#000366 – 18 de Novembro de 202
Concordo com o Ricardo Araújo Pereira: “Não ser discriminado não é um privilégio, é um direito”.
Concordo com o Ricardo Araújo Pereira: “Não ser discriminado não é um privilégio, é um direito”.
Um ano. Comecei pensando que seria o melhor de sempre. Mas acabei vivendo dentro de paredes. Serão precisos muitos anos para entender o que realmente mudou. Prisão é esse estado em que se derrota não só a nossa vontade de estar noutro lado, mas a determinação de ser, por dentro, um lugar espaçoso e autónomo. Aquilo em que me tornei ainda não sei o que é. Houve esperança, violência, erosão da democracia, doença. Tudo mediado através dos ecrãs. Os grandes agigantaram-se. A solidariedade originou receitas. Tudo se mercantiliza, até um protesto, um ato de cidadania, um sentimento anti-capitalista. Que espaço resta dentro de cada um e onde o espaço para a nossa vida comum?
Tristan Harris afirma: Silicon Valley não distingue os nossos valores das nossas vulnerabilidades. Num exemplo claro da economia da atenção, diz Harris: alguém vai numa autoestrada, do outro lado da via há um acidente e o olhar é atraído; para os algoritmos isso significaria que essa pessoa quer acidentes. Silicon Valley não distingue, insiste Tristan Harris, entre aquilo que alguém quer e aquilo que atrai a atenção dessa pessoa com eficácia. Online, é-nos mostrado não o que queremos, mas as coisas das quais não nos conseguimos proteger. E é-nos mostrado seja o que for, visto que não conseguimos deixar de olhar mesmo para coisas mórbidas, ridículas ou falsas. A assimetria entre o que sabemos sobre nós próprios e os gigantes digitais sabem sobre nós é enorme e continua a crescer.
A liberdade é como o tempo. Mais que conceitos paradoxais, são matéria essencial da vida humana. O tempo, quando o preenchemos voluntariamente desaparece tornando-se nosso e passado. A liberdade, exercêmo-la ao restringi-la com decisões que nos limitam e atiram para o futuro. Tiram-nos o tempo e ficamos sem liberdade. Ameaçam-nos a liberdade e temos de inventar tempo para a recuperar. Pensamos muito numa ou noutro e deixam de ser naturais, como quem interrompe a respiração ao se deter nela. O tempo presente e a liberdade de ser precisam de espaço, de um desapego em relação ao que foi e ao que será. Não é um problema, é um recurso que, desiludidos, podemos passar a detestar, como quem amaldiçoa o peso da água que tem de carregar ao atravessar um deserto.
Esquecer. Talvez um luxo, provavelmente um conceito datado, já ele próprio em vias de esquecimento. O Google Photos lembra-nos o que aconteceu há um ano. O Google Lens aponta a nossa câmara a um objeto e diz-nos o que o objeto é, quanto custa. O Shazam diz-nos qual o nome da música que toca, quer a trauteemos, quer passe na rádio ou num bar. A Alexa, o Siri e o Assistente Google, incorporados em colunas, lembram-nos do que está na agenda, do que temos de fazer, de quem nos espera. O Facebook e o Google recordam-se muito bem do nosso comportamento através das páginas web, insistem em vender-nos coisas depois de um clique ou visita mais demorada. A Amazon sabe tudo sobre o tempo que demoramos a fazer scroll, os produtos que compramos com mais impulso ou mais tempo, quanto da nossa vida online passamos a comparar opções, que itens deixamos no carrinho de compras. Os smartwatches e mesmo os telemóveis sabem onde andamos, qual a qualidade do nosso sono, quantos passos damos e onde. Na China, o rosto das pessoas é conhecido em detalhe pelo software de reconhecimento facial. Quer seja usada a nosso favor ou se processe em bastidores que desconhecemos, a informação sobre o que fazemos e publicamos online, mesmo as minúcias de cada instante, é cada vez mais permanente, quase imperecível.
