Lentidão. O livro de Kundera impressionou-me quando o li. E, no entanto, na memória ficou-me apenas a palavra no título. Na idade em que o li, há 20 anos atrás, deixou de ser palavra obscena. Lentidão.
“A linguagem é o seu próprio passado”. Grammars of Creation está cheio de tesouros assim. Cada parágrafo daria um templo.
Criação é outra palavra para liberdade. É George Steiner que o diz, em Grammars of Creation. Quando um artista diz que “não teve escolha”, trata-se de retórica, avisa Steiner. É a liberdade de não ser, ou de poder ter sido diferente, que viabiliza a criação.
O cursor que pisca. Uma tábua de madeira ou argila ou gesso, um pergaminho, um codex, uma folha numa máquina de escrever. Todos estes meios de registar palavras são mudos. O silêncio com que acolhem quer frases quer nada não sugere que aguardam uma acção de quem escreve. Já um cursor pisca em expectativa e assinala mesmo o local preciso do próximo caracter. Essa pulsação acontece na fronteira entre a mancha de grafemas e o resto da página, ainda branca. O cursor é um metrónomo que marca o compasso da laboriosa ansiedade do escritor.
As personagens não falam. Quer dizer, não se queixam ao escritor. O seu desconforto traduz-se na escrita, revela-se numa simples leitura em voz alta. Quando as imaginamos a reagir de certo modo, às vezes surpreendem-nos. Mostram a ignorância com que as tentámos manipular. Aliás, não se consegue manipular uma personagem. O processo de escrita não é um teatro de marionetas, a ensaiar os atos, o enredo e os diálogos. No que toca às personagens, é antes o fôlego com que se sopra vidro ainda quente. Às vezes sai uma coisa disforme, irreconhecível, outras quebra-se.
Escrever ou nada. É esta a regra mais simples e fundamental de Neil Gaiman. Quando é tempo de escrever, ele permite-se escrever ou fazer nada. Tudo o resto é proibido. Passado algum tempo, diz, a olhar para o céu ou a pensar, escrever torna-se interessante. O vazio preenche-se.