Kroeber

#000326 – 09 de Outubro de 2020

Voltei a escrever com caneta de aparo. Olho o papel, numa intimidade de gesto com a narrativa espistolar em que trabalho. Uma lentidão de tinta.

#000325 – 08 de Outubro de 2020

Heavy Metal queer. Black Metal dançável. Hardcore Punk romântico. Minimalismo barroco. Jazz tribal. Tablas e adufes. Castanholas e blast beats. Polirritmo folclórico. Polinização cruzada de líbido. Poesia em grunhidos. Beijos de cabedal. Feedback meigo. Noise rock de embalar.

#000324 – 07 de Outubro de 2020

A direita americana adotou Harrison Bergeron. A personagem do conto de Vonnegut é celebrada como um herói anti-comunista que rejeita os grilhões do igualitarismo. Na sátira publicada em 1961, os fortes usam pesos para que tenham a mesma pouca força da média, os que vêm bem usam óculos que perturbam a visão, o mesmo para a audição e para o raciocínio, vantagens que são removidas com handicaps obrigatórios.

O que a direita estado-unidense desentende é tão evidente. Chega a ser triste ter de o apontar, na sua simplicidade. A esquerda não pretende que os fortes tenham menos força, muito menos que sejam obrigados a carregar um fardo que os limita e atrasa. O que se pretende é simplesmente que os fracos não tenham de carregar esse fardo pelos fortes. A isso se chama escravatura. Ou darwinismo social.

#000323 – 06 de Outubro de 2020

Gosto de números redondos. Por isso me custa que o ano da pandemia seja um número tão arredondado. Preferia um número cheio de arestas e assimetria, como os feios dígitos da Peste Negra, que devastou a Europa entre 1347 e 1351. Já o ano 2020 tem um ar bonacheirão, um rosto limpo de contornos salientes como o de uma data de profecia utópica. Pura ilusão, o ano tem sido pestilento. Ao contrário de outras datas nefastas, esta será sempre fácil de recordar. Quando aqui chega um número como este, que se pode ler três zeros, três dois três, tenho sempre o desejo de escrever uma entrada memorável no diário. Nem sempre acontece.

#000322 – 05 de Outubro de 2020

É difícil ser um bom leitor. George Steiner sugeriu mesmo que os grandes leitores acabaram. Acabou para sempre o silêncio, com motores e música e ruído de fundo constantes. Ler deixou de ser um ato contemplativo. A leitura já não se faz com um enorme códex aberto num apoio de madeira, com reverência e tempo.

Mas nem é disso que me queixo. É muito difícil escolher o que ler, com tantos livros. Não é possível sequer ter uma abordagem única: ler apenas clássicos, ou apenas um género, ou uma nacionalidade ou autor. Para me deixar contaminar por uma obra, é necessário ler outras obras que a inspiraram ou foram por ela inspiradas. Um leitor é um ansioso gestor do tempo que falta. O único antídoto para a terrível ansiedade é precisamente um regresso a uma forma de ler meditativa, em que abro a imaginação à linguagem. E o tempo, durante as páginas, se dissolve.

#000321 – 04 de Outubro de 2020

Durante anos, escrevi em papel com caneta de aparo. O som no papel, a forma da tinta se espalhar e o próprio ato de desenhar grafemas criam uma intimidade de que sinto falta. Há também algo que o Neil Gaiman, que escreveu vários romances assim, refere. A escrita torna-se mais cuidadosa, porque se quer evitar riscar e corrigir a toda a hora. Paramos, pensamos e escrevemos de forma mais consciente. É talvez algo próximo do ofício da poesia, da lentidão intensa com que os versos nos usam como mediadores, antes de se inscreverem no papel.

#000320 – 03 de Outubro de 2020

Pensar o passado é tão desafiante como pensar o futuro. Para Kim Stanley Robinson, o que distingue um romance histórico de um romance sci-fi é que para escrever o primeiro pode recorrer-se a documentos. Para o segundo, não, independentemente de a história se passar no futuro ou no passado remoto. Por isso ele considera que a história que escreveu passada na Idade do Gelo é sci-fi.

Imaginar o que pensa um ser humano que viveu milhares de anos antes da invenção da escrita é viajar de olhos fechados, sem coordenadas. Tão difícil como imaginar como pensa um ser de outra galáxia. Mais ainda que os detalhes do enredo, as personagens têm de ser credíveis. Deixamo-nos conduzir por pormenores irreais, seja de realismo mágico, seja de fantasia ou de momentos em que o que é onírico invade a realidade da história. Mais dificilmente acreditamos em personagens que não provoquem algum tipo de empatia ou pelo menos de reconhecimento.

Em inglês fala-se muito da suspension of disbelief como critério para que o leitor possa desfrutar de uma história com eventos, pormenores, conceitos em que não acredita. Por exemplo, uma história com fadas ou fantasmas ou personagens com poderes mágicos. Tenho a tendência de pensar que o contrário acontece. Que não se trata de desligar o botão do ceticismo. Penso antes que algo é ativado. Talvez mesmo o mecanismo da crença. Ou algo semelhante à amplitude que um sonho permite. Ler talvez seja estar na fronteira da consciência com o sonho. A imaginação é esse motor que nos empurra na direção do sonho. Paradoxalmente, o motor não funciona se não houver consciência.

#000319 – 02 de Outubro de 2020

Há livros para ler a vida toda. Como Ficciones, Le città invisibili ou Always Coming Home. Disse Borges: toda a minha vida modifica o livro que estou a ler. Há livros que aguentam, que pedem, o crescimento do leitor.

#000318 – 01 de Outubro de 2020

Saudade é palavra que não existe em mais nenhuma língua. Esta proposição ou é falsa ou verdadeira. Estou mais inclinado para acreditar que, nos muitos milhares de idiomas do planeta, existem aproximações. Mesmo que não existam cognatos (palavras noutras línguas com a mesma origem), é provável que existam palavras locais com significado semelhante. E mesmo que não existam palavras que permitam tradução direta, o conceito certamente existe. Tenho muitas saudades tuas, em espanhol pode dizer-se te extraño mucho, e em inglês I miss you a lot. Cada versão tem uma história de uso literário e oral específica e transmite sensações diferentes. Mas é possível comunicar algo semelhante à ideia de ter saudade traduzindo para conceitos próximos em léxicos estrangeiros ao português. Isto não é assinalável.

O que é curioso é nós portugueses termos um certo orgulho da unicidade (verdadeira ou mítica, não importa) da palavra saudade. Um momento estranho que recordo de tempos a tempos é o do encontro de Anthony Bourdain com a Carminho e o António Lobo Antunes, numa casa de fados típica. Bourdain, no mesmo programa falaria com os Dead Combo. Carminho, com idade para ser pelo menos filha de Lobo Antunes, defende esta forma de sentir portuguesa. António Lobo Antunes desconstrói-a, chegando a ser bastante acutilante. Logo a seguir à forma apaixonada como Carminho fala da poesia que acabou de cantar, Lobo Antunes começa com “Many portuguese still live in a illusory past”.

#000317 – 30 de Setembro de 2020

Bugs are features.