Kroeber

#000156 – 21 de Abril de 2020

A desconcertante loucura de Reggie Watts é um dos meus antídotos contra a insanidade.

#000155 – 20 de Abril de 2020

Não sei o que é a escrita. Não sei o que acontece quando escrevo uma história. Há ideias, até frases, soltas na cabeça. E um ato motor que regista grafemas. Durante a escrita, uma âncora que se desfaz facilmente. Que permite a ligação entre impulso e escrever. As personagens vão habitando um mundo que se tem de alimentar, uma alucinação controlada. Para acabar um livro, há que aprender a sonhar o mesmo sonho muitas vezes. Encontrar forma de o aumentar, de lhe dar nitidez e volume, com lucidez e risco. Não sei o que faço, quando escrevo histórias. É para o descobrir que insisto.

#000154 – 19 de Abril de 2020

Muita sci-fi imaginou o mundo sem humanos. Cenários de cidades abandonadas tornaram-se cliché. Um certo orgulho misantrópico gosta mesmo de imaginar que a vida iria prosperar sem pessoas. Foi um sucesso a série do canal História “Life After People”. O primeiro episódio de “Walking Dead” e filmes como “I am Legend” ou “The Quiet Earth” mostram a solidão de um único humano perante a civilização desaparecida. Este olhar do último humano confunde-se com o do espectador. Torna-se ainda mais vazia de vida uma cidade que é percorrida por uma única pessoa. As ideias que surgiram na ficção sobre catástrofes partilhadas geralmente implicavam viver abaixo da superfície ou lutando clandestinamente contra uma qualquer ameaça. Nunca ninguém imaginou esta solidão partilhada digitalmente, esta sintonia dos felizardos. Os ecrãs, teclados, emojis e memes fazem a intermediação do nosso desejo. E vão ocultando a realidade dos que não têm teto nem internet, cuja solidão é agora maior e mais perigosa. Noutro dia no supermercado, os rituais da distância social feitos amena rotina, uma criança pequena entrou de máscara, para trocar as moedas da esmola por uma nota. A sua fome algo mais urgente que a preocupação com um vírus. Mendigava talvez a mando de um adulto e a minha imaginação fez greve, ferida. Afligiu-me como de repente isto era o quotidiano. E voltei ao conforto da minha casa com as compras habituais.

#000153 – 18 de Abril de 2020

Fim-de-semana é tempo de concertos ao vivo com o Rui. E de me ligar a outros escritores, para sessões de escrita simultânea. Os ecrãs são mediadores estranhos. Parece que podemos espreitar para dentro deles, como se contivessem todas as distâncias. Um ecrã desligado é esse espelho negro, que o título da série de Charlie Brooker refere. Mas um ecrã ligado é um amplificador.

#000152 – 17 de Abril de 2020

Em Underground, a festa continuava mesmo se o mundo já tinha mudado. Uma das personagens de Kusturica ia roubando dias ao tempo e a todos dizia que a guerra lá fora continuava.

Nós, isolados pela pandemia, agarramo-nos a ecrãs para buscar a realidade que nos escapou. E não sabemos ainda que mundo será o mundo, quando nos pudermos voltar a aproximar.

#000151 – 16 de Abril de 2020

Trabalho de chinelo. A porta para a varanda aberta. Os pássaros cantam. Insetos recolhem pólen das flores do limoeiro. Chego a desligar a música para escutar este silêncio de Primavera na cidade. Os zumbidos das motas calaram-se há mais de um mês. O ar não cheira a poluição. Os pássaros estão mais atrevidos, pousam perto. Parámos e reduzimos. Quando regressarmos, que seja com mais fôlego e apreço pela lentidão.

#000150 – 15 de Abril de 2020

Sonhei que seria capaz de viver numa ilha. Escolhi mesmo a ilha, grega, que visitei várias vezes. Não imaginei que a ilha, grega, em que acabaria por viver seria um rés-do-chão em Attiki.

#000149 – 14 de Abril de 2020

Aumentou o fardo da liberdade. Escolho formas de limitar o meu dia, melhorando-o. 15 + 15 minutos de meditação. 15 + 45 minutos a cozinhar. 30 minutos a tocar guitarra. 60 minutos a dançar. 45 minutos a escrever. Com + 8 horas de trabalho e 8 de sono, ainda sobram umas 4 horas. Duas são o tempo da leitura. Durante as outras duas, falo com pessoas queridas ou distraio-me. O resto é cuidar de mim e do imprevisível.

#000148 – 13 de Abril de 2020

Varrer o chão. Lavar os olhos com o horizonte. Repousar as mãos no fogo. Acalmar o peito com a inquietude. Desassossegar o medo. Fazer os fantasmas esvoaçar. Espantar as lágrimas. Sorriso de mel, canção de aurora.

#000147 – 12 de Abril de 2020

Queria dar-te mais que palavras, ou distância ou futuro: um abraço.