view#000296 – 09 de Setembro de 2020
Proponho uma experiência mental. Imaginemos um mundo em que não é preciso escolher um endereço de e-mail, um nome de perfil, um domínio. Neste mundo semelhante ao nosso cada pessoa tem uma identidade fixa, a pegada digital coincide com a pessoa real, inteiramente. Anonimato é uma impossibilidade técnica.
Os serviços, neste mundo, são exatamente os mesmos. Mas cada pessoa só pode ter um e-mail, um website, um perfil de rede social. A minha pergunta é: neste mundo, seria a democracia possível?
view#000295 – 08 de Setembro de 2020
Gosto do que as palavras conseguem dizer. Mas falar é interagir. Entrelinha é coisa que existe na palavra escrita. Quando duas pessoas falam, o espaço é imensamente maior. E não está delimitado pelas frases, como a faixa de vazio entre duas linhas de grafemas. É a três dimensões, envolve a fala e os falantes, incluiu vários contextos ao mesmo tempo, outras formas de comunicação. Utiliza mais o hábito, o tom, a qualidade da ligação, a convenção. É um ato social, mesmo se houver apenas duas pessoas. As estruturas, os lugares comuns e a tradição têm uma presença invisível e inescapável. Um texto é referência de si próprio. À medida que o lemos, é o próprio texto que nos diz em que medida obedece, subverte, altera, reforça ou rejeita o que está antes. Mas ao falar, embora tudo pareça mais livre, é exigido um esforço de anuir e procurar assentimento. Parte do investimento numa conversa é o de verificar que estamos a ser compreendidos e de demonstrar que estamos a compreender. Numa conversa sem a formalidade de um debate, esses importantíssimos sinais não costumam ser palavras.
view#000294 – 07 de Setembro de 2020
Escrevi sonhos. Escrevi, porque me forçava a acordar de um sonho. Escrevi descrições de sonhos. Escrevi, automaticamente, ao acordar de um sonho. E a certa altura, escrevia a sonhar. Há vários anos que a escrita e o sonho, sonho sonhado não a figura metafórica, estão separados na minha vida. A única excepção aconteceu há uns meses. Foi uma história que cresceu a partir de uma semente com que acordei.
view#000293 – 06 de Setembro de 2020
Os seres humanos serão obsoletos. Esta obscenidade é também um absurdo. Para uma peça se tornar obsoleta, é preciso primeiro que seja necessária. Pensemos então que os seres humanos são necessários, por enquanto. Há que perguntar, necessário a quem? A única resposta seria: às máquinas. As máquinas, não sendo ainda autónomas, por enquanto necessitam de nós. Mas chegará a altura em que seremos obsoletos. Este é absurdo. Uma máquina não precisa de nada, não deseja nada, não tem falta de nada. Serve uma função. Ao contrários dos seres humanos, que poderiam muito bem não existir e nenhuma função desapareceria com eles. Os seres humanos colocam questões. Sofrem. Atribuem e reinventam significado. Por máquina podemos entender um sistema de poder ou um software. Num e noutro caso, temos de decidir que funções têm estes sistemas na nossa vida. E não que função resta para as pessoas, como se os únicos lugares disponíveis fossem os reservados a peças de uma máquina.
view#000292 – 05 de Setembro de 2020
M. John Harrison diz que um mundo se cria com a linguagem. Isto é uma referência ao worldbuilding, que na ficção científica é uma atividade tão importante que se tornou independente da criação literária. O fórum worldbuilding.stackexchange.com junta cientistas, nerds, escritores (como N.K. Jemisin) e entusiastas da imaginação. É um sítio maravilhoso, em que se partilham ideias sobre a viabilidade de biologias, ecossistemas, línguas, planetas, sociedades, universos inteiros que não existem. Mas ainda assim, o que M. John Harrison diz é mais que uma provocação. A linguagem é para o escritor a matéria prima, a ferramenta, o habitat dos seus sonhos e dores.
view#000291 – 04 de Setembro de 2020
Hoje, uma solução. Já tenho o próximo livro. Um terço escrito, dois terços estruturados. Sempre esteve à minha frente. O mais óbvio, quando não sabemos o que procuramos, é também o mais invisível. Até que um tropeção nos deixa o joelho a sangrar e o rosto rasgado num sorriso.
view#000290 – 03 de Setembro de 2020
Reescrever. Re escrever. Resc rever.
view#000289 – 02 de Setembro de 2020
Deixar de ser pragmático para passar a ser prático.
view#000288 – 01 de Setembro de 2020
Tomate, pimento, azeite, arroz. Falta-me cebolas, alho, queijo graviera, vinho. E talvez mexilhões. A manteiga dispenso. O alho-francês não.
view#000287 – 31 de Agosto de 2020
Este ano é mais difícil. Ainda não publiquei, acabei menos histórias. Fiz algumas submissões, surpreendi-me ao rever um texto que afinal tem emenda. Talvez a lentidão de 2020 produza o que a agitação do ano passado perdeu.