Kroeber

#000286 – 30 de Agosto de 2020

Este diário é o meu laboratório. Venho registar impulsos da energia diária ou tropeções, ideias ainda difusas. Testo o que julgo acreditar, provoco-me e contradigo-me, examino as dúvidas que me assolam. Aqui, o que penso é rodeado pelo que sinto, num combate desigual. E antes ainda do ponto final de cada texto, limpo a boca ou o texto da espuma do medo.

#000285 – 29 de Agosto de 2020

Leio sobre o sistema solar. Tudo me parece alienígena. Há por exemplo rochas que apanham boleia dos planetas. São corpos celestes que co-orbitam o sol. Júpiter tem mais de 7 mil confirmados. Chamam-se troianos. Aqui entra a mitologia grega, a ficção científica e a astrofísica.

O livro de Liu Cixin chama-se “The Three-Body Problem”. Este é um problema científico por resolver. O nome da mais prestigiada obra de ficção científica chinesa vem de um ensaio do século 18, “Essay on the three-body problem”, de Joseph-Louis Lagrange. Lagrange e Euler descobriram os cinco pontos de equilíbrio orbital num sistema com dois objectos de grande massa.

Os três corpos referidos são, por exemplo, dois planetas e uma estrela ou mesmo três estrelas ou três planetas. O que se sabe sobre a gravidade é suficiente para calcular as órbitas de dois objectos. Por exemplo, de uma planeta e uma estrela, ou de um planeta e a sua lua, ou mesmo de estrelas binárias, como as duas estrelas do sistema Sirius. Mas basta haver mais um corpo de massa semelhante e as equações da nossa ciência não conseguem prever o que acontece. Não é possível saber se vai haver colisão, afastamento, equilíbrio. É uma incerteza caótica.

Os pontos de Lagrange são uma solução muito específica. Trata-se de pontos em que um terceiro objeto, de massa muito mais pequena que os outros dois, fica em equilíbrio. Isto foi descoberto por Lagrange e Euler antes de existirem os métodos atuais de observação.

Agora, sabemos que dois dos pontos de Lagrange na órbita de Júpiter são ocupados por milhares de planetesimais (a minha mais recente palavra favorita). E os nomes dos objetos vêm da Guerra de Troia. No grupo de Achiles (este é o nome do primeiro troiano de Júpiter que foi descoberto) os asteroides têm nomes de heróis gregos. E no outro grande grupo os planetesimais têm nomes de heróis troianos.

Numa conversa com Heisenberg que é referida em “Quantum: Einstein, Bohr and the Great Debate About the Nature of Reality”, Einstein é citado numa observação muito interessante sobre a abordagem científica. “Although it might be heuristically useful to bear in mind what one has actually observed, in principle, he [Einstein] argued, 'it is quite wrong to try founding a theory on observable magnitudes alone'. 'In reality the very opposite happens. It is the theory which decides what we can observe.”

Ao olharmos o céu, sobretudo através de um olhar científico, é a teoria que temos, a máquina lógica que construímos, que nos permite descobrir umas coisas e outras não. O que encontramos, de facto, vai aumentar o nosso arsenal de ferramentas científicas. É uma pescadinha de rabo na boca cujo abocanhamento aumenta o que é trincado.

#000284 – 28 de Agosto de 2020

O anarquismo não é uma identidade, é uma acção. Quem o diz é David Graeber. Certamente na Grécia isto é verdade. Os anarquistas recuperam edifícios, recebem refugiados, criam creches para as suas crianças, dão aulas de grego. Os anarquistas são os que não pedem permissão para construir. No resto do mundo é semelhante. Durante o último mandato do Rui Rio, eu vivia no Porto. E fui para a rua porque me convenceram a manifestar contra uma forma de destruição oficializada. Na altura, a mando da Câmara, a polícia tinha entrado num prédio recuperado onde funcionava, entre outras coisas, uma escola. E tinha destruído casas de banho e canalizações, para impossibilitar o uso das instalações . Quando a manifestação chegou à Fontinha, uma das zonas mais pobres do Porto, pareceu-me que havia uma solidariedade geral entre os moradores e as associações que se tinham auto-organizado para prestar auxílio. E doeu-me constatar a dupla ofensa do poder. Primeiro a falta de soluções para uma população pobre, depois a acção que destrói as tentativas não oficiais de ajuda. Na Grécia, infelizmente nos últimos anos houve ainda maior violência, com ataques de grupos de extrema direita a edifícios okupados. Num dos casos, havia mais de 100 pessoas, incluindo crianças, a dormir dentro de um edifício atacado que foi posto a arder. Ainda assim, em pouco tempo, voltou a ser recuperado. Esta coragem e esta força solidária dos anarquistas e de muitas pessoas que nem sequer estão preocupados com uma denominação envergonha-me pelas vezes que uso a palavra anarquismo. Faço nada pelos outros. Escrevo.

