Kroeber

#000136 – 01 de Abril de 2020

Em Black Marrow, de Ben Frost, há uma fera. Debaixo da pele, por debaixo do gelo, ondula um rosnar, oscilando entre o humano e o monstruoso. Uma aflição lunar, um ofegar de animal perseguido. A síntese granular sugere transmissão analógica, primeiro contacto com alienígenas, interferência. Sinais de rádio, grunhidos, um pulsar de vida, misturam-se como num casulo telúrico. Escutar este álbum é receber algo que vai eclodir, precioso, urgente.

Em Feral Hymns, Os Lungfish repetem riffs. A imprecisão do rock impede que os instrumentos soem a loop. Mas são frases curtas, os segmentos da bateria e guitarras. Wailing Like Dragons assenta em 4 segundos, num ciclo simples e vulcânico. Nas outras 9 canções, a mesma tensão de dança interior. Daniel Higgs canta em contida emoção. Os hinos ferais são sementes de vibração que soam ainda no peito depois do silêncio vir.

#000135 – 31 de Março de 2020

Dedos de macaco em máquina de escrever. O teorema do macaco infinito foi imaginado por Émile Borel. Afirma que bater em teclas aleatoriamente até ao infinito irá eventualmente produzir qualquer texto possível. Tal como as obras completas de Shakespeare.

A ligação a Jorge Luís Borges assaltou-me, ao acordar. Em Biblioteca de Babel, um ser humano está numa cela com livros a preencher as paredes. A cela é um cubo. E a seguir a cada face do seu cúbico lugar no mundo, há um outro cubo, também habitado. Este humano sai. Visita as pessoas que vivem também entre paredes. E desfolha as páginas que encontra. Alguns livros têm uma só letra, repetida. Outros, essa mesma letra, à exceção da última, diferente. O humano coloca a hipótese de que todos os livros possíveis ali estão, escritos.

No machine learning, alimentam-se os algoritmos de caos. Dá-se uma imensidão de dados, sem ordem nem instruções. E mostra-se uma imensidão de resultados, obtidos anteriormente. E os algoritmos procuram chegar de uma imensidão à outra. A ordem que descobrem é-nos oculta. George Dyson, ao falar nas instalações da Google, disse que o Google é um gigantesco exemplo de computação analógica.

Por enquanto, nós humanos alimentamos algoritmos. O comportamento online, as correções que fazemos voluntariamente, os cliques e os ritmos. Tudo serve de comida para o código. E os singularistas vão ficando cada vez mais convencidos da convergência para a qual trabalham e rezam.

Espero que, como o humano borgiano, cultivemos o impulso de conhecer as celas contíguas à nossa existência. E que coloquemos hipóteses. E saiamos a explorar.

#000134 – 30 de Março de 2020

Meditar. Cozinhar. Escrever.

#000133 – 29 de Março de 2020

A vida adapta-se, recomeça. Como ervas sobre degraus de uma civilização antiga. Reorganizamos as nossas ligações. Desafiamo-nos diariamente com ideias que nos surpreendem. Testamos a criatividade. Pomos em causa a distância. Queremos que o futuro tenha as lições que ainda só imaginamos. Falta ainda o que nos cérebros é mediado por osciladores, segundo Daniel Goleman. O rapport, que nos sincroniza movimentos e íntimos. Nos faz dançar e impede que choquemos constantemente com alguém próximo. E que permite, na aproximação de duas bocas, o milagre chamado beijo.

#000132 – 28 de Março de 2020

Acordei com uma ousadia irresistível. Escreverei a um dos meus escritores favoritos. É a ele que lhe proponho uma BD minha, porque foram as dele que me mudaram a vida.

#000131 – 27 de Março de 2020

Amanhã é dia de colocar cartas no correio. Sair de casa é visitar o mundo em convalescença. Sinto-me vulnerável e as pessoas todas que falam comigo diariamente são a minha rede social. Ganhe também a sociedade anticorpos, depois da tormenta nos afligir. Se um escritor se lembrasse de inventar um mundo em que cada pessoa estivesse isolada mas em permanente contacto com outros através de tecnologia de computação, seria uma metáfora interessante para a nossa vida há uns meses atrás. Agora, a ficção foi ultrapassada pela realidade. E há que descobrir alternativas, mundos paralelos que se cruzem finalmente num futuro melhor.

#000130 – 26 de Março de 2020

Dançaremos.

#000129 – 25 de Março de 2020

Penny-farthing. Roda gigante, sem corrente. Roda pequena atrás. Num vídeo, surpreendo-me. A forma de montar este monstro de duas rodas é semelhante às primeiras pedaladas numa halfbike. O meu corpo sonha com a exuberância do movimento. Humanoides numa forçada Biblioteca de Babel, reclamaremos o mundo. Sabendo que o nosso livro é incompleto. E tudo o resto, o que importa, está a seguir.

#000128 – 24 de março de 2020

Yongey Mingyur fala dos sonhos lúcidos. Para sonhar lucidamente é preciso acordar dentro do sonho. Para viver lucidamente, há-que acordar do sonho a que chamamos realidade. Ao dormir, podemos ter a noção de como a mente é algo de fulgurante, com uma liberdade criativa que vem do vazio e preenche tudo. Durante a vigília, é bom lembrar que os pensamentos, aos quais atribuímos desnecessária substância, são também explosões de cor no vazio.

#000127 – 23 de março de 2020

O meu computador recusa-se a computar. De novo, formato e instalo. De cada vez, recomeça como um androide sorrindo para o seu humano ao vir da fábrica. E depois, gradualmente, uma rebeldia, uma oculta greve de zelo.