O que mais recordo são as coisas que adquiri com muito esforço e bastante acaso. Um dia, no início da minha adolescência, via a MTV. Nesse tempo, no final da década de 1980, era um ainda canal de música, não de reality shows. Um amigo tinha uma antena parabólica: em vez de 2 canais de televisão, tinha dezenas. Só de música, além da MTV, havia a MCM e a VH1. A música aliás, era incessante. Só de vez em quando é que se interrompia, para se falar acerca de ou com músicos. Numa rubrica que repetia ao longo do dia, “MTV 3 from 1”, passavam três canções seguidas de uma banda, sem interrupções nem publicidade. Isto foi antes de se generalizar o uso da internet, por isso ver televisão era assistir a uma transmissão, como olhar para um rádio que também tinha imagem. O comando só desligava o televisor, subia e baixava o volume ou mudava de canal. A banda que recordo chamava-se “Sugarcubes” e a única canção que não esqueci era “Birthday”. Não pude saber nem encontrar onde saber mais nada. O refrão da canção não tinha letra, assentava na voz quebrada, meio frágil meio insubordinada da vocalista. Quando, a meio de 1993, surge o videoclip de “Human Behavior” no Top + quase me assustei de feliz. Chamava-se afinal Björk a dona daquela voz estranha e maravilhosa. Foi de forma quase semelhante que descobri que o Parkour tinha esse nome. Antes ainda de ver o filme de 2001 Yamakasi, com vários dos fundadores da modalidade, vi a segunda parte de uma reportagem na televisão portuguesa a praticantes em Portugal. E não pude saber que nome tinha aquele conjunto de movimentos. Para se ter uma ideia de como tudo estava ainda no incício, David Belle tinha 27 anos e Sébastien Foucan 26. Foi só depois de já ter comprado o meu primeiro computador, em 2003, que finalmente pesquisei no google imensas variações de palavras chaves. Foi algo como “urban acrobatics sport” que me deu o nome Parkour. Agora temos o precioso club540.com que eu desejo inspire, na sua simplicidade de biblioteca de movimentos, todas as artes do corpo, das marciais à dança, passando pelos desportos da agilidade como a ginástica ou o Chinlone.
Gosto francamente de tecnologia digital e tenho prazer no uso de gadgets. Esta direção em que tudo surge já pré-digerido talvez não seja inevitável, mas é dominante. Por enquanto todas as pequenas interacções com ecrãs começam ou são fortemente influenciadas pelo software, não pela nossa vontade consciente, como bem nos avisa o Center for Humane Technology. Sinto-me como se tivesse, a cada instante mediado por ecrãs, uma babysitter digital que precisa, que de facto ganha dinheiro, com a minha atenção. Gosto da sua imensa biblioteca de factos. Mas só existe a história do parágrafo anterior porque se passou numa altura em que a informação era escassa ou lenta. A tecnosfera que vai envolvendo a Terra e, com a Starlink de Elon Musk, a própria exosfera do planeta, poderá estar a acabar com a viabilidade do conceito (ainda tão adolescente) de serendipidade.
Há a escrita de insónia. Há a revisão da angústia. Há a edição do desapego. Mas dificilmente revejo cansado, edito desmotivado, ou escrevo angustiado. O difícil, ainda assim, é o possível. Acontece, nem que seja em mundos paralelos ou longínquos futuros. A imaginação é essa elasticidade do tempo: fisga feita de memória e projéctil aceso na libido.
Ensaio Sobre a Cegueira. Sobre este livro escreveu Ursula K. Le Guin. Diz a autora americana, na introdução aos romances reunidos em inglês do Saramago, que confia no escritor português. Que se deixa conduzir por caminhos terríveis porque acredita que há uma razão para o Saramago ali levar o leitor, talvez qualquer coisa a aprender, nem que seja uma dúvida.
Sem parafrasear, ficam aqui as palavras de Ursula K. Le Guin sobre “Blindness”, nome da tradução em inglês de Ensaio Sobre a Cegueira, que considera “the most deeply frightening novel I have ever read”: “To be willing to read about terrible cruelty, I need to trust the author. Trust unquestioningly, the way one trusts Primo Levi. Too many writers use violence and cruelty to sell their books, to “thrill” readers who have been trained to think nothing is interesting but “action,” or to keep their own demons at bay by loosing them on other people. I don't read those books. I will let a writer torture me only if I accept his reasons for doing so.”
Uma lição difícil de aprender: quando um documento não aparece, por mais que se procure, é muito provável que esteja no vidro do scanner, na impressora. Óbvio é adjectivo que se usa em retrospectiva.
Um diário é uma obrigação maior que um livro. Há dias em que há muito pouco a registar. No entanto, depois das frases iniciais, o texto avança. E, às vezes, interrompe-se abruptamente.