo 3x3x3. Dois minutos para ligar a guitarra ao computador. Três minutos para escrever uma entrada no caderno. Quatro minutos para me calçar e colocar a máscara. Cinco minutos para escolher um episódio de podcast. Minuto lembra diminuto. Conta-se quando há tempo. E este esgota-se quando finalmente dele me esqueço. Ecrã, cordas de guitarra, cafeína. Horas até sair de casa.