view#000386 – 08 de Dezembro de 2020
Pipe Masters regressa. Em confinamento assistimos aos surfistas a competir. A World Surf League, entre baterias, recorda eventos passados em que houve porrada, batota, intimidação. Enquanto recorda ao mundo o seu comprometimento com a protecção dos oceanos, a promoção de causas de caridade e objetivos de sustentabilidade, narra os feitos do tribalismo e da testosterona. Os separadores mostram agressões na água, esperas aos juízes, surfistas a sangrar. E cada separador histórico termina com frases a vaticinar que em Pipeline os local boys é que mandam.
view#000385 – 07 de Dezembro de 2020
Colum McCann diz aos seus alunos de escrita criativa: não escrevam sobre o que sabem, escrevam no sentido daquilo que querem saber.
view#000384 – 06 de Dezembro de 2020
Fantasia. É uma sensação de perigo escrever uma história em que tudo pode acontecer. Não há limites para a irrealidade. Miéville gosta muito de histórias como Alice no País das Maravilhas e Neverwhere. Quer em Kraken quer em Un Lun Dun, o enredo que no início é bastante clássico a seguir dissolve-se em experimentação. São, sem grandes surpresas, dois livros dele que ainda não acabei. Na história que escrevo, sinto a força gravitacional da experimentação. A única forma que tenho encontrado de manter a coerência é fazer a viagem com as personagens. Para isso, vivo com um pé nessa realidade instável, vou insuflando esse mundo em criação. E os dedos que escrevem são um fole a manter a chama viva.
view#000383 – 05 de Dezembro de 2020
Sentir culpa só tem a ver com o passado. É incompreensão ou dor em relação ao que passou. Assumir responsabilidade é preparar o futuro.
view#000382 – 04 de Dezembro de 2020
Social media. Esta obsessão em falar dos media sociais distrai-nos da conversa mais urgente, sobre a sociedade mediática. Nunca fomos tão McLuhanianos. O meio é a mensagem. A única mensagem possível.
view#000381 – 03 de Dezembro de 2020
Saio da Grécia com histórias. Não tenho mais dinheiro, nem mais saúde, nem mais sabedoria. Mas nasceram-me histórias. Algumas encontraram já o seu livro e foram publicadas. Outras dependem ainda do meu esforço de não lhes inviabilizar o parto. Aprendo, a custo, a não ser empecilho.
view#000380 – 02 de Dezembro
Já nasci sem lugar. 1975. Tinham os meus pais, e eu com eles, perdido a identidade. Nasci não sendo Moçambicano. Perdi um lugar, contado nas histórias da minha família. Um país inteiro virado para o Índico, luminoso, livre. Mas esse lugar nunca existiu. Perdi o que não poderia ser meu. Em Moçambique as pessoas não eram todas tratadas com a mesma dignidade. E falar em liberdade é um exagero. Moçambique tornou-se país ao mesmo tempo que eu o perdia para sempre. E tive a seguir que procurar uma outra mátria. Felizmente tinha a língua.
view#000379 – 01 de Dezembro de 2020
Regresso. É uma palavra que finaliza, que interrompe, que surpreende. Não é ainda um novo início, é uma desfeita ao que está quase a passar.
view#000378 – 30 de Novembro de 2020
Olho para o tempo, finge-se de estátua.
Distraio-me e esvai-se todo da clepsidra.
view#000377 – 29 de Novembro de 2020
O humor é um dedo que faz cócegas mesmo quando só está a apontar.