#000346 – 29 de Outubro de 2020
Acordei a meio do sonho. Tinha o enredo da história que estou a escrever resolvido. Hesitei um instante em levantar-me e voltei a adormecer. Recordo apenas que esqueci.
Acordei a meio do sonho. Tinha o enredo da história que estou a escrever resolvido. Hesitei um instante em levantar-me e voltei a adormecer. Recordo apenas que esqueci.
Dentro de poucos dias, eleições. Todo o século XXI tem sido um reality show. Vemos, em todo o mundo, como personagens demasiado reais para serem verdadeiras ameaçam a estabilidade do planeta. Os Estados Unidos não são só um império em declínio, são a telenovela obrigatória.
Α realidade virtual abrirá portas da percepção. Este optimismo de Jaron Lanier ainda não desapareceu. Menos optimista, eu tenho ainda assim um exemplo prático. Um desejo que a realidade virtual poderá realizar. Quero ver um tesseracto. Por enquanto, só consigo ver em ecrãs a projeção das suas 4 dimensões. Mas mesmo isso recorre à perspectiva, simulando três dimensões, porque a imagem no écran só tem duas dimensões. Descrevê-lo é confuso mas observá-lo não tem de o ser, tanto.
Com um capacete de realidade virtual ou aumentada é possível andar à volta de um tesseracto. Imerso nesse ambiente virtual, posso ver como um objeto de 4 dimensões surgiria na nossa realidade. É semelhante a uma personagem de Flatland ter tecnologia que lhe permite aumentar uma dimensão às suas capacidades de percepção. A diferença é que aqui a tecnologia não está a aumentar dimensões. Faz algo ainda mais impressionante: coloca à frente dos olhos um objeto matemático descrito em pormenor, mas que apenas se pode tornar conceito intuitivo quando o vemos.
Aquilo lá não era um cachimbo. A palavra cachimbo não é um cachimbo. Uma história sobre cachimbos não é a realidade dos cachimbos.
Uma história passada no presente de uma cidade conhecida não é realidade dessa cidade. O realismo, na ficção, parece-me ambição desadequada. A ficção não é realidade. É uma forma de pensar sobre a realidade.
Tenho-me lembrado dos sonhos. Tomo notas de novo, ao acordar. Os sonhos são maleáveis, é possível influenciá-los. Mesmo não sendo lúcidos, deflagram como sementes de imaginação.
Releio. E o que parecia perdido, coisa rara, poderá valer o esforço de continuar. Mais frequente é o choque oposto. O de encontrar um texto em que se acreditou e que afinal é irredimível.
Escrever todos os dias. Palavra mole em ecrã duro. As narrativas são travessias. O autor tem de usar as sandálias das personagens durante muito tempo. E terá de nunca adormecer completamente no sonho que descreve. E evitar também acordar completamente. Voltar a dormir, perseguindo o sonho, é inevitável. Mas adia-se, o mais que se pode.