#000283 – 27 de Agosto de 2020

Uma boa parte da literatura fala de dor. Já online, mesmo durante uma pandemia, os perfis são uma construção forçada do optimismo. Passar olhos pelo Instagram, num Agosto de crise mundial, é ver fotos de vidas cheias de sorrisos e sol. É escutar centenas de gurus de auto-ajuda. Cada utilizador é o seu próprio coach. Uma boa metade dos posts nestas redes chamadas sociais são textos de um infinito scroll de conselhos sobre como ultrapassar as dificuldades. Este discurso não surgiu na pandemia. É o próprio tema de fundo das redes sociais.

Mesmo recentemente, quando via a promoção de um filme sobre um atleta que faz bodysurf, lá estava. Kalani Lattanzi enfrenta ondas de 15 metros apenas com barbatanas. Faz surf com o corpo em ondas que mesmo com uma prancha intimidam. No fim de um teaser, vejo Kalani mergulhar para evitar a montanha de água branca de uma onda na Nazaré. Uma imagem assustadora, que geralmente vemos quando um surfista caiu, mas que para Kalani é normal, já que ele se mete ali sem prancha. Vou ler o texto que legenda o vídeo no Instagram e lá está esta linguagem, algo do género: que esta história sirva para inspirar todos aqueles que desistem à primeira.

A dor precisa de tempo. A escrita é essa lentidão, coisa que acaba num momento bem diferente do seu início. Escrever tem essa escala, que cicatriza. Mas as redes sociais são o instante. E ninguém quer um retrato infeliz, um instantâneo de ansiedade. O polegar faz scroll no ecrã para buscar uma dose rápida de dopamina, na slot machine química do ecrã.

#000282 – 26 de Agosto de 2020

Ontem estavam 27 graus e eu não dormia. As noites são quase tão quentes como os dias. Este é um verão estranho, que acontece lá fora. Sei ver as horas pelo ângulo da luz no chão. Trabalho como se tudo fosse igual. A vida suspensa, o bilhete de avião comprado. Diariamente consulto a curva, que afinal não quer ficar plana. Os ecrãs, depois disto tudo, há-que descansar um pouco dos ecrãs.

#000281 – 25 de Agosto de 2020

China Miéville fala do período médio de um escritor. Diz que habitualmente se estuda o autor em início de carreira ou a sua fase de maturidade. Mas falta tudo o que está entre o início e o fim. Dá o exemplo de J. G. Ballard, considerando-o um escritor que, no seu período médio, desmantelou o que tinha sido a sua obra inicial. Miéville diz que, entrando agora no seu período médio, se interessa pelo formato novela, por oposição aos romances imensos que escreveu inicialmente. Chega a dizer que acredita que a melhor novela é sempre melhor que o melhor romance. Num romance, diz, há mais espaço para as coisas correrem mal e geralmente correm. Sugere que é muito apelativa, numa novela, a proximidade da perfeição.

Diz o autor inglês que “This Census Taker” é o seu melhor livro. Estou a tentar lê-lo pela segunda vez. É, pelo menos nas primeiras páginas, uma história opaca, cinzenta como “The Wasp Factory”, de Iain Banks. Opacidade é mesmo expressão de Miéville, que diz interessar-lhe a ideia do que não é possível dizer e que faz sentido que uma personagem se mantenha opaca, até para si mesma, tal como as pessoas são, realmente. Ambas as narrativas têm como protagonista uma criança, cuja narração na primeira pessoa é dissonante em relação à realidade a que se refere. Mas, curiosamente, o curto romance de Banks foi o seu livro de estreia. E a seguir escreveu longos romances, com sentido de humor e tom épico.

#000280 – 24 de Agosto de 2020

A distopia é uma forma de descrever medo, ansiedade. É a invenção de um futuro credível, um pesadelo que se consiga extrapolar a partir da realidade. Muito mais difícil é o ofício utópico. O de criar um sonho, plausível, como futuro desejável. Os medos, afinal, parecem unir-nos. Temos fobias e traumas semelhantes, partilhamos dificuldades. A felicidade é algo essencialmente pessoal. O utopista, julgo, falhará se tentar descrever um paraíso, um destino final livre de conflito e erro. Uma Arcádia.

China Miéville usa a analogia da Teologia Negativa. Em “Silence In Debris: Towards an Apophatic Marxism”, defende que se deve descrever o lugar para onde queremos ir de forma negativa. Tal como há teólogos que apenas descrevem Deus pelo que ele não é: “Deus não é mau, Deus não é humano, etc.”, os marxistas devem descrever o comunismo pelo que ele não é. Ora, como táctica política isto faz sentido. Mas não é solução para quem quer escrever utopias.

As minhas referências são duas das grandes histórias da ficção científica. Ambas da Ursula K. Le Guin. Em cada uma das histórias, a autora descreve uma sociedade justa a partir precisamente dos seus problemas e conflitos. Eu estou a escrever uma história utópica. Não sei ainda o que vai sair, se valerá a pena tentar publicar. Mas sei que a tenho de escrever.

#000279 – 23 de Agosto de 2020

Leio “Hope Against Hope”, de Nadezhda Mandelstam. Foi publicado 17 anos depois de “Fahrenheit 451”. Mas é-me impossível apagar a impressão de que são as memórias de Nadezhda que, em perspectiva, informam a distopia de Ray Bradbury.

A poesia de Osip Mandelstam levou o escritor russo a ser perseguido pelo regime estalinista. Os poemas eram passados entre amigos, numa conspiração a favor da arte e da liberdade. Como George Steiner refere, em defesa da memória, o que fica dentro de nós não nos podem tirar. Os amigos de Mandelstam decoravam poemas para os ensinar a outros que os continuavam a passar, numa corrente de memória humana.

O amor e o pessimismo de Nadezhda Mandelstam permitiram, ainda assim, que mais poemas fossem salvos. Nadezhda escreve nas suas memórias que não acreditou, como Osip, ser suficiente decorar a poesia e passar a outros para que decorassem também. E por isso traficava manuscritos, em quantidades pequenas, para que pudessem ser preservados contra a iniciativa orwelliana do regime. Alguns poemas salvaram-se, o poeta não. Morreu.

Hoje, estamos inundados em texto e imagem. Até a verdade nos chega, através de figuras como o Snowden e Assange. São figuras como estas que o poder agora persegue como se fossem inimigos da humanidade.

A dificuldade não é preservar o que se escreve. Tudo é copiado inúmeras vezes, transformado em dados e metadados e usado na economia digital. A dificuldade está no lado do leitor. São os livros que começam a ler-nos. A aplicação Kindle sabe que citações partilhamos, que palavras buscamos no dicionário, que notas fazemos, que páginas nos fazem fechar ou mesmo desistir de um livro, que páginas viramos com mais rapidez. Hannu Rajaniemi trabalhou há quase 10 anos num neurolivro com a empresa Emotiv – um livro que se adapta às nossas reações neurológicas, mudando a história de acordo com a leitura feita ao nosso sistema nervoso central.

Franco Berardi, em “Heroes: Mass Murder and Suicide”, é de um pessimismo alarmante. Diz que é impossível derrotar a máquina semiocapitalista. Que nos resta resistir no último reduto de liberdade cognitiva. O nosso íntimo. Resta-nos resistir a esta invasão distópica do nosso organismo.

Os escritores sci-fi podem, em perspectiva, ser vistos como Cassandras (que afinal anteviram os males futuros) ou Velhos do Restelo (que pregaram contra transformações benignas). Mas o papel mais importante, o único que vale a pena levar a sério, é o de escrever para o presente, sobre o presente.

#000278 – 22 de Agosto de 2020

Filosofia é o amor da sabedoria. Graham Harman lembra-nos disso. Filosofia não é sabedoria, é o amor da sabedoria. É um acto de amor, um estado de enamoramento, não uma atividade de produção de conhecimento, como a ciência.

#000277 – 21 de Agosto de 2020

Escrevo contos, minicontos, microcontos, nanocontos. Divido, para não conquistar, o tempo que um romance ocupa.