Kroeber

#000096 – 21 de fevereiro de 2020

No marco do correio uma mensagem: “more love letters”. Nos prédios okupados: graffitis de intervenção. Nas carruagens: tags e letring de cores desencontradas. Numa parede: mensagens racistas riscadas e substituídas pela mensagem “hate racism, love music”. De mão para mão: folhetos do partido comunista. As palavras estão na rua, combatem e amam, subvertem e reforçam, resistem. As minhas: procuram-te.

#000095 – 20 de fevereiro de 2020

O cheiro dos pimentos recheados paira já como um prenúncio. Ainda não comecei sequer a cortar a cebola e comovo-me já em saliva pavloviana.

#000094 – 19 de fevereiro de 2020

Por vezes as palavras dizem apenas tudo.

#000093 – 17 de fevereiro de 2020

Zakir Hussain enuncia as sílabas que irá tocar nas tablas. Cada bol um fonema absolutamente musical. Escuto o tamborilar dos seus dedos e medito, a mente dançando na gramática do silêncio.

#000092 – 16 de fevereiro de 2020

O castigo de Sísifo foi terrível. Empurrar uma pedra encosta acima até à exaustão. Deixá-la escapar, rolando, até à base da montanha. Descer e recomeçar e falhar de novo e voltar a um início sem fim. O castigo não foi a tarefa. Não foi sequer juntar-lhe a eternidade. Castigo é receber dos deuses essa vontade de repetir o que nunca funcionará, esse impulso para o conformismo, essa procura mesmo da ausência de surpresas. Diz um cruel ditado português que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Descer, já nem olhando a pedra, porque ela estará sempre no mesmo sítio, é essa folga. E o alívio é possibilitado pela inutilidade do esforço. A recompensa é não a ter.

#000091 – 15 de fevereiro de 2020

O efeito de borboleta é incrível precisamente por ser assim que a realidade material funciona. A ciência descreve o real, iluminando-o.

#000090 – 14 de fevereiro de 2020

Estender a toalha sobre o silêncio.

#000089 – 13 de fevereiro de 2020

Tenzin Palmo foi eremita durante 12 anos. Foi viver numa caverna nas montanhas. Meditação, isolamento, escassez de comida e frio. Ingredientes simples de uma travessia inimaginavelmente difícil. Ao descer para o mundo, ajudou a mudar o budismo tibetano, no que toca ao papel das monjas (bhikṣuṇī), às suas aspirações de igualdade com os monjes (bhikkhus). Ainda na caverna, conta a monja a propósito da ligação com o seu guru, um nevão tinha-lhe bloqueado completamente a entrada da caverna. Com as mãos, começou a cavar com dificuldade. Foi avançando centímetro a centímetro, a neve a congelar, o organismo a aproximar-se da hipotermia, as forças de um corpo já frágil a esvairem-se. Pensou, vou aceitar que é este o meu momento. Vou meditar, para poder entrar no outro plano com uma mente tranquila, equânime. Percebeu que estava a desistir, quando ouviu claramente, na sua mente, a voz de Khamtrul Rinpoche. Disse-lhe o guru: Cava!

#000088 – 12 de fevereiro de 2020

Cozinhar é hedonismo. Usa-se os ingredientes da saciedade para transformar a sobrevivência num ritual autotélico, numa deflagração saboreada.

#000087 – 11 de fevereiro de 2020

A beleza encontra lugares no mundo por onde espreitar, fulgurante e inesperada, como um tesouro que foge da caverna do seu zeloso dragão.