#000146 – 11 de Abril de 2020
Amanhã, dia ocupado. Um concerto ao vivo com o Rui. Duas videochamadas com grupos de escrita. Falar com a família, amigos, pessoas queridas. Cozinhar, meditar. Escrever cartas de amor.
Amanhã, dia ocupado. Um concerto ao vivo com o Rui. Duas videochamadas com grupos de escrita. Falar com a família, amigos, pessoas queridas. Cozinhar, meditar. Escrever cartas de amor.
A máquina corta-me o cabelo. O seu zumbido é agradável, a pele a seguir fica apenas com uma penugem agradável ao toque. Renovei o meu mohawk. Imagino milhões de outras pessoas a emergirem, depois de isto tudo passar, coloridas de si mesmas. Solarpunks, pós-hippies, primitivistas, tecnoclastas, ciberagnósticos, anarquistas, humanos.
Os livros lêm-nos a nós. Para Hannu Rajaniemi isto não era uma metáfora, era neuroficção. O leitor a usar um headset da Emotiv, que lhe lê os sinais neurológicos. E o software a adaptar a narrativa aos padrões do sistema nervoso do leitor. Graham Harman avisou que vivemos num mundo pós-real. A pós-ficção não é assim tão surpreendente. A criação destas novas formas ficcionais está a conquistar escritores de sci-fi. Mais ainda que o interesse de Rajaniemi, é de assinalar a colaboração do peso-pesado Neal Stephenson com este mundo que o ciberpunk previa distópico.
Uma história é também um veículo. Uma estrutura, uma forma. A mesma história, em tempos diferentes, contada por pessoas ou culturas diferentes, pode significar coisas opostas. Os investigadores de folclore chamam paradigmas às unidades de sentido narrativo. E continuamos a passar uns aos outros paradigmas com milhares de anos. Um sema de sentido, neste contexto, é o que Richard Dawkins chamou de meme. Um gene cultural, uma ideia. Uma história, de forma simplista e incompleta, pode ser vista como um veículo para memes.
Iremos precisar de formas novas de entender a realidade e de a imaginar. Iain M. Banks, mesmo sendo criador de galáxias pós-escassez assentes na inteligência artificial, ainda nos avisava que a ficção, ao contrário da realidade, tem de fazer sentido. Mas um neurolivro precisa apenas de nos tocar nos botões certos. Proporciona uma experiência, em vez de veicular ideias. Se vamos colocar nas mãos da computação tão vulnerável e precioso sistema nervoso, o nosso, é bom começarmos a decidir o que queremos que essas mãos artificiais nos façam, para quê e para proveito de quem.
O Black Metal já não é o que era. Oathbreaker conta com o carisma, a voz e até a sensualidade feroz de Caro Tanghe. Panopticon mistura bluegrass, guitarras folk, banjos e extrema esquerda com a obscura desolação deste género de metal. “Rheia”, dos Oathbreaker, faz lembrar “The Ark Work”, dos Liturgy, lançado um ano antes, em 2015. Ambos são melancólicos, experimentais, audazes e com zero por cento de preocupação com a tradição iniciada no norte da Europa. Horseback é, para o Black Metal, o que Clutchy Hopkins é para o Hip-Hop. Retira-se o rap do Hip-Hop e temos álbuns como “The Life of Clutchy Hopkins”. Retira-se a voz fria e rasgada, o blast beat e os riffs acelerados ao Black Metal e fica ainda algo. Fica um elixir de intensa simplicidade. Canções de uma sensibilidade bizarra, um destilamento feito paisagem e pulsação, como “Tyrant Symmetry”. O álbum a meias de Horseback com os extraordinários Locrian tem o apropriado nome “New Dominions”.
E na segunda década deste século abriram-se ainda mais espaços de mestiçagem e experimentação. Os Cara Neir juntam muitos sabores de punk e death metal à sua interpretação do Black Metal. Os Usnea usam o Black Metal como ingrediente especial do seu doom, raras e preciosas vezes. Os Khanate deixaram um herança interessante no doom, que poderá ou não fragmentar uma influência, restrita mas importante como os Naked City semearam noutras décadas. Os Krallice elevaram o Black Metal a um patamar de composição e execução que poucos imaginariam e muitos, na verdade, desprezam. Tudo, neste dos muitos projetos de Mick Barr, soa a Black Metal. Não há vestígios do prefixo post-. Mas a voz abafada, a mistura imprecisa de todos os instrumentos, a ofegante arritmia ocasional da bateria, este som característico do género com baixíssima ou nenhuma produção, é usado com mestria.
