view#000266 – 09 de Agosto de 2020
Salman Rushdie também fala sobre a realidade. Diz que no auge do romance realista, há quase 200 anos, leitor e escritor partilhavam um entendimento comum sobre o que é real. Por muito que a sua política ou metafísica diferissem, as suas posições eram posições diferentes sobre uma mesma realidade. Agora, pela forma como uma pessoa descreve a realidade conseguimos perceber de imediato quais as suas posições políticas e culturais. Não há uma realidade comum. O imaginário é importante porque é um espaço para continuar a defender que a realidade existe e que importa. Vou-me aproximando do Realismo Especulativo de Graham Harman. Estes tempos são tempos em que é necessária uma enorme resistência ontológica. É preciso combater a propaganda não com propaganda de sentido contrário, mas com a defesa do real. Neste início do século XXI, o maior acto de subversão é demonstrar que existe algo para além de uma perspectiva individual ou identitária.
view#000265 – 08 de Agosto de 2020
Daqui a 100 dias acaba o primeiro ano do Kroeber. Este isolamento apanhou-me desprevenido. Hesitei muito antes de deixar o vírus contaminar o conteúdo do que aqui escrevo. Mas acabei por ter de me referir ao que acontecia no mundo lá fora. Um megafone, virado ao contrário, pode ser usado como funil.
view#000264 – 07 de Agosto de 2020
Num blogue escreve-se quando se quer. Coloca-se a data que se quer. Tenho usado o Google Photos, que quer ser tão esperto que eu não encontro fotos que acabei de transferir ou editar noutro programa. A inteligência do Google é bastante artificial e insuficientemente limitada. Gosto de palavras, da exigência com que esperam sentido. É bom começar com uma folha em branco. Ao contrário de nós, os computadores já têm todos os parâmetros, antes do primeiro dígito.
view#000263 – 06 de Agosto de 2020
“Os Despojados” não é uma narrativa heróica convencional. O protagonista não é uma figura que começa por lutar contra circunstâncias adversas. Não existe uma ameaça, um inimigo exterior a derrotar. São as suas ações que criam conflito, ou que revelam um mal estar não assumido. Quer a sociedade de Shevek, quer a sociedade externa à sua estão relativamente estáveis e satisfeitas com os seus modelos políticos.
Os problemas surgem porque é Shevek que se sente insatisfeito. E isso o leva a tentar mudar as relações entre dois planetas, forçando-os ao diálogo que não desejam. Encontra resistência nas sociedades que ele quer unir. As suas decisões fazem-no enfrentar uma enorme solidão.
Este livro é a minha referência no que toca à literatura utópica. Longe de descrever como é que as coisas seriam se fossem perfeitas, Ursula K. Le Guin mostra as dificuldades de uma sociedade baseada na liberdade e na colaboração voluntária. Há ainda uma ideia, que é a grande motivação da personagem principal, de lutar contra o conformismo e o impulso de fechar a sociedade em ideias cristalizadas.
Shevek é uma figura ética muito interessante. Arrisca tudo porque acredita de facto nos seus valores. É alguém com um peso trágico, que quer aproximar duas sociedades de um mesmo povo, contra a distância confortável que se criou em muitos anos.
view#000262 – 05 de Agosto de 2020
Mil caracteres por dia, 15 dias. Estas duas semanas serão uma marcha forçada, para terminar a tempo duas histórias. Depois, há uma outra, mais longa, que tem de ficar pronta. E os meses a seguir serão a escrever o romance. Vou corrigindo a trajetória e o ritmo.
view#000261 – 04 de Agosto de 2020
Escrever, preparar uma armadilha de sentido. Um mundo de accionar. Deflagração lenta, na imaginação do leitor. Signos adormecidos, hieroglifos que duram eras, até que olhos humanos os acendam. Uma história é um engenho que atravessa a civilização. Coisa antes e para lá da tecnologia, forma de assegurar o uso da linguagem. Lenga-lenga, inexatidão, puzzle. Veículo que circula entre a memória e o futuro.
view#000260 – 03 de Agosto de 2020
No início do século, eu usava a internet como quem entra numa biblioteca. Passaram-se anos e agora os algoritmos querem ver-me zangado, envolvido nas discussões dos outros. Quando se entra numa biblioteca, as pessoas devem falar baixo ou calar-se mesmo. Quando se abre um livro, esse silêncio abre espaços incriados. Os ecrãs são ruído feito arma contra o nosso sossego. Para muitas pessoas mais novas que eu, a ideia de ligar é quase tão estranha como a ideia de desligar. A internet não se visita, nem se apaga, nem se controla. É o sistema nervoso do mundo.
view#000259 – 02 de Agosto de 2020
O fã, sugere Tristan Garcia, é o que adota a posição religiosa. Ao criar wikis sobre personagens, dicionários de línguas imaginárias, representações de mundos ficcionais, enciclopédias inteiras, anula o imaginário, fixando-o como real. Apresenta a ficção como não sendo ficção e como existindo para além de nós.
view#000258 – 01 de Agosto de 2020
Tristan Garcia diz que o real não precisa de nós. “Le réel n'a pas besoin de nous”. Mas acrescenta: a ficção não se opõe ao real. A ficção é um outro real, é a construção do real. A diferença é que a ficção precisa de nós. A seguir, distinguindo dentro da ficção a ficção artística da ficção religiosa diz: a ficção religiosa é um tipo de ficção que se apresenta como algo que não é ficção e não precisa do humano.
Quando se refere à literatura fala da literatura do real e da literatura do imaginário. Esclarece que ambas são ficção, uma é ficção do real e outra ficção do imaginário.
A ficção do real é a que acredita que estamos dominados pela ficção e que por isso há que produzir o real. Garcia parece ir ao encontro do que disse J. G. Ballard: “For the writer in particular it is less and less necessary for him to invent the fictional content of his novel. The fiction is already there. The writer's task is to invent the reality.” Garcia acrescenta que esta ficção continua a acreditar que o real precisa de nós. Algo que diz ser paradoxalmente idealista.
Para Tristan Garcia, a ficção do imaginário (sci-fi e fantasia) acredita que estamos dominados pelo real, e por isso há que produzir o imaginário. Aqui perde-se um pouco, fala dos surrealistas, das críticas de Breton ao romance realista. Caricatura esta posição, “Pourquoi s'embêter avec le réel une fois que le réel est déjà lá?”.
Estou do lado de J. G. Ballard e de Ursula K. Le Guin. É Graham Harman quem me vale. A arte, explica Harman, diz o que não é possível dizer diretamente. Se levássemos à letra uma metáfora, deixaria de fazer sentido. A arte trata da realidade. Eu, como Ballard, acredito que é preciso ocupar-nos do real, contra as ficções que nos dominam. E, como Ursula K. Le Guin defendeu, a literatura do imaginário está em excelente posição para o fazer.
view#000257 – 31 de Julho de 2020
Escrevo como leio: várias histórias ao mesmo tempo. O erro é problemático apenas ao escrever.