view#000106 – 02 de março de 2020
Olho para nascente e comovo-me com os primeiros minutos do poente, alaranjando as casas e fulminando reflexos, assinalando já a próxima aurora. O sol despede-se aquecendo esta porção do mundo com um tranquilo fulgor, antes de nascer logo a seguir aqui perto.
view#000105 – 01 de março de 2020
Plaka deixa-se iluminar pelo primeiro sol de Março. Estão vivos os caminhos feitos de escadas e recantos, telheiros e pátios. Os gatos passeiam-se com majestosa preguiça, as trepadeiras invadem esquinas e prosperam, as oliveiras reclamam solo. Desde a Ermou, subo a antiga escadaria, tavernas servindo raki e tsipouro a ladear a estreita passagem por entre riso humano, saciedade feita de queijo, pão, azeite e vinho. Viro à esquerda e depois à direita. Busco um trilho descoberto há uns meses. E perco-me por entre contradições e misturas, graffiti e arquitetura centenária, estética tradicional para turistas e edifícios em ruínas, casas recuperadas pelos abastados e casebres rudimentares. Passo por Agios Georgios tou Vrachou, a Igreja como um excesso de espiritualidade acrescentada à enorme rocha e até as contrastantes escalas das coisas me confundem. Aqui começam a surgir as cafetérias e restaurantes e os graffitis ganham a dimensão de murais. De Thissio até Plaka, a Acrópole é uma presença, uma ruína adiada. E a vida humana um mosaico descontínuo e vibrante. Escrevo um par de páginas do meu conto de fantasia. Hoje vou rever a BD. O som de pessoas ao sol vibra como uma ressonância irmã do meu coração.
view#000104 – 29 de fevereiro de 2020
Fomos geocêntricos e depois heliocêntricos. Agora, medimos o universo usando como unidade a distância da Terra ao Sol. Chamamos-lhe Unidade Astronómica. O centro do nosso universo não é o planeta nem a estrela. É esta perfeita proximidade dos dois astros que faz da energia solar uma presença luminosa na minha varanda, uma carícia de calor na pele.
view#000103 – 28 de fevereiro de 2020
«We now ask the question, “What will happen when a machine takes the part of A in this game?” Will the interrogator decide wrongly as often when the game is played like this as he does when the game is played between a man and a woman? These questions replace our original, “Can machines think?“»
O artigo de de Alan Turing inspirou muito do que se especula hoje sobre a emergência da consciência nas máquinas, desde que foi publicado em 1950. Estranhamente, não deve ter sido lido pelos que acreditam na Singularidade. Turing, logo no primeiro parágrafo, põe de lado a pergunta “Can machines think?” para a substituir pelo que chama Simulation Game.
Este “jogo” conhecemo-lo agora como Teste de Turing. E é discutido interminavelmente como se fosse um teste para saber se uma máquina (máquina aqui significa software) é inteligente. O Simulation Game é mais um teste ao humano que à máquina. A pergunta que Turing nos deixou é um desafio maior que qualquer singularidade, é um espinho que não podemos ignorar: “Pode um ser humano saber se do outro lado está outro ser humano?”
view#000102 – 27 de fevereiro de 2020
De vez em quando, limões. O meu vizinho fala apenas grego. É magro e alto. Tem uns 80 anos. Um dia ajudei-o a podar uma árvore. A única do jardim que não é limoeiro e que está florida, delicadas flores brancas nos ramos sem folhas. Usar o serrote com uma mão e com a outra evitar a queda não foi fácil. Seguir as indicações do meu vizinho também não. É como eu, pouco eloquente de gestos. O trabalho, que começou quando ele me viu na varanda e me convocou para o logradouro, lá se fez. No final, disse-me para tirar limões dos ramos mais próximos. Não percebi se era uma oferta, pela minha ajuda. Tive que pousar os limões, para poder transportar alguns molhos de ramos cortados. Deixei os citrinos pousados numa mesa. E não voltei atrás para os trazer. Alguns dias mais tarde, cruzámo-nos e fez-me uma pergunta que tinha a palavra lemóni (λεμόνι). Tentei responder, mesmo sem saber qual era a pergunta. Disse que os tinha pousado e apontei para os arrumos, no rés-do-chão. Não nos entendemos e fomos para as nossas vidas, resignados com a falta de idioma comum. Agora, atira-me limões para a minha varanda. Ainda pensei que queria compensar o facto de eu não os ter trazido, pagando às prestações a sua gratidão. Mas os que arremessa para a minha varanda estão rebentados. Quando pego neles, esvaem-se em sumo. Todas as semanas os encontro, ácidos frutos de uma suculenta incompreensão.
