Kroeber

#000276 – 20 de Agosto de 2020

Há metáforas com vida longa. Digo ainda “a página em branco”. Assim me refiro a esse vazio que me olha e evidencia a falta de palavras. No entanto, foi “um cursor a piscar”, numa intermitência implacável, que me assinalou a ansiedade. Nenhuma folha ou página. Cursor e piscar são talvez palavras com pouca verve. Imagino que mesmo depois de os ecrãs desaparecerem, num possível futuro de assimilação cibernética, continuaremos a dizer coisas como “virar a página”. Até os gestos feitos no ar, em filmes sci-fi, mimetizam o desfolhar de páginas. Isto talvez não seja novo. Uma arqueologia da linguagem encontrará decerto outros artefactos cuja origem se perdeu, mas de significado vivo.

#000275 – 19 de Agosto de 2020

Dizer uma coisa e o seu contrário. Acreditar nas duas e deixar de o fazer se para isso vier uma ordem. Em 1984, o duplopensar é parte do aparelho opressivo do regime. Garante que a verdade seja constantemente manufacturada. Que a história se faça com um pragmatismo extremo que serve sempre o poder. Pensar ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário encontra um paroxismo nos odiosos slogans “war is peace / freedom is slavery / ignorance is strength.”

Hoje, dizer uma coisa e pensar o seu contrário tem um peso completamente diferente. As direitas (populistas, alt-right, fascistas e neonazis) negam o que pensam, acusam de fake o que é real e usam fake para produzir propaganda. Longe de se enfraquecerem pelo uso de mentiras evidentes, há um efeito pernicioso, nesta era de cinismo e descrença. A própria mentira (e a produção de propaganda) é usada como operação de cumplicidade. Os seguidores são “os que sabem”, os que tomaram a pílula vermelha, os que produzem mas não são alvo de propaganda. Foram inoculados pelo cinismo, estão imunes.

De facto, começa a haver um bizarro apropriamento da palavra razão pelos defensores do autoritarismo. Ao mesmo tempo que fazem uma guerra de memes, teorias da conspiração, difamação e no limite ameaças à vida dos opositores, apresentam-se como os detentores da lógica irredutível, das ferramentas racionais que antes eram o farol dos humanistas. Este jogo duplo cria muitas armadilhas. Mas acredito que não se pode combater propaganda com propaganda.

Franco Berardi, entre outros, convida-nos a sabotar esta máquina semiótica que se tornou a própria estrutura do poder e da violência. Não sabemos ainda como, mas há que criar espaço para a sanidade. É necessário um espaço público, para ideias livres. As redes sociais são espaço privado. Há que defender a realidade. É verdade que a direita parece enferma de um realismo absoluto que nunca hesita em apontar o dedo ao “relativismo cultural”, a tudo o que é múltiplo e fluído. Não há que ter medo destas acusações. Tudo indica que a realidade é fluída, múltipla e complicada. Isso não significa que não existe. A extrema direita usa um truque de magia. Porque a sua espinha dorsal é o cinismo niilista, acusa os outros de negarem a realidade para a seguir apresentar uma realidade manufacturada à medida da sua ideologia.

O realismo especulativo de Graham Harman defende que a realidade existe, simplesmente não a podemos conhecer. Diz que o mundo em que vivemos não é um mundo pós-verdade, é um mundo pós-realidade. O que está debaixo de fogo é a realidade, negada a pés juntos por milhões de pessoas. Harman diz que é a arte que consegue, de forma indireta, descrever o que é real. Nunca precisámos tanto, como hoje, de poesia insubmissa, de música e ficção e tudo o que é arte feita em liberdade com um horizonte humano. Qualquer sociedade saudável precisa ainda de compaixão, espaço para a dúvida e uma firme recusa da violência.

#000274 – 18 de Agosto de 2020

Um ódio oportunista quer incendiar as ruas. Como Assata Shakur, sejamos guerreiros apenas relutantemente. Preferir sempre ser escultor ou jardineiro ou carpinteiro. Antes a vida e a arte. Antes construir.

#000273 – 17 de Agosto de 2020

Escrever é desacelerar o tempo. Tudo demora. E quando se chegou a um fim inúmeros inícios eclodiram já no mundo. Escreve-se sabendo desta arritmia. A obra que resta terá de enfrentar o tempo.

