Kroeber

#000356 – 08 de Novembro de 2020

Há que confiar no vazio. Antes de escrever, tenho a tentação de averiguar o meu estado. Sou capaz? Que tenho eu para colocar no papel? Para onde vai agora a personagem? Tenho energia? Lembro-me do que queria? Faz sentido o que escrevi ontem? Antes de escrever a primeira palavra, já estou em plena auto-sabotagem. Argumento comigo mesmo, e é titânico o esforço de me convencer de que sou capaz, que tenho coisas para dizer, que sei para onde vai a personagem, que tenho força, que o que me lembro é suficiente, que ontem não foi assim tão mau. Mas há outra forma, tão simples que é contra-intuitiva. Simplesmente escrever.

#000355 – 07 de Novembro de 2020

A caneta de aparo espalha a tinta. Voltei a escrever diariamente os meus sonhos. Iniciei exercícios de escrita no que me custa mais: primeiro a descrição de personagens, a seguir serão os diálogos. Desenho ocasionalmente. Tomo notas e planeio. O aparo risca o papel, no ponto exacto entre aspereza e suavidade. As linhas têm carácter, mesmo com uma caligrafia desinteressante como a que consigo produzir. Daqui a dez dias faz um ano em que escrevo diariamente aqui. E mais de 30 dias que escrevo consecutivamente para o meu livro. Sou bipolar. O meu humor é feito de solavancos e mudanças, mais ou menos bruscas, mas inevitáveis. Com os anos, passei a saber suavizar um pouco mais o gráfico do meu humor, e evitar picos e vales tão escavados. E, sobretudo, a perseguir a estabilidade. Para alguém como eu, o equilíbrio é tão exótico como para outros a excentricidade. Nada me fascina mais do que uma personalidade caseira, sossegada e introspectiva como a de Ursula K. Le Guin. E pelo contrário, aborreço-me com artistas autodestrutivos e caóticos. Tento usar a inevitável confusão dos meus pensamentos como matéria prima, ou pelo menos como espinho que me faz mover. Mas é com claridade, consistência e esforço que termino as coisas importantes para mim.

#000354 – 06 de Novembro de 2020

No mundo dos sonhos, a Sarah Silverman vivia comigo. Talvez em Nova Iorque. Ao acordar, o susto de ainda não saber se Trump foi derrotado.

#000353 – 05 de Novembro de 2020

Acordar de um sonho é estranho. Por alguns segundos tenho a noção de que estava consciente num mundo com alguma coerência mas de regras instáveis e criatividade infinita. É quando, já de olhos abertos, começo a deixar-me tocar pela realidade física que o mundo sonhado começa a dissolver-se. E com esse desaparecimento também se esvai a sensação de estar acordado num outro lugar. Uma diferença imediata entre o sonho e a realidade é que apenas a realidade é persistente, apenas a realidade resiste às minhas ideias e crenças. Resiste, com uma enervante mas didáctica quietude, até aos meus sonhos.

#000352 – 04 de Novembro de 2020

Não renovei o Netflix. E em 24h fiz mais do que numa semana. A atenção é espaço interior. Preencher o vazio é uma forma de derrotar a preguiça.

#000351 – 03 de Novembro de 2020

Election Day 2020 doomsday. Esta última palavra, doomsday, é a que o Youtube sugere, quando pesquiso Election Day 2020. Faltam ainda mais de 6 horas para sabermos se Trump é reeleito. Esta noite vai ser o mais próximo que tive de me deitar sem saber se ao acordar o mundo acabou.

#000350 – 02 de Novembro de 2020

Em 28 dias terminei uma história. A quantidade, ao escrever um livro, é a primeira dificuldade. Mas é ainda como subir degraus. A seguir vem tudo o resto. Faltam 3 narrativas. Reescrever, rever e preparar para uma possível edição. É uma viagem apenas com remos, poucos mapas, um percurso cujas pegadas permanecem e que se quer publicar no final. Não adianta ser só esforço.

#000349 – 01 de Novembro de 2020

Escrever sci-fi é ser pastor de universos. Pastor não, jardineiro. Muitos mundos são criados, antes ainda da narrativa e das personagens. A maioria não é viável. Quase todos se revelam inóspitos para as personagens. Há aqueles em que investimos histórias, em que passamos também a habitar, num sonho lúcido permanente que se sobrepõe à realidade. E que visitamos com assombro porque as personagens os foram modificando com uma autonomia de pessoas fictícias. Cuidamos desses rebentos como quem escuta. Alimentamos as personagens com a narrativa. Nem sempre corre bem. Um rebento seca, um livro se interrompe ou acaba estéril. Mas há casos em que um mundo novo, semelhante ao mundo que habitamos e mal conhecemos, fica à disposição de se ler, para deflagrar na imaginação.

#000348 – 31 de Outubro de 2020

Trump ganhou. Fui nadar de tarde.

Ao menos se houver catástrofe deixo registado o dia errado.

#000347 – 30 de Outubro de 2020

26 dias consecutivos. Escrever diariamente a mesma história tem consequências benignas. Sonho frequentemente com a narrativa que tenho em mãos. Nunca estou demasiado longe do mundo em que habitam as personagens. Mesmo cansado, é mais fácil resistir ao apelo da preguiça. O ritmo da escrita marca o passar dos dias.