Escrever com caneta. Por enquanto é ainda algo em quem pensamos por oposição à escrita com um teclado. Para quem desenha existe já uma continuidade entre o digital e o papel. Começou quando se digitalizavam os desenhos. Mas agora desenhar com caneta sobre ecrã é actividade tão habitual como desenhar em papel. Em relação à escrita, existem já tablets com ecrãs e-ink e materiais que procuram assemelhar o atrito da caneta digital no ecrã ao de um lápis no papel. Convertem também caligrafia em texto. Talvez se tornem mais baratos e acessíveis, como se passou com os leitores de ebooks. Talvez não. As actividades criativas tendem a acolher a tecnologia sem dela depender. Foi o caso da música, da fotografia, do cinema, da pintura e do desenho, imagino que seja o caso da escrita.
James Acaster defende que 2016 foi o melhor ano de sempre para a música. O interesse em álbuns lançados nesse ano foi uma forma de pensar em algo distinto dos problemas pessoais que tinha à data. As recomendações do comediante deram um livro inteiro. Ao escutar alguns dos álbuns que recomenda, quase acredito na tese de Acaster. Em 2016 o panorama político mundial agravou-se, talvez a criatividade musical tenha sido uma resposta ao desespero. Terá 2020 um efeito semelhante?
Somos vizinhos do silêncio. Há pássaros e música ao longo da tua pele.
Perto de ti, tudo canta. O sol deu descanso à chuva, a primeira manhã iluminou-se de riso. O meu corpo vibra na música da tua voz. A imaginação embala a saudade, essa doença da memória, sonolenta e caduca. E faço-me cúmplice do futuro, antecipando já os frutos notívagos da nossa saciedade.
Voar. Parte da humanidade está no ar. Em 2014, o jornal The Guardian comemorou os 100 anos da aviação comercial com um mapa interativo. Dizia a publicação que cerca de meio milhão de pessoas estão, estavam, a atravessar os céus. Não faço ideia quantas pessoas estarão a partilhar a atmosfera comigo enquanto regresso a Portugal. Mas ainda me impressiona a ideia de que uma parte razoável da humanidade, a cada instante, está dentro de uma máquina voadora. Talvez no futuro passe a haver linhas de alta velocidade a ligar continentes por debaixo dos mares, como já existem para algumas travessias de muitas dezenas de quilómetros na China, no Japão, na Coreia, na Suiça ou no Canal da Mancha. Já somos habitantes de todos os territórios e climas. Passageiros subterrâneos, aéreos e de superfície. Mas este crescimento trouxe poluição, destruição de recursos naturais, extinção em massa de espécies, mudanças climáticas, secas, cheias e tempestades mais imprevisíveis, frequentes e devastadoras. E prevê-se que zonas agora muito populosas se tornem inabitáveis, levando muitos milhões de pessoas a fugir, como agora fazem os refugiados da guerra. As próximas décadas, a julgar pelo nosso pessimismo fundamentado, poderão suplantar as distopias de hollywood. Haverá ainda ficção científica daqui a 20, 30, 40 anos? É preciso um depósito de sementes da imaginação humana, como o que existe em Svalbard para as sementes das plantas terrestres.
Gosto de mudança. Por isso detesto o uso desonesto da expressão “resistência à mudança”. Eu ganho forças muito mais facilmente para me ajustar a uma mudança que não pedi do que para me agarrar a algo que não desejo. A vontade de encontrar chão em mim é muito maior que o medo de perder o chão. Quando alguém diz “resistência à mudança” muitas vezes é porque sabe que nos está a apresentar uma mudança para pior. Mas sendo honesto sinto-me dividido. E nem sei bem que forças me fazem ao mesmo tempo melancólico e esperançoso. O que me motiva é a mudança exterior. A mudança do que sou é-me opaca. Faço pouca ideia do que muda em mim. Só o tempo traz o que a memória ainda não ensina.
Dentro de poucas horas, o avião. Ao arrumar malas, reparo que volto a ter muitos cadernos, como na adolescência. Cada um especializado num futuro específico de lembretes e devaneios, planos e improvisos.