Kroeber

#000497 – 28 de Março de 2021

Cansado de ecrãs. Queixo-me de ecrãs em frente a um ecrã.

#000496 – 27 de Março de 2021

Ler para adormecer. Ler para despertar.

#000495 – 26 de Março de 2021

A melodia do Seu Jorge ainda ecoa nos dedos. Como uma dança em músculos doridos. Toco, ou melhor, sou tocado pelas cordas.

#000494 – 25 de Março de 2021

A pele entretanto amolecida dos dedos dói-me. Voltar a tocar uma guitarra com cordas de aço é recomeçar nesse pequeno sofrimento.

#000493 – 24 de Março de 2021

Chegou a guitarra. Os calos sararam. Os dias são um lento degelo.

#000492 – 23 de Março de 2021

Dói-me o dedo. Só me afecta quando teclo, a caneta seguro-a bem.

#000491 – 22 de Março de 2021

Um escritor que escreve um diário finge que o faz. Até a correspondência entre escritores tem o leitor implícito. Todo o acto palavroso do escritor tem essa responsabilidade chamada futuro. Ou pelo menos tinha. Agora que se faz tudo às claras, em tempo real e online, o que muda? O que fica ainda sob reserva temporária? Que parte do trabalho do escritor será segredo com prazo de validade, secreto até que a morte o revele?

#000490 – 21 de Março de 2021

Gosto de: listas, acordar com o sol, instrumentos de corda, cozinhar vegetais. Tenho saudades de: ir à biblioteca, pedalar dezenas de quilómetros, dar abraços. Sonho com: futuros semelhantes aos que imagino, um corpo menos pesado e mais ágil que este, mar. Tenho medo: de tecnologia nas mãos de autocratas, da legitimação da violência, da ignorância, do medo. Amo: algumas pessoas e toda a liberdade.

#000489 – 20 de Março de 2021

Longboard. Patins offroad. Snowboard. Parapente. Lembro-me dos instantes iniciais em que pedalei sozinho pela primeira vez. Da primeira e quase única vez que me pus em pé em cima de uma prancha de surf. Dos primeiros metros a ser levado pelo vento numa prancha de windsurf. Dos primeiros patins que usei. Da primeira vez que patinei no gelo. Das primeiras pedaladas numa halfbike. Esta alegria infantil nunca parei de a buscar. O prazer destas atividades não se esgota, não depende da novidade. Cada momento de puro gozo físico e satisfação motora renova o instante de descoberta de uma forma específica de movimento.

#000488 – 19 de Março de 2021

Comprei um caderno. Ainda tenho cadernos com 30 anos. Já não os abro há muito tempo. Passou a adolescência. Entrei na faculdade, terminei o curso e foi sempre em papel que escrevi. O primeiro computador só o teria uns anos mais tarde. Um teclado foca a atenção pelo som e pela cadência táctil. No papel é a caligrafia, o ato físico de desenhar e manter proporções e legibilidade que prende a mente. São mais do que métodos diferentes, são atividades diferentes. Voltei a esta, com uma caneta de vácuo, gorda e transparente. Vejo a tinta, escuto o raspar do aparo e, curiosamente, escrevo um diário que não, não transcrevo para aqui.