view#000166 – 01 de Maio de 2020
Há quase dois anos eu regressava a Portugal. Talvez fosse mesmo a primeira viagem, desde que me tinha mudado para a Grécia. Trabalhadores da Ryanair estavam em greve. Os meus voos poderiam ser cancelados. Informei-me das reivindicações. Receber o salário mínimo do sector, pararem os despedimentos ilegais, sem direito a compensação. A fasquia era mínima.
Hoje, trabalhadores das grandes cadeias de distribuição estão em greve. E parece que voltámos ao início dos movimentos de protesto sindical, com a revolução industrial. O que pedem é incrivelmente modesto. Alguma coisa de muito errado aconteceu, para que as pessoas de que mais precisamos sejam tratadas tão desumanamente, em pleno cenário de risco das suas vidas.
Os logotipos da Amazon, da Walmart e de outros estão manchados de sangue. Novo resgate financeiro já permitiu distribuir “lucros” a Companhias e os dividendos para uma mão cheia de obscuros senhores do mundo serão impressionantes. Temos de nos unir contra isto. Tristemente, vamos começar com o mínimo, porque nem o mínimo é considerado por estes gigantes que aceleram um caminho de tornar o ser humano obsoleto. Antes que tudo piore, vamos unir-nos. Como diz Srećko Horvat, em “Poetry from the Future”, precisamos de esperança sem optimismo.
view#000165 – 30 de Abril de 2020
As katas do karate, os movimentos e princípios do Aikido, as asanas do Yoga, as centenas de gestos do Chinlone, o tricktionary do club 540, as manobras de skate, o conhecimento da ação do vento na prancha num aereal de surf ou num salto de windsurf, a potente agilidade da Calistenia; tudo isto é património da Humanidade. Para nossa felicidade, é património que não está ameaçado. O corpo humano evolui porque a mente sistematizou algo que se pode transmitir. Novos movimentos passaram a ser possíveis, formas de exercer a liberdade de movimento, elefteria para a alma. E esta liberdade expande-se, os novos movimentos inscrevem-se no universo, não se podem retirar nunca. Estarão connosco até desaparecermos como espécie e mesmo assim, se algum alienígena com quatro ou mais membros estiver interessado em aprender algo que sobreviva a todos os apocalipses, poderá continuar.
view#000164 – 29 de Abril de 2020
Nem sempre aceitarei dinheiro, que é coisa que vem inevitavelmente com strings attached. Mas nunca recusarei uma oferta de tempo.
view#000163 – 28 de Abril de 2020
O tempo é = memória + esperança.
view#000162 – 27 de Abril de 2020
Kafka escreveu em papel. A publicação do que não foi por ele queimado ou mais tarde alvo de batalha legal é uma história de manuscritos. Na nuvem, não há baús, como o de Fernando Pessoa, um paraíso de estudo e catalogação para académicos. Em qualquer que seja o formato digital, os escritores protegem-se com passwords. Uma obra inteira, mesmo de centenas de livros, dá um ficheiro comprimido pequeno. Uma fúria destrutiva, como a de Kafka, que terá obliterado mais de 90% do que escreveu, é agora um simples clique. E necessita ainda da indignidade de esvaziar o lixo, clicando num ícone que representa o purgatório do que se quer apagar. Há pouco drama na forma como se regista a obra, que se vai imaterializando. Uma password pode ser uma barreira impenetrável, depois de um autor desaparecer. E pode a obra restar, num éter que humanos não poderão nunca decifrar. Na ficção científica, não havendo papel, os documentos são geralmente ainda objetos. Discos, esferas, hologramas, cristais. Talvez nos possa vir daí inspiração para uma alternativa ao melancólico revivalismo da cassete e do papel e do vinil. Objetos futuristas, que os escritores pudessem preparar para serem abertos em determinada data, ou por determinadas pessoas, ou circunstâncias. Algo que se tocasse, transportasse e ativasse com um pouco de nós, humano.
view#000161 – 26 de Abril de 2020
Descubro melhor o que queria dizer quando traduzo uma história minha. Depois de ler After Babel, fiquei com muita vontade de ser traduzido por alguém que não eu. Quero descobrir aquilo que, semeado na minha imaginação, está agora fora do seu alcance.
view#000160 – 25 de Abril de 2020
O que está a ser construído é a arquitetura da opressão. Foi Snowden que o afirmou acerca do uso da tecnologia de vigilância em tempos de pandemia global. Disse ainda que estes são tempos sem precedentes. Que as mudanças possíveis são de carácter revolucionário. E que se não aproveitarmos o momento para tomar decisões sobre como queremos que estes sistemas funcionem, alguém tomará a decisão por nós.
Ando à procura de camaradas, esperança, ligações. Um movimento que está no seu início e que conta com o meu apoio e entusiasmo é a Progressive International, fundada pelo DiEM25 e pelo Sanders Institute. É importante construir uma esquerda global unida, preocupada com os problemas do mundo e não com diferenças de opinião.
Apenas podemos lutar unidos, vencendo as fronteiras que a extrema direita quer reforçar com muros e violência. Precisamos de cravos e de todas as outras flores, tendências e pessoas de boa vontade. Progressistas do mundo, vamos unir-nos!
view#000159 – 24 de Abril de 2020
Escrevi uma BD. Há mais planeadas. Escrever um guião é apresentar uma ideia, de forma estruturada e objectiva. É estimular a imaginação de um artista, dando-lhe uma visão narrativa. Achei difícil e maravilhoso.
Uma história não é um guião. O artista é o leitor. Mas a história deflagra na imaginação de quem lê. É uma poção, um ingrediente, uma janela, um empurrão, uma vertigem. Ler é um ato criativo e até a neurologia nos diz que implica imensa atividade.
Um diário assim, público, é um recado para o futuro. Polaroid de palavras. Gesso para guardar pegadas. Mantra que não se repete.
view#000158 – 23 de Abril de 2020
Em criança comecei o primeiro diário. Tinha mesmo uma chave. Comecei muitos diários, mas aborrecia-me o artifício de me dirigir a um pedaço de folhas. Em adolescente, já não usava a expressão querido diário. E jogava com a ideia de secretismo, de intimidade e espaço pessoal: suculentos conceitos que a adolescência me fazia descobrir, separando-me dos adultos. Criei dezenas de sinais de pontuação, de forma que o sentido de uma frase, mesmo se lida por olhos não autorizados, seria turvo. Alguns sinais de pontuação alteravam os outros, uma meia-dúzia nem sequer significavam nada: eram fogo-fátuo semântico, para atrair e baralhar a atenção de imaginados espiões. Tivesse eu continuado a escrever e usaria agora um idioleto. Interrompi essa queda na ofuscação do significado. E se me viesse parar às mãos esse diário, suspeito que até para mim seria impossível furar a opacidade do que escrevi. Aqui, escrevo o meu último diário.
view#000157 – 22 de Abril de 2020
Daria um mau eremita. Tão habituado ao ruído, tinha apurado um ritual: cada dia vinha aqui destilar uma impressão, um eco, um fragmento. Com tanto silêncio e uma inquietude ruminante, venho agora aqui plantar sem sementes.