view#000487 – 18 de Março de 2021
Resmungão. Nos muitos meses que estive sozinho a trabalhar num apartamento noutro país, aprendi a resmungar. Descobri-me rezingão, dado a queixumes e impaciências, impulsivo no expressar de frustrações. Talvez a aprendizagem social seja importante, nisto da gestão das emoções. Há um lado desse condicionamento, a que não se foge na proximidade com os outros, que ajuda a desfocar as atenções do ego. Não sendo confrontado com outras emoções, outras experiências e interpretações do mundo, a minha própria perspetiva ganha uma falsa centralidade e desmedida importância. Sobretudo porque é minha a vida, não é assim tão importante. É tudo o resto que me dá contexto do que se encerra em mim. São todos os outros que me importam, para o mundo que é meu. Regresso à civilização nisto das coisas pequenas. O silêncio, como me lembrou o Vítor Rua, é uma forma específica de som. Já o ruído é difícil de definir. Mas ao menos vou aprendendo que não é o barulho que me impede de insistir na autocomplacência. Essas distrações exteriores ao que sou têm um nome que nunca será banal: realidade.
view#000486 – 17 de Março de 2021
A bicicleta velha guincha, é pesada e pequena, cansa-me e prepara-me. Pedalo com dificuldade e satisfação, os joelhos frágeis, a posição desajeitada, a boca aberta tapada pela máscara, a respiração ofegante.
view#000485 – 16 de Março de 2021
O cabelo de Sansão voltou a crescer. A sua história é interessante aqui. Não tanto os motivos de Dalila ou que magia concentrava nos cabelos força tão sensacional. O interessante é imensamente banal. Deixado a apodrecer numa prisão, a pilosidade cresceu. Barba e cabelo. O crescimento muito mais lento e menos espetacular que o seu sorrateiro corte à traição. Voltou-lhe a força, talvez regressando milímetro a milímetro. Eu decidi cortar o meu cabelo, coisa que já não fazia há 20 anos. Não tenho sequer a certeza que me volte a crescer com semelhante viço. A nuca apresenta alguma rarefação capilar. Vou ao menos treinando a careca. E ainda assim darei uma derradeira oportunidade a que cresça outra vez o cabelo, ao mesmo tempo que diminui de novo a barriga.
view#000484 – 15 de Março de 2021
Planeio o meu próprio desconfinamento. Com a bicicleta nova começarei a pedalar na direção do mar e do monte. Visitarei amigos como dantes, surgindo suado e feliz à sua porta. Irei à descoberta. Quero reaprender a pedalar. E até ir mesmo à aventura em bikepacking. Mastigo futuros.
view#000483 – 14 de Março de 2021
Os computadores um dia desaparecerão. Como a estrutura de “A Febre de Urbicanda”, os microprocessadores aparecem e vão crescendo. Tomam conta de tudo e continuam a crescer. A estrutura que veio do nada, em Urbicanda, primeiro tornou a vida um desafio, depois interessante, depois impossível e depois continuou a sua expansão até que a escala a tornou negligenciável. Quando algo se torna demasiado grande ou demasiado pequeno, é como se não tivesse existência. Para interagirmos com um objecto, precisamos de estar na mesma escala. Os computadores talvez se tornem tão pequenos que serão indistinguíveis de tudo. Mas as bicicletas não. Muito mais que metáforas para silicon valley, as bicicletas existirão enquanto houver motricidade humana. E só existem à nossa escala, em diálogo com a força e agilidade que as anima e que em nós estimulam. Prazer, liberdade e saúde. Os melhores ingredientes da vida.
view#000482 – 13 de Março de 2021
Um alfabeto é uma sementeira de infinito.
view#000481 – 12 de Março de 2021
Em dois anos rejuvenesci 10. E no ano seguinte envelheci 10. Não sei que idade tenho. Sempre pensei nessa coisa como a medida do balanço de uma ampulheta que se vira. O balanço atira-me para a leveza ou a inércia.
view#000480 – 11 de Março de 2021
Vou-me habituando à solidão. Melhor: vou habituando a solidão a mim.
view#000479 – 10 de Março de 2021
Neal Shusterman surpreende-me. Escreve para o público juvenil, mas a sua ficção distópica aborda a morte e a crueldade. Em histórias como as de Hunger Games e Divergent, seguimos heróis adolescentes atirados para a aventura de sobreviver à perfídia. Katniss Everdeen é um tipo de personagem muito diferente de Winston Smith. E o ambiente de 1984 é muito diferente do ambiente de Hunger Games. E em Shusterman?
Os protagonistas desta onda de distopia juvenil (em que não incluo Shusterman) são esculpidos à imagem do que os donos do mundo actual nos pregam: “sai da tua zona de conforto, faz da crise uma oportunidade”. Katniss torna-se uma estrela ao aceitar o papel que o regime opressivo lhe impõe. O seu dilema, ao longo da série, é o conflito entre a sedução da mão que lhe dá de comer e as suas origens precárias.
Já Winston vive numa narrativa sufocante. Fraco, doente e incapaz de impulsos heroicos, é a perfeita imagem da derrota do indivíduo perante o poder. Seguimos as peripécias em Hunger Games com entusiasmo, mas a história em 1984 faz-nos sofrer. A distopia, atualmente, é a irmã siamesa da utopia. A prosperidade é uma excrescência de um corpo maior chamado miséria. Em Elysium, uma parte ínfima da humanidade vive num paraíso tecnológico, a quilómetros do chão do planeta. E todo o resto da humanidade vive em absoluta miséria. Esta premissa do filme de Blomkamp é apenas uma hipérbole do mundo em que já vivemos.
Shusterman atreve-se a escrever histórias young adult que colocam questões incómodas. O seu tom é ainda assim de aventura, açucarado e cheio de acção. Mas é exactamente o contrário de escapismo ou de uma inadvertida apologia do pior que já vivemos. É um espinho em forma de história, que nos obriga a sentar e descalçar o sapato do pensamento habitual. Fico a pensar que talvez haja mais ficção juvenil assim e que apenas um preconceito meu me tem impedido de a descobrir.
view#000478 – 09 de Março de 2021
Escrevo uma história sobre viajar no tempo. Exploro o aumento de entropia. Viajar atrás e corrigir começa por parecer uma boa ideia, mas cada passo, gesto e acção começa a sabotar cada intenção e vontade.