Kroeber

#000116 – 12 de março de 2020

A caminho da cozinha, um tropeção. Cai o amuleto. Parte-se o sândalo. Junta-se a um brinquedo de corda, também incompleto. Sorrio com o imediato significado ali disponível, duas partes de uma sorte à distância de se completarem. Os medalhões dos amantes são esse símbolo propositado, de partes que se unirão. Olhar é atribuir importância. A escrita é também uma destilação. O que sobrevive depois de significados se diluírem, sonhos se fragmentarem, memórias se reinventarem. O que sai do alambique, pronto a inebriar de novo.

#000115 – 11 de março de 2020

No silêncio iniciamos a dança. Um ritmo primordial nos conduz. Pulsar de lava. Cintilação. Corações como casas de farol, a desfazer a espessura do caos. De olhos fechados, sonâmbulos que se aproximam no magnetismo de um abraço. Sonhos que flutuam e sopramos ao vento, atirando um beijo ao futuro.

#000114 – 10 de março de 2020

Com palavras apontamos o céu. Na lua brilham os nossos íntimos. Universos paralelos, constelações partilhadas. Galáxias que se atraem, toda a massa das nossas estrelas gira, centrípeta e urgente. Onde acabam os meus lábios, onde começam os teus dentes. Não há equações que nos reduzam.

#000113 – 09 de março de 2020

A década de 1970 começou com o Fim da Eternidade. Asimov explorou no seu livro paradoxos causados pelas viagens no tempo. Para sempre a ficção científica se iria ocupar de linhas temporais, filhos que viajam ao passado e matam progenitores, pessoas que conversam consigo mesmas num outro tempo. Esta confusão do tempo com o teletransporte talvez nunca abandone o nosso imaginário. E produziu histórias com uma complexidade encantadora, como a do filme Primer. Coherence, de James Ward Byrkit, parecia estrear em 2013 o interesse sobre outros fenómenos da física. Mas ali se inaugurou um ramo ainda sem descendência.

O tempo esgota-se. E pensar que ele descreve apenas uma direção e podemos escolher o sentido é tentador. Na história de Asimov, só agora percebo os ecos da teoria do caos. As personagens viajam no tempo tentando corrigir o passado, para que possam regressar a um presente melhor. Tantos erros foram introduzidos na história humana, quando se começou a viajar no tempo, que estes saltos temporais foram restringidos. Apenas um grupo pequeno de pessoas altamente treinadas viaja temporalmente. E antes de cada viagem é determinada a mínima intervenção necessária para desencadear a mudança desejada.

Chaos, de James Gleick, cita versos que contêm um resumo do que os cientistas chamam “sensitive dependence on initial conditions”: For want of a nail, the shoe was lost; For want of a shoe, the horse was lost; For want of a horse, the rider was lost; For want of a rider, the battle was lost; For want of a battle, the kingdom was lost!

Esta forma de causalidade, que abreviamos dizendo que ao se perder um prego se perdeu o reino, é o efeito de borboleta. Mas abreviar é perder também o significado do caos. Para que o reino se perca, ou uma tempestade se forme do outro lado do mundo, uma imensidão de condições, causalmente interligadas, se têm de verificar. Os humanos que Asimov fez viajar no tempo percebem isso. Procuram o prego. Retiram-no da ferradura. Mas outro reino se perde, ou o mesmo se fortalece.

Sabemos que uma única borboleta é importante. O bater das suas asas muda o mundo. Um movimento nosso muda tudo. Mas não controlamos a rede causal que nos liga ao universo. Ainda no Chaos de Gleick, um anónimo é citado. Um teórico que disse que a ciência parte do princípio que não é preciso ter em conta o cair de uma folha num planeta de uma galáxia distante para calcular a trajetória de uma bola numa mesa de bilhar na Terra. A ciência entretanto mudou, desde que Lorenz descobriu os atratores estranhos. Mas supersticiosamente ainda queremos acreditar que viajando ao passado saberíamos qual vírgula mudar para obter o presente que desejamos.

#000112 – 08 de março de 2020

Um certo paradoxo é bastante frequente nas histórias sobre Inteligência Artificial. Para que a emergência da consciência seja mais credível, acontece em réplicas nossas com rosto humano. É o seguinte:

O androide torna-se ou sempre foi consciente. E debate-se com as contradições habituais. São, curiosamente, questões existenciais humanas, não questões de uma máquina. O que é ser humano? Existe livre arbítrio? Perdendo as memórias, perde-se o eu? O paradoxo é que a máquina apresenta este comportamento atormentado também em privado, sem nenhum humano presente.

