#000507 – 07 de Abril de 2021
Regressa o surf. Sonho em pedalar até à Nazaré para ir ver as ondas.
Regressa o surf. Sonho em pedalar até à Nazaré para ir ver as ondas.
Ao contrário da experiência do cinema, a leitura é uma imersão lúcida. Consideremos um filme e uma história escrita diferentes formas de alucinar. Então o cinema seria um psicadélico e a literatura meditação. Um filme produz, na nossa percepção, a viagem, a narrativa, a atmosfera, as sensações. Uma história escrita conduz-nos, como a voz de um guru, para que possamos a seguir ter a autonomia de nos apercebermos dos nossos pensamentos. A falta de controlo do espectador no cinema, em que tudo acontece sem que o possamos desligar ou interromper, é gratificante. E é muito diferente da forma de sonhar de olhos abertos na leitura, em que temos noção ao mesmo tempo da realidade e da alucinação. Escrever é deixar um rastilho que arde do sonho à realidade e que nem ter de ser aceso. Ao ler, basta intuir a intensidade da ignição.
Custa escrever um livro. É preciso estar sempre no limite do que sou capaz. E não é bem ultrapassar essa fronteira o meu ofício. É antes agir como se o limiar do possível e do conhecido por instantes desaparecesse.
E o estranho é que o cansaço também é criativo. Talvez quebre defesas ou accione aquilo a que a lucidez não tem acesso. Bizarra, a mente.
Colaboração voluntária. Seria uma injusta falta de rigor confundir libertários de direita com anarquistas. O autor do “The Abolition of Work”, Robert Charles Black Jr., desmantela esta recente corrente política americana. No seu jeito habitual de começar um texto de forma contundente, é assim que abre o artigo “The Libertarian As Conservative”:
«I agreed to come here today to speak on some such subject as “The Libertarian as Conservative.” To me this is so obvious that I am hard put to find something to say to people who still think libertarianism has something to do with liberty. A libertarian is just a Republican who takes drugs. I’d have preferred a more controversial topic like “The Myth of the Penile Orgasm.”»
Nem na sua forma individualista (como o pós-esquerdismo de inspiração situacionista de Robert Black), o anarquismo se confunde com o libertarianismo de direita. Eu vinha aqui escrever algo mais simples, mas depois lembrei-me que o Bob Black sabe do que fala, ao contrário de mim, que finjo mal. Por cansaço, ia apenas transcrever umas linhas que escrevinhei num caderno, há tempos. Aqui ficam, em parágrafo próprio:
Os anarquistas acham que são as interacções sociais, as várias formas de colaborar voluntariamente, que permitem assegurar os direitos individuais. Os libertários de direita acham que o grupo e a sociedade são os inimigos dos direitos individuais.
O desconhecido. Como um cientista, um escritor de sci-fi é motivado por aquilo que não sabe. O que não se conhece, na ciência como na ficção científica, atrai e gera acção. Medo do desconhecido torna-se assim expressão desajeitada. Pouco diz sobre medo ou sobre desconhecido.
Números e letras. Quando se é criança não se separa ainda uns de outras. Contar e descrever, coisas com afinidade. Signos para dizer as coisas. A escrita é a curva, o traço no papel. A leitura é um reconhecimento luminoso. Depois, vamos separando alguns signos, complicando-lhes significado e valor, ao ponto de opormos ciências e humanidades.
Burocracia digital é ainda burocracia. Um grupo de indignados faz queixa de um tweet, a conta é bloqueada. O algoritmo do YouTube deteta uma canção com copyright, o vídeo é bloqueado. Em seguida, emails automáticos, termos e condições, palavreado legal, terminologia burocrática. E, sobretudo, uma distância enorme entre o cidadão e a capacidade de compreender ou interagir com o poder. Tecnoburocracia.
A música está antes da linguagem. Não depende de signos nem de hermenêutica. Improvisá-la, com outros, é partilhar intuições.