O Black Metal, repugnando muitos dos seus seguidores de longa duração, tornou-se finalmente um estilo, um género, uma estética, uma história. Isso significa agora que, como todos os outros géneros musicais antes, será avidamente desmantelado, reapropriado, reinterpretado, misturado. Venha esse futuro desconcertante.
Comecei hoje a suar em casa. Doem-me as pernas, estou encharcado de suor e ainda sinto no peito a respiração ofegante de há pouco. A bicicleta e a halfbike estão arrumadas a um canto. Os patins já não saem do saco há algum tempo. Olho para um ecrã, uma instrutora muito feliz diz-me como saltar. E eu salto. Sem sair de casa.
As histórias são ideias que lançamos no mundo. Fragmentos de sentido, para serem apropriados e atirados de volta à civilização. Não são mensagens em garrafas. São garrafas. Algumas partem-se com facilidade e os cacos ferem. Outras, não boiam. Muitas, ficam perdidas durante anos, até que um braço se estica e as recupera.
O multiculturalismo falhou. Isto dizem pessimistas de esquerda, como o Zizek. E na direita, entre outros, cínicos como o Houellebecq. As ideias veiculadas pela teoria interseccional poderão ser uma consequência dessa derrota. Ou já uma alternativa: ao mesmo tempo radicalizante e reacionária. Estes são tempos de confusão ideológica, perfeitos para oportunistas e trolls. Tempos em que muito do ativismo se resume a perseguir pessoas online, em campanhas de difamação ou de boicote. Por isso, as discussões tendem a ser táticas, cautelosas e estéreis. Isso é um retrocesso intelectual. O risco é um componente de qualquer atividade criativa. E um debate deve ser uma arena onde as más ideias são testadas e, espera-se, derrotadas. Não um campo minado para o qual que se tem medo de atirar uma boa ideia.
Para ser muito claro, a esquerda não ganhou. A revolução influenciou a política (e muito mais a academia e as artes). A social-democracia conheceu um curto período de prosperidade numa mão cheia de países. E foi só. Nos EUA é que se considera que falar em algo tão básico como o direito aos cuidados de saúde é propor o comunismo. Na mesma linha, ideias de igualdade entre seres humanos independentemente das suas circunstâncias também são vistas como de esquerda. Mas nos países do Norte da Europa, os democratas cristãos, liberais e outras sensibilidades de centro direita aceitam estas ideias como avanços civilizacionais, não como cavalos de Tróia que os seus inimigos ideológicos conseguiram colocar dentro dos muros da decência.
Vamos evitar esta atitude norte-americana de autodefesa que usa ataques preventivos a pessoas que servem como bodes expiatórios da história. Não há que defender o status quo, a menos que se acredite mesmo no Fim da História. Os avanços foram ainda modestos e os retrocessos inúmeros. E perseguir pessoas como tática política é odioso. Impedir oponentes de falar, organizar o seu despedimento e usar calúnia são coisas que nos devem envergonhar a todos. Que não haja medo de falar, muito menos de escutar. E que se combatam ideias com ideias melhores.
Voltando ao início. O multiculturalismo falhou. Não sabemos lidar uns com os outros. Isto deve ser causa de preocupação. Somos ligeiramente diferentes. Mas essa pequena distância de uma cultura à outra causa desconforto e atrito. E mesmo violência. As guerras que foram patrocinadas fora do Ocidente trouxeram consequências ao Ocidente. E fechar os olhos é juntar cegueira à culpa. O Zizek propõe que se reabilite a ideia de tolerância, há muito tempo rejeitada pela esquerda, que defende no seu lugar a ideia de aceitação. Eu vejo algum valor nessa ideia. Cortesia, distância e um mínimo de respeito pelo vizinho. Não temos de gostar uns dos outros. Ainda recorrendo ao Zizek, o mais importante é que encontremos e lutemos por causas comuns, não que aceitemos tudo uns dos outros.
Escuto Huun-Huur-Tu e atravesso Beríngia. Neve na barba, mãos a ficar azuis, cheiro de suor e couro. Fumo adocicado dentro do abrigo, que apetece engolir. Um círculo humano à volta do fogo. E os sons guturais a vibrar em todos os peitos. Os sobretons a acrescentar camadas a cada som. A melodia atirada contra o frio como um ritmo animal. Palmas a bater, sacudindo o medo. A música é a tecnologia mais ancestral. Uma forma de vibrar com a terra, uma ação sobre o oculto ruído da imaginação.