view#000101 – 26 de fevereiro de 2020
Tímido e extrovertido, moderadamente nómada. Anarquista de coração, desconfiado de políticas messiânicas e apologéticas económicas. Atraído pelo que desconheço, corro demasiadas vezes o risco de falar do que não sei. Com saudade do futuro e tendência para imaginar realidades paralelas e colocar questões através de histórias sci-fi. Inábil em comunicação não verbal, valorizo mais o desporto, o sexo, a dança, o desenho e a música que os signos escritos. Intrigado pelo ato de traduzir, esse contacto de distintos mundos em que a interseção revela o que se incompreende. Escrevo. Porque a consciência gosta de um fio condutor ao silêncio.
view#000100 – 25 de fevereiro de 2020
Quando os teclados forem substituídos por conversas com inteligências artificiais, o nosso mundo mediado por tecnologia mais e mais subtil, quase humana, quem sabe nos assalte uma certa saudade deste cursor que pisca, imbecil e expectante, marcando o compasso do nosso espanto.
view#000099 – 24 de fevereiro de 2020
O infinito não é uma quantidade. É um limite. Pode algo tender para zero. Ou para infinito. E quer o zero quer o infinito permanecem a uma distância impossível. Há infinitos contáveis e infinitos impossíveis de contar. Há números transcendentes. Há números imaginários. Há equações, simples, que guardam o segredo da complexidade: fractais. Há incógnitas e constantes. Primeiro disse Tomás de Aquino que nem Deus consegue criar um triângulo cujos ângulos internos somem mais que 180 graus. E depois, no início do século XIX, Gauss e Schweikart lançaram as sementes da demonstração que o que é impossível a Deus afinal está ao alcance da imaginação humana.
O nome geometria não-euclidiana é ainda um tributo a Euclides. Na ciência, o sim e o não são duas respostas igualmente respeitáveis. Wolfgang Pauli terá dito uma vez, de um artigo muito fraco, que “nem sequer estava errado”. O poeta persa Omar Khayyam foi um dos pioneiros, no século XII, de ideias que permitiriam repensar a geometria. Para os gregos era também a geometria a base da matemática, não a teoria dos números, como para os matemáticos modernos. Devemos estar gratos a tantos poetas e filósofos que fizeram a matemática avançar. A eles devemos um vocabulário fantasista, estimulante, sonhador.
view#000098 – 23 de fevereiro de 2020
A divisão entre cidades e campo é uma tentação antiga. Acreditar nessa separação implica aceitar alguns paradigmas. Que o poder está nas cidades. Que a vida simples e natural está no campo. Que a produção de cultura e arte é coisa urbana. E que o contacto com a essência das coisas acontece no campo. Esta tensão entre natural e cultural é conceito estéril.
Onde houver humanos, encontra-se o natural e o cultural. Na megametrópole mais poluída e artificial. E na reserva natural mais intocada. E a natureza não pára ao ver sinais de trânsito e betão.
Mais útil e desafiador é o antagonismo entre mobilidade e falta dela. Os senhores feudais, como a aristocracia que se seguiu, moviam-se com agilidade entre o rural e o urbano. A compra de ilhas, por bilionários, mostra bem essa fluida capacidade de sair da cidade e a ela voltar. A compra de bilhetes para o espaço aumentará em breve o raio de ação de um punhado de pessoas.
Os refugiados são os que tiveram que conquistar um pouco de mobilidade, com enorme risco e sacrifício. E que são culpados de terem conseguido. Fugir da guerra, da perseguição política e da fome é impulso que não oferece escolha. Deixar os filhos crescer no meio de todo o tipo de violências está fora de questão.
Se há divisão cada vez mais nítida é entre os que não têm escolha e os que lhes querem limitar ainda mais o espaço de decisão. Não deixemos que os que reinam nos dividam ainda mais. É preciso exigir o mundo, para todos.
view#000097 – 22 de fevereiro de 2020
Antes da linguagem, movimento. Antes da fala, música. Antes da escrita, poesia. Antes da gramática, intuição. Antes da tradução, espanto. Antes da interpretação, mito. Antes do sacerdócio, magia. Antes do tempo, ritmo.