Ora, a emergência da consciência em software, segundo contornos que vêm de Turing, pode ser concebida como a passagem de uma simulação a algo com uma ontologia. Trata-se do processo que transforma a imitação em existência. Software que se tornasse consciente, seria consciente do facto de que é software. Por isso, a simulação só teria sentido na presença de humanos. Em privado, a inteligência daquela máquina seria plenamente e conscientemente artificial.

A maior parte destas histórias acaba por restringir tudo à questão de quão sofisticada pode ser uma simulação. E isto tem consequências. A nossa própria existência é questionada por alguns pensadores nesses mesmos termos. Há quem dê crédito à Hipótese da Simulação, que argumenta que a realidade é uma simulação, muito provavelmente uma simulação de computador. Este extremo estreitar da nossa cultura vem da preponderância das ciências da informação e da hegemonia da metáfora que criou um novo dualismo, hardware/software, a substituir o antigo corpo/mente.

Nas histórias que contamos, cabe-nos desafiar esta narrativa demasiado consensual, inventar mundos para personagens irrequietas, perseguir novos paradoxos, colocar questões sobre a condição humana.

#000111 – 07 de março de 2020

Há uma internet mais livre e segura a emergir.

Começa na consciência e na cidadania, com projectos como Forensic Architecture, o Citizen Lab, o Center for Humane Technology ou a Freedom of the Press Foundation. A implacável perseguição às fontes, exemplificada no tratamento dado ao Snowden, a Manning e a Assange exige uma nova defesa da liberdade de revelar e informar. A forma como regimes autoritários usam as identidades que as redes sociais fixam mostra a extrema vulnerabilidade online, que é preciso corrigir.

Continua nos serviços disponíveis, como o armazenamento na nuvem de “zero knowledge”, com serviços como o Sync ou o pCloud. Ou a boa tendência de encriptar dados em serviços convencionais como o WhatsApp. Há também serviços de email bem mais seguros no mercado como o Protonmail, o Hushmail ou o Mailfence. Há a possibilidade de navegar sem que os nossos dados sejam vampirizados e usados contra nós, com motores de busca como o DuckDuckGo ou o Startpage.

Há ideias boas que começam a ser levadas a sério.

O browser Brave coloca em prática a sugestão de Jaron Lanier e Yannis Varoufakis: que os utilizadores da internet recebam micropagamentos pelo valor que produzem. Em vez de ser apenas um produto, o utilizador é um parceiro económico.

O Fediverse, de que este blogue em que escrevo faz parte, é mesmo uma utopia em ação. Neste universo paralelo, os utilizadores fazem parte de uma rede de comunidades que se cruzam. Alguém no Mastodon pode seguir um blogue no Write.as sem ter aqui conta. Há já uma vasta expansão em curso, que incluiu serviços como o Friendi.ca e o Hubzilla. Qualquer um pode criar um novo serviço usando os protocolos do Fediverse e não está fechado numa bolha, nunca. Esta é uma rede federada, em que não há gigantes a quererem monopolizar a atenção e os recursos e a engolir todos os outros.

A própria forma de funcionar do telefone e do email impediu que as empresas restringissem a capacidade das pessoas de comunicar. Já os serviços como o Facebook funcionam como buracos negros culturais. E a vida acontece longe de tais vórtices. Perto, mas não demais, de uma estrela.

#000110 – 06 de março de 2020

Em adulto quero sonhos e quero lucidez. Investigo as raízes dos meus preconceitos. Tropeço na arqueologia das minhas influências. Conto histórias para embalar o medo, deixá-lo a ressonar e sair para o mundo em pontas de pés. Faço perguntas às personagens, escuto as suas questões. Reconheço o que não sei, aprendo a perguntar melhor. Arrisco formulações para a minha ignorância, permito-me a breve impaciência de me contradizer. Olho os padrões coloridos na areia e varro a mandala do meu caos.

#000109 – 05 de março de 2020

Em adolescente, desiludia-me com o mundo. Desafiava as certezas dos adultos. Escrevia poesia com desajeitada intensidade. Estava sempre próximo do mar. Nadava muito.

#000108 – 04 de março de 2020

Em criança sonhava. Retomava, ao deitar-me, o meu sonho favorito. Mudava os sonhos, como quem vira um volante num veículo que acelera sozinho. Voava muito.

#000107 – 03 de março de 2020

Contadores de histórias juntam-se, conspirando a favor da beleza, soltando ideias no mundo. Terça-feira é o dia de inventar uma tribo.