#000272 – 16 de Agosto de 2020

Escrever é desagradável. É preciso enfrentar o que não se sabe com as ferramentas que já nos falharam tantas vezes. A motivação é a dúvida, a insegurança uma presença assídua. Começa-se sem saber o que dizer e continua-se com uma obsessão com a forma como o dizemos. Escreve-se porque algo ainda incriado nos assola. Um potencial que sentimos como febre. E atiramo-nos para a difícil escultura de significado, com a única matéria prima que temos à disposição: o íntimo.

#000271 – 15 de Agosto de 2020

George R. R. Martin é fã de Tolkien. Ainda assim, diz, há uma diferença fundamental na sua própria fantasia. Em Lord of The Rings, o mal é algo externo. As criaturas malignas são absolutamente malignas. Os orcs não têm nenhum traço humano, nenhum átomo redimível. Formam as hostes de Sauron, o mal absoluto, mais aterrador que o próprio Satanás, da teologia Católica. Em Tolkien, o mal ameaça a própria existência, a viabilidade do mundo. Satanás, senhor do mundo, pelo contrário, tem o seu lugar, como se vê no livro de Job. Nisto, o catolicismo do escritor inglês dá lugar ao seu fascínio pela mitologia nórdica. Os eventos de Lord of The Rings fazem lembrar mais o Ragnarök que o Apocalipse. É a morte do próprio bem e dos deuses, que está em causa.

Já para George R. R. Martin, afirma o próprio, o mal é algo interior, que vive no coração humano. Em cada decisão humana, quer o bem quer o mal são opções. Um outro aspecto de Game of Thrones, surpreendente, foi sugerido por Tristan Garcia. Diz o filósofo francês que a série de George R. R. Martin é uma das grandes obras de realismo actuais. Que na narrativa da obra a grande motivação é o realismo político. Tudo é apresentado como um jogo de interesses políticos pragmáticos. Diz Garcia que mesmo as religiões surgem na história segundo a perspectiva do poder. O próprio nome lembra-me esse realismo. Game of Thrones indica com precisão a busca do poder, do trono.

#000270 – 13 de Agosto de 2020

Discurso Livre em vez de Liberdade de Expressão. Free Speech é um termo mais útil que Freedom of Expression. Até um ditador consegue “defender” o direito dos dissidentes de se exprimirem, desde que mantenha o direito de os colocar na prisão. Podem até, na prisão, exprimirem-se ainda mais: criar um jornal dissidente, um clube de poesia subversiva. Desde que fiquem na prisão. O perigo para o autoritarismo não vem da expressão livre. Aliás, esta ordem política actual, como Zizek lembra, baseia-se no comando freudiano “goza!”. “Sê quem tu és” foi apropriado, de décadas anteriores, e de slogan passou a obrigação.

Não é da expressão pessoal que o poder tem medo. É da liberdade. Discurso livre é discurso ao qual é permitido que ponha em causa o poder. Dizer “eles têm todo o direito de se exprimirem, tal como nós temos o direito de os boicotar” é um ataque à liberdade do discurso. Um ataque de esguelha, cobarde e enviesado. Querer remover do espaço público vozes que nos sejam contrárias é boicotar o próprio espaço público.

O artigo 10º do Estatuto do Deputado diz “Os Deputados não respondem civil, criminal ou disciplinarmente pelos votos e opiniões que emitirem no exercício das suas funções.” É esta garantia que permite que realmente haja debate democrático na Assembleia da República. Como cidadãos, a falar num espaço público, não podemos permitir-nos menos liberdade.

#000269 – 12 de agosto de 2020

Mil ideias por segundo. Cem impulsos por minuto. Dez recomeços por semana. Um final de vez em quando.

#000268 – 11 de Agosto de 2020

A tecnologia, sendo suficientemente avançada, é indistinguível da magia. Para um tecnófobo, será coisa maligna, voodoo. Para uma criança, poder nos dígitos. E, uma vez que a tecnologia de computação que usamos cada vez é mais subtil e automática, eventualmente será quase indistinguível do ambiente. Só daremos pela falta da magia quando o bug acontecer.

#000267 – 10 de Agosto de 2020

Com a primeira letra de cada nova história, recomeça o mundo. As páginas iniciais de Silmarillion são o mito da criação. Canções narram, criando, todos os seres e lugares. São deuses que o fazem, depois de eles mesmo serem criados. É isso que faz deles deuses. Nós, humanos, contamos a história do que já existe, dentro de nós ou no mundo. É isso que faz de nós humanos.