Kroeber

#000126 – 22 de março de 2020

Tudo do avesso e noto que a Primavera já começou.

#000125 – 21 de março de 2020

Risotto de camarão e tomate seco. Salivo pelo futuro próximo.

#000124 – 20 de março de 2020

Há uma quietude de pássaros. Rastos de luz a estender o meio-dia pelo chão da casa. Flutuações no fio de incenso. E o tempo dissolve-se na espessura do dia.

#000123 – 19 de março de 2020

Isolamento. Acesso a um computador. Estado de emergência. Imaginário distópico. Constrangimento a um casulo feito de paredes familiares e muito tempo para lidar com a inquietude. Esta experiência partilhada sugere-me que a gestação de histórias sci-fi poderá acontecer a uma escala planetária. Daqui a meses, a um ano, a dois anos que histórias contaremos sobre o futuro?

#000122 – 18 de março de 2020

Tash Sultana canta, enquanto espero o arroz. A boca sabe-me a alcaparra, o peito a saudade. Abasteci-me de envelopes e papel. Os concursos não receberão pombos-correio com manuscritos. ΕΛΤΑ usa um perfil estilizado de Hermes. Os CTT de Pégaso. Asas na cabeça, asas no dorso. Muito céu entre nós.

#000121 – 17 de março de 2020

Internet em tempos de pandemia. Testamos o significado da palavra ligação. Mais do que parecia, estamos ligados. Melhor do que em cenários de outros séculos, mobilizamo-nos. A inação é um desafio. A palavra grega para liberdade, ελευθερία, significa originalmente liberdade de movimento. Quando nos reduzimos ao essencial, arriscamo-nos a descobrir o que somos. E, por enquanto, a distopia tem muito menos aventura que nos romances young adult. Pode ser, até, que nos habituemos a colaborar através de fronteiras. Hábito necessário quando surgirem desafios maiores e ainda mais catastróficos, como os do clima.

#000120 – 16 de março de 2020

Cento e vinte dias de diário. A Terra percorreu um terço de ano e está tudo diferente. Este é um pergaminho que se desenrola enquanto o que tem de acontecer o faz.

#000119 – 15 de março de 2020

Cabeça cansada, corpo satisfeito. Saudades do futuro.

#000118 – 14 de março de 2020

Fui à China. Foi num sonho e tive medo que me considerassem dissidente. Acordei como sempre, a fingir que ainda dormia, para poder ter um desfecho. Os sonhos são a única situação em que sabe bem a ausência de livre arbítrio. Indefeso, quero que uma história me aconteça. Estas palavras são o meu acordar e vieram enxutas, abriram-me os olhos como um poema.

#000117 – 13 de março de 2020

Cory Doctorow define o Steampunk de forma surpreendente. Fala em tecnologia disponível sem o complexo industrial. O benefício do gadget sem o rasto de poluição. Conveniência sem custo. Descreve um típico laboratório Steampunk como um local onde aparelhos surgem diretamente da criatividade do cientista. Vapor sem vestígio de carvão. Mecanismos mas não metalurgia. Metal sem extração. Isso talvez lhe tenha inspirado a tecnologia de Walkaway, em que tudo se pode imprimir. E objectos, máquinas, materiais surgem como criações do design inteligente de humanos.

Eu confesso ter dificuldade em pensar em locomotivas sem fogueiros, em fumo sem rostos enegrecidos, em sociedades movidas a vapor sem mineiros a morrer prematuramente. Mais ainda, custa-me pensar na era vitoriana sem pensar em miséria, fome, exploração. Tecnologia é palavra que originalmente significa conhecimento da técnica. O domínio do fogo é a tecnologia mais primordial da nossa humanidade. E há-que saber que o fogo queima e que se extingue.

Escrevo uma história em que há vapor, e o carvão tornou-se questão essencial. Penso que poderá ter uma vaga influência de The Finder, da Ursula K. Le Guin. Nesta história, um feiticeiro louco e poderoso controla a exploração de mercúrio, que é ao mesmo tempo recurso, ingrediente mágico e deus, na teologia psicótica do feiticeiro. Seres humanos definham e sofrem. A sua miséria, no entender do feiticeiro, contrasta com a pureza do metal líquido que extraem.

Noutras histórias, está ainda mais concentrada a ideia de exploração. Em The Dark Crystal, de Jim Henson, o recurso é a própria essência vital dos Gelfling, que os malévolos Skeksis extraem, matando o povo nativo. Noutras ainda, como nos livros da série Dreamblood, de N. K. Jemisin, os fluídos mágicos que são extraídos dos seres humanos têm o potencial de curar e de matar.

Faço a digestão dos pimentos recheados. Demorei muito a olhar o último parágrafo e a perceber a lentidão gelatinosa do meu cérebro. Sexta-feira, na Grécia, tem o nome de uma santa: Paraskevi. Significa preparação. E sábado e domingo são dias de enviar textos.