Kroeber

#000376 – 28 de Novembro de 2020

Outras vezes, as palavras, acotovelam-se.

#000375 – 27 de Novembro de 2020

As palavras às vezes fazem greve de zelo.

#000374 – 26 de Novembro de 2020

Escrevo fantasia. A história que tenho em mãos passa-se em locais onde cresci. Desinquieta-me, de uma forma muito gratificante, descobrir seres irreais, mundos subterrâneos, nas ruas em que cresci. É como ver, pela primeira vez, os contornos da sombra ao ligar uma luz. O que acontecerá?

#000373 – 25 de Novembro de 2020

O confinamento reforça uma certa hegemonia. A ideia, perversa, de que a política importa pouco, os governos são meras orquestrações e fachadas e a experiência de cidadania apenas se concretiza no consumo de bens digitais. Esta mediação das nossas vidas sociais e do nosso trabalho tem prestado um enorme serviço à legitimação do poder dos gigantes de Silicon Valley. O papel do bilionário empreendedor enquanto salvador da humanidade, arauto da utopia, que antes de 2020 já vinha sendo disputado, ganha um novo, talvez curto, fulgor. Mas é precisamente porque há tanto poder em tão poucas mãos e porque se trata de um poder no qual os cidadãos não participam que a política importa. Importa sabermos o que queremos e de que maneira é que queremos construi-lo-lo. Importa saber como podemos colaborar, que conversas são mais urgentes, que interdições inaceitáveis, que perguntas estão por fazer.

#000372 – 24 de Novembro de 2020

O que a literatura utópica demonstra não é que as utopias são possíveis, é que conseguimos lá viver. A imaginação não é jornalismo, é arte e fôlego.

#000371 – 23 de Novembro de 2020

O Neil Gaiman escreve em papel. Há algo de ancestral nesse acto de ter um livro a que se acrescentam páginas. Não um ficheiro ou uma cópia na nuvem. Eu teria medo de saber que num único objecto se encontra tudo, que toda a história está ali. Talvez esse sentimento de algo absolutamente precioso ajude a escrever de uma outra forma. A Dulce Maria Cardoso, pelo contrário, escreve uma primeira versão que a seguir apaga. Totalmente. Quando reescreve, é a memória que a ajuda. O Murakami traduz para inglês (língua que não domina) a primeira versão. Limpa de excesso o texto. E a seguir volta a traduzir para japonês. O ofício do escritor, esse cuidador da linguagem, assemelha-se ao de um escultor.

#000370 – 22 de Novembro de 2020

Como num sonho em que Thelonious Monk me falasse, para que eu evitasse os erros errados, “the wrong mistakes”, para errar melhor.

#000369 – 21 de Novembro de 2020

A curiosidade motiva-me. Escrevo sem saber ainda o que vai acontecer às personagens. Surpreendo-me com as suas decisões. Uma estranha autonomia, feita de coerência contra as minhas expectativas, deixa-me perplexo. Desentendo os acontecimentos da narrativa. Demoro a ganhar intuição em relação ao significado das coisas. Escrever é ler marcas na areia. Há vestígios de algo que já se passou no futuro. Esta praia, um paradoxo temporal, tem marés que revelam o que irá acontecer. Mas as ondas constantes da memória do impossível lavam as marcas que apenas a intuição pode reconstituir. Errar é o mais provável. Tudo acontece num mundo parcial, incompleto, contraditório, cheio de inclinações e preconceitos, mas ainda assim com átomos de infinitude: a imaginação.

#000368 – 20 de Novembro de 2020

A esquizofrenia vocal do Mike Patton é um reservatório de sanidade.

#000367 – 19 de Novembro de 2020

Quando eu era adolescente, o anti-racismo começava por rejeitar em absoluto o conceito de raça. Isso era a fundação para o combate contra sistemas e crenças opressivas, ideias de supremacia ou de legitimação colonial. Durante séculos, as potências coloniais se separaram de outros povos, invocando diferenças irreconciliáveis, pondo em causa a humanidade dos subjugados. Isto tinha como base distinções morfológicas como a cor da pele e a fisionomia. Era uma forma de desumanizar o outro, de o inferiorizar e tornar indigno de compaixão ou respeito. Impossibilitava a ideia de igualdade entre povos diferentes, populações distintas. Mesmo em pleno séc. 20, regimes como o Apartheid e a Segregação sustinham legalmente o racismo institucional, a separação das pessoas em categorias de merecimento e acesso. Era a continuação da herança da escravatura. Isto não acabou. Há ainda formas de repressão e exclusão que são o legado de séculos de violência. Muita gente lutou, morrendo mesmo, contras estas ideias. A própria ciência, finalmente e com séculos de atraso, veio dizer que o que se vê exteriormente é superficial, não existem diferenças substantivas entre seres humanos. Mesmo a genética o comprova. Mas a cultura americana que nos chega pelo ecrãs, que nos coloniza culturalmente há muitas décadas, vem defender o oposto. Sim, dizem as culturas identitárias americanas, existe raça. Sim o superficial é importante. E negá-lo é coisa de racistas (dizem os defensores do pensamento cultural único) ou coisa de fracos e inferiores (dizem os defensores da supremacia branca). É preocupante não haver ainda, entre as pessoas de boa-vontade, entre humanistas, uma base comum para se defender os direitos humanos e se combater a xenofobia e o racismo que, sim, infelizmente são sistémicos e se perpetuam nas nossas instituições e nos nossos comportamentos.