view#000316 – 29 de Setembro de 2020
Porque é que o Sol anda à volta da Terra? Durante séculos, as pessoas foram usando a imaginação para responder. Encontrar respostas inúteis é consequência de responder a perguntas erradas. Porquê? Tentamos frequentemente responder demasiado cedo a esta pergunta. Chego a pensar que não queremos a resposta, apenas a confirmação de que há coisas inefáveis, respostas incompreensíveis. A pergunta mais modesta, e mais bem posicionada para gerar boas respostas é outra. O quê? O que é o Sol? O que é a Terra?
view#000315 – 28 de Setembro de 2020
Escrever um livro é empurrar. Ao contrário de Sísifo, só vemos a inclinação à medida que avançamos. Mas mesmo havendo queda, nunca há recomeços. Tudo muda, porque não temos a eternidade. Nem aceitamos os castigos dos deuses.
view#000314 – 27 de Setembro de 2020
E se a morte um dia deixasse de matar pessoas? E se a península ibérica se separasse do resto da Europa? E se toda a gente começasse a cegar? Estas premissas fizeram com que Ursula K. Le Guin considerasse Saramago um escritor de Ficção Científica. As denominações, no entanto, não são importantes. Muito menos universais. Le Guin sempre recusou que a sua ficção fosse especulativa, adjetivo aliás que não lhe inspirava nada de bom, enquanto Margaret Atwood tem preferido chamar ficção especulativa a livros seus como The Handmaid's Tale. Uns escritores tentam fugir de “acusações” de que escrevem literatura de género. Outros exploram as suas possibilidades: China Miéville, enquanto novo, afirmou que publicaria um livro em cada género, e quase cumpriu; M. John Harrison tem jogado com as estruturas de alguns géneros literários produzindo alguma da ficção em inglês mais influente. É irresistível o uso de etiquetas, como weird fiction, ao tentarmos descrever o que vários livros de uma época ou movimento têm em comum. Mas assim que um género tem fronteiras definidas, os escritores subvertem tudo de novo.
view#000313 – 26 de Setembro de 2020
Amor e revolução. Revolução e dança. Dança e insubmissão.
view#000312 – 25 de Setembro de 2020
Os gigantes digitais vendem persuasão. Jaron Lanier faz a distinção: não são os nossos dados que são vendidos; é a capacidade de nos influenciar.
view#000311 – 24 de Setembro de 2020
Fiquei 20 anos sem escutar Nirvana. Era tudo tão intenso e agreste e belo. Mas o suicídio de Kurt Cobain tornou as letras insuportavelmente premonitórias. Estava tudo lá, até o nome que Cobain queria dar ao último álbum. Além de o amar, fiquei a detestar Kurt, por nos ter deixado. O olhar de Gus Vant Sant, no filme Last Days, é de uma ternura imensa. Evita todas as armadilhas ficcionais da morte prematura do artista: o “glamour” da autodestruição, a hipervalorização da vulnerabilidade, o complexo de mártir. Antes mostra a terrível solidão, a fronteira da insanidade, o medo de existir. Detesto-te ainda hoje, Kurt. Detesto-te. Porque nos abandonaste neste mundo, órfãos do precioso escárnio com que o descrevias.
view#000310 – 23 de Setembro de 2020
HAL lembra-nos uma era de relativa inocência. Há décadas atrás, acreditávamos que os efeitos nefastos da tecnologia de computação seriam completamente evidentes. No filme de Kubrick, HAL não tem sequer capacidade de influenciar os humanos. É um inimigo, não um persuasor. As decisões a tomar pelos humanos são claras, sem ambiguidade. A própria voz de HAL carrega a consciência das suas limitações: “I'm sorry Dave, I'm afraid I can't do that” é uma afirmação de autonomia, em que o eu da máquina se evidencia. Mas está muito longe do poder actual da tecnologia digital, que influencia o nosso comportamento “para nosso bem”, para melhorar a qualidade dos serviços prestados. E não se anuncia como adversário. Antes muda o que somos para estarmos em consonância com objetivos de terceiros. Esta influência não é uma escolha nossa. Como todas as perversões do poder, tornou-se uma característica da estrutura repressiva. Em 2001 Odisseia no Espaço, ficamos com a certeza que HAL está a funcionar mal. Actualmente, é-nos dito que nós, humanos, é que estamos a falhar, somos peças que resistem a encaixar. Já a computação tem sido naturalizada, como se fizesse parte da evolução. Do poder pernicioso da tecnologia digital sobre as nossas vidas, em inglês dir-se-ia que é “a feature, not a bug” e em português, com um sarcasmo melancólico, que “não é defeito, é feitio”.
view#000309 – 22 de Setembro de 2020
E se os mitos forem, afinal, a defesa do futuro?
view#000308 – 21 de Setembro de 2020
A que livros, a que histórias dará origem tão estranha pausa?
view#000307 – 20 de Setembro de 2020
The Eye of the Heron é um romance menos conhecido. Foi publicado em 1978, 4 anos depois de The Dispossessed. Não faz parte do Hainish Cycle, embora tenha elementos comuns. A premissa de Walkaway, de Cory Doctorow parece ter saído desta história de Ursula K. Le Guin. Virar costas a quem quer conflito e seguir para onde se irá construir algo melhor. É uma ideia bela, utopista. Abdica da figura romântica do revolucionário cuja ética se funda precisamente no conflito, pelo qual está disposto a perder a vida. E centra-se naquilo que se quer construir. Doctorow levou esta ideia ao extremo. As personagens de Walkaway abandonam tudo o que têm repetidamente, sempre que alguém se quer apropriar do trabalho que fizeram. No livro de Ursula K. Le Guin não sei ainda como a história irá desenvolver-se. Estou no primeiro terço do livro. Finalmente, aceitei a ideia de ler todos os livros da minha autora favorita. Custa-me a finitude de uma obra que me mudou, mas